segunda-feira, outubro 30, 2006

Abstenção no referendo ao aborto "vai ser fatal outra vez"



A abstenção pode ser fatal outra vez." É a convicção de D. José Policarpo alicerçada na sua constatação de que há muitos cidadãos com dificuldade em abordar o aborto. Palavras de uma entrevista realizada na tarde de quinta-feira no seu gabinete do Patriarcado de Lisboa.
Portugal vai votar, tudo indica, um novo referendo sobre o aborto. A Igreja Católica vai fazer campanha?A questão é fundamentalmente de consciência. As campanhas têm uma marca partidária e servem para convencer os votantes para a justeza da escolha de um projecto político. Esta é uma questão transversal. Se há pessoas que têm já uma posição completamente tomada, tudo leva a crer que há uma camada da população para quem a questão é dolorosa, incómoda. Se a campanha for motivada no sentido de um debate esclarecedor das consciências, não teria dúvida nenhuma em dizer que entro na campanha. Se a campanha se assemelha à anterior, a uma campanha partidária, penso que aí não é o meu lugar. Gostaria que as pessoas não perdessem a calma... O ideal seria não haver campanha? Os cidadãos já têm uma convicção... Não sou tão optimista. Há muitas confusões. Só podem ter uma posição absolutamente assumida quanto à legalidade da interrupção de uma vida no seio materno por duas razões: ou porque têm dúvidas sobre quando começa a vida ou porque não respeitam a vida. O processo é oculto, dinâmico e progressivo desde a fecundação ao nascimento. A medicina fez avanços extraordinários, mas há dúvidas. Em que momento começa a vida? Essa é uma questão que pode ser esclarecida.A Igreja tem condições, num cenário em que a campanha seja movida pelos partidos, para fazer a sua sensibilização ou ficará de fora?Estamos a tentar fazê-la. Há grupos de católicos, e não só, que têm uma posição clara, e esses sim têm o direito de se constituírem como grupos cívicos e fazer campanha.O porta-voz da Conferência Episcopal afirmou há algum tempo que a campanha seria "dinamizada e coordenada pelos bispos de cada diocese". Isto faz sentido à luz das circunstâncias actuais e das decisões tomadas pelos bispos?Isso não foi uma decisão tomada. A maior parte dos grupos que se estão a organizar pelo "não" tem referências católicas e, nem sempre com um discernimento perfeito, pensam que nós devemos estar com eles na primeira linha desta luta. A minha estratégia em Lisboa, que é comum a todos os bispos, não está gizada. A única coisa que fizemos foi decidir que um membro do conselho permanente - o bispo de Leiria, D. António Marto - acompanharia em nosso nome os representantes desses grupos, para não estarmos todos a receber as mesmas pessoas. É natural que ele tenha dado orientações. Isso não significa que seja o coordenador. É um diálogo pastoral. Todos têm o direito de falar e ouvir os nossos conselhos. Isso acontecerá nos púlpitos das igrejas?Não. Vai depender da arte e da discrição de cada sacerdote, mas não gostaria de ver os púlpitos das homilias de domingo transformados só em púlpitos de campanha pró-vida. Não é aí que o esclarecimento faz mais falta porque os ouvintes das missas de domingo são aqueles que normalmente já têm a sua posição.Que diferença vai haver em relação à campanha de 1998? O que é que a Igreja aprendeu com o primeiro referendo?Firmeza doutrinal e um desejo de esclarecimento. A pregação é sempre doutrina da Igreja e é motivada pelos acontecimentos. É natural que quem está empenhado na campanha pelo "sim" tente neutralizar a influência da Igreja, que é a força mais notória pelo "não". Para os cristãos, é uma questão de fidelidade aos mandamentos. Pode um católico considerar que uma vida humana não começa no embrião? Não com justeza. Se me pergunta se há católicos que podem ter interpretações imperfeitas e superficiais daquilo em que acreditam? Há. O conceito de "pessoa" surgiu na teologia nos séculos III/IV curiosamente para definir as pessoas divinas. Pessoa define-se como sujeito de relação. Ninguém diz que no embrião está uma vida completa. Também não está no recém-nascido. A vida é um processo... Hoje toda a gente sabe que o embrião tem todo o programa genético.Olhando para a legislação europeia, apenas a Irlanda e Portugal têm leis tão restritivas. Devemos continuar a penalizar as mulheres? Tenho uma pena enorme dos comentários que dizem que é uma vergonha não termos uma lei tão aberta e permissiva... Isto leva-me ao futuro da Europa, que abdicou dos grandes valores. A Europa está em declínio e estas questões que foram introduzidas por uma cedência progressiva por via pragmática vão ter uma viragem inevitavelmente. Até que ponto se justifica criminalizar e levar à cadeia quem tenha feito um aborto? Ainda por cima sabendo que a Igreja tem o sacramento do perdão...A seguir ao 25 de Abril fui muitas vezes à televisão, umas vezes porque me pediam pessoalmente, outras porque o senhor cardeal Ribeiro me pedia. E numa mesa-redonda alguém me pôs essa questão. Disse nessa altura que se fosse possível separar a proibição ética do aborto da sua criminalização eu seria favorável a isso. Dois dias depois, um professor universitário meu amigo chamou-me e disse: "Você nunca diga uma coisa dessas em público porque para ser um ilícito tem de ter uma pena." E eu respondi-lhe: "Essa é uma questão de direito penal, então qual é a solução?" A solução é só de jurisprudência. O juiz tem de ter em conta as atenuantes e condenar ou não condenar. Essa argumentação é do direito. E a Igreja não se move apenas pela lei... Não nos metemos na questão de direito penal. A maior parte das mulheres que passa pela experiência do aborto precisa de ser ajudada e não condenada. E o apoio é mais social do que legal. Uma nova legislação não pode combater o aborto clandestino? Os dados que tenho mostram que a legalização do aborto aumenta o seu número. Há mulheres que não o fariam clandestinamente e que passariam a fazê-lo. Não está confirmado que diminuam, até porque é uma realidade que ninguém conhece. O Parlamento decidiu por duas vezes fazer um estudo, mas nunca o fez. Saudei-o, mas nunca o fez. Se não fosse uma realidade gritante porque é que há esta preocupação cíclica de trazer o tema ao debate público?Porque há grupos de pressão muito grandes...E também convicções... Há muitos cidadãos que se sentem mal a abordar esta questão e por isso a abstenção vai ser fatal outra vez. Os nossos estudos mostram que a maior parte dos cidadãos sente-se mal a ter de se pronunciar sobre esta questão. É de outra ordem... Até agora não o ouvimos utilizar a palavra "liberalização"... Prefiro dizer que é uma legalização, não é uma simples despenalização. É uma lei que cria um direito cívico. Criou-se a ideia de que teria feito um apelo à abstenção antes da reunião da Conferência Episcopal. E por isso fez um comunicado...Disse que o aborto não é uma questão religiosa, é de ética fundamental. Isso despertou muitas reacções, mesmo entre cristãos (recebi uma correspondência abundante), e só faltou acusarem-me de ser o promotor da lei... Por isso fiz um comunicado. Comecei por dizer que a doutrina da Igreja não mudou e não vai mudar, mas isso ninguém ouviu, nem os católicos mais exaltados me responderam. Sobre a abstenção perguntaram-me o que é que aconselhava a uma pessoa que estivesse com dúvidas. Disse que não aconselhava nada. Uma pessoa com dúvidas sobre uma questão tão fundamental certamente se abstinha. Há gente com muitas dúvidas. Uma pessoa que está disposta a votar "sim" e que tem dúvidas, se não é capaz de votar "não", pelo menos não arrisque.Se o "sim" ganhar, mas o referendo não for vinculativo, deve o Parlamento legislar, como defende o ministro António Costa?O senhor ministro fez uma comparação que não me parece completamente justa. Disse que da mesma maneira que da outra vez respeitaram o "não", se o "sim" ganhar com menos de 50% têm todo o direito de legislar. Em qualquer caso, têm o direito de legislar. Agora terão mais manobra política para o fazer se esse cenário se verificar.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Patriarca de Lisboa esclarece posição quanto ao aborto

COMUNICADO

As minhas respostas à comunicação social, que me interpelou sobre a hipótese de um novo referendo sobre o aborto, foram incorrectamente utilizadas por alguns meios de comunicação e mesmo por forças políticas e parecem ter gerado confusão e mesmo indignação em algumas pessoas. Parece-me, pois, necessário retomar as afirmações aí feitas, com uma clareza que não permita interpretações ambíguas ou desviadas.

1. Comecei por afirmar, o que parece que ninguém ouviu, que a doutrina da Igreja sobre esta matéria, não mudou e nunca mudará. De facto, desde o seu início, a Igreja condenou o aborto, porque considera que desde o primeiro momento da concepção, existe um ser humano, com toda a sua dignidade, com direito a existir e a ser protegido.

2. Afirmei, de facto, que a “condenação do aborto não é uma questão religiosa, mas de ética fundamental”. Trata-se, de facto, de um valor universal, o direito à vida, exigência da moral natural. Com esta afirmação não foi minha intenção negar a sua dimensão religiosa. A mensagem bíblica assumiu, como preceito da moral religiosa este valor universal, dando-lhe a densidade do cumprimento da vontade de Deus. Não é só por se ser católico que se é contra o aborto; basta respeitar a vida e este é, em si mesmo, um valor ético universal.
É claro que o respeito pela vida é uma exigência da moral cristã, porque está incluído no quinto mandamento da Lei de Deus: “Não matarás”. Porque é um preceito da moral cristã, violá-lo é um pecado grave. Mas o Decálogo, estabelecido, pela primeira vez no Antigo Testamento, por Moisés, consagrou como Lei do Povo de Deus, alguns dos valores humanos universais, que interpelam a consciência mesmo de quem não é religioso. E de facto, na presente circunstância, há muitos homens e mulheres que, não sendo crentes, são contra o aborto porque defendem a dignidade da vida, desde o seu início.
Se a condenação do aborto fosse só exigência da moral religiosa, os defensores do aborto poderiam argumentar, e já o fazem, que as Leis de um Estado laico não devem proteger os preceitos religiosos; basta-lhes respeitar a liberdade de consciência. De facto não lembraria a ninguém exigir de uma Lei do Estado que afirmasse, por exemplo, que os católicos têm obrigação de ir à missa ao Domingo. Se nós lutamos por uma Lei do Estado que defenda a vida humana desde o seu início é porque se trata de um valor universal, de ética natural e não apenas de um preceito da moral religiosa.

3. À pergunta se a Igreja se iria empenhar nesta campanha, comecei por clarificar o sentido em que usavam a palavra “Igreja”, se referida a todos os fiéis, se apenas aos Bispos. Isto porque, muito frequentemente, os jornalistas quando falam da Igreja se referem só aos Bispos e Sacerdotes. Esclarecida esta questão, aproveitei para exprimir aquilo que penso ser o papel complementar dos leigos e da Hierarquia numa possível campanha a preparar o referendo. Devo dizer, agora, para clarificar o meu pensamento, que essa possível campanha deveria ser, sobretudo, um período de esclarecimento das consciências. Mas porque a proposta de leis liberalizantes da prática do aborto se tornou numa causa partidária, a campanha pode cair, na linguagem e nos métodos, numa vulgar campanha política.
Fique claro que todos os membros da Igreja e todos os que defendem a vida são chamados a participar nesse debate esclarecedor das consciências. Compete aos leigos organizar e dinamizar uma campanha, no concreto da sua metodologia. O papel dos pastores é apoiar, e iluminar as consciências com a proclamação da doutrina da Igreja, anunciando o Evangelho da Vida. Aos Sacerdotes da nossa Diocese eu peço que se empenhem nesta proclamação da doutrina da Igreja sobre a vida, mas que saibam sabiamente marcar a diferença entre o seu ministério de anunciadores da verdade, e as acções de campanha, necessárias e legítimas no seu lugar próprio. Mas os leigos poderão contar com todo o nosso apoio nesta luta por uma Lei que respeite a vida.

4. Não fiz a apologia do abstencionismo. Aconselhar a abstenção não será, concerteza, a orientação dos Bispos portugueses perante um possível referendo. A questão que me foi posta é outra: e os que têm dúvidas, como deverão votar?
Esta questão da dignidade da vida humana, desde o seu início, é hoje tão clara, mesmo do ponto de vista científico, que um dos objectivos a conseguir, durante o período de debate e esclarecimento é, pelo menos, lançar a dúvida em muitos que, talvez sem terem aprofundado a questão, estão inclinados a dizer “sim” à proposta de Lei referendada. Penso sobretudo no eleitorado mais jovem. Foi-me perguntado o que aconselharia a esses que duvidavam. A minha resposta é clara: se não têm coragem de votar “não”, que pelo menos se abstenham.

5. Àqueles que interpretaram abusivamente as minhas respostas ou, porque não as entenderam, ficaram confusos, aqui fica, com clareza, o meu pensamento. Mais uma vez se aplica a frase de Jesus: “A verdade nos libertará”.

Lisboa, 19 de Outubro de 2006

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

segunda-feira, outubro 23, 2006

Razões para escolher a vida

Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobre o referendo ao aborto
1. A Assembleia da República decidiu sujeitar, mais uma vez, a referendo popular o alargamento das condições legais para a interrupção voluntária da gravidez, acto vulgarmente designado por aborto voluntário. Esta proposta já foi rejeitada em referendo anterior, embora a percentagem de opiniões expressas não tivesse sido suficiente para tornar a escolha do eleitorado constitucionalmente irreversível, o que foi aproveitado pelos defensores do alargamento legal do aborto voluntário.

Nós, Bispos Católicos, sentimos perplexidade acerca desta situação. Antes de mais porque acreditamos, como o fez a Igreja desde os primeiros séculos, que a vida humana, com toda a sua dignidade, existe desde o primeiro momento da concepção. Porque consideramos a vida humana um valor absoluto, a defender e a promover em todas as circunstâncias, achamos que ela não é referendável e que nenhuma lei permissiva respeita os valores éticos fundamentais acerca da Vida, o que se aplica também à Lei já aprovada. Uma hipotética vitória do "não" no próximo referendo não significa a nossa concordância com a Lei vigente.
2. Para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave porque é uma violação do 5º Mandamento da Lei de Deus, "não matarás", e é-o mesmo quando legalmente permitido.

Mas este mandamento limita-se a exprimir um valor da lei natural, fundamento de uma ética universal. O aborto não é, pois, uma questão exclusivamente da moral religiosa; ele agride valores universais de respeito pela vida. Para os crentes acresce o facto de, na Sua Lei, Deus ter confirmado que esse valor universal é Sua vontade.
Não podemos, pois, deixar de dizer aos fiéis católicos que devem votar "não" e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade da vida humana, desde o seu primeiro momento. O período de debate e esclarecimento que antecede o referendo não é uma qualquer campanha política, mas sim um período de esclarecimento das consciências. A escolha no dia do referendo é uma opção de consciência, que não deve ser influenciada por políticas e correntes de opinião. Nós, os Bispos, não entramos em campanhas de tipo político, mas não podemos deixar de contribuir para o esclarecimento das consciências. Pensamos particularmente nos jovens, muitos dos quais votam pela primeira vez e para quem a vida é uma paixão e tem de ser uma descoberta.
Assim enunciamos, de modo simples, as razões para votar "não" e escolher a Vida:
1ª. O ser humano está todo presente desde o início da vida, quando ela é apenas embrião. E esta é hoje uma certeza confirmada pela Ciência: todas as características e potencialidades do ser humano estão presentes no embrião. A vida é, a partir desse momento, um processo de desenvolvimento e realização progressiva, que só acabará na morte natural. O aborto provocado, sejam quais forem as razões que levam a ele, é sempre uma violência injusta contra um ser humano, que nenhuma razão justifica eticamente.
2ª. A legalização não é o caminho adequado para resolver o drama do "aborto clandestino", que acrescenta aos traumas espirituais no coração da mulher-mãe que interrompe a sua gravidez, os riscos de saúde inerentes à precariedade das situações em que consuma esse acto. Não somos insensíveis a esse drama; na confidencialidade do nosso ministério conhecemos-lhe dimensões que mais ninguém conhece. A luta contra este drama social deve empenhar todos e passa por um planeamento equilibrado da fecundidade, por um apoio decisivo às mulheres para quem a maternidade é difícil, pela dissuasão de todos os que intervêm lateralmente no processo, frequentemente com meros fins lucrativos.
3ª. Não se trata de uma mera "despenalização", mas sim de uma "liberalização legalizada", pois cria-se um direito cívico, de recurso às instituições públicas de saúde, preparadas para defender a vida e pagas com dinheiro de todos os cidadãos.
"Penalizar" ou "despenalizar" o aborto clandestino, é uma questão de Direito Penal. Nunca fizemos disso uma prioridade na nossa defesa da vida, porque pensamos que as mulheres que passam por essa provação precisam mais de um tratamento social do que penal. Elas precisam de ser ajudadas e não condenadas; foi a atitude de Jesus perante a mulher surpreendida em adultério: "alguém te condenou?... Eu também não te condeno. Vai e doravante não tornes a pecar".
Mas nem todas as mulheres que abortam estão nas mesmas circunstâncias e há outros intervenientes no aborto que merecem ser julgados. É que tirar a vida a um ser humano é, em si mesmo, criminoso.
4ª. O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não. Mas desde que uma vida foi gerada no seu seio, é outro ser humano, em relação ao qual tem particular obrigação de o proteger e defender.
5ª. O aborto não é uma questão política, mas de direitos fundamentais. O respeito pela vida é o principal fundamento da ética, e está profundamente impresso na nossa cultura. É função das leis promoverem a prática desse respeito pela vida. A lei sobre a qual os portugueses vão ser consultados em referendo, a ser aprovada, significa a degenerescência da própria lei. Seria mais um caso em que aquilo que é legal não é moral.
3. Pedimos a todos os fiéis católicos e a quantos partilham connosco esta visão da vida, que se empenhem neste esclarecimento das consciências. Façam-no com serenidade, com respeito e com um grande amor à vida. E encorajamos as pessoas e instituições que já se dedicam generosamente às mães em dificuldade e às próprias crianças que conseguiram nascer.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Ser missionário é anunciar que Deus é amor

Ser missionário é anunciar que Deus é amor, afirma Bento XVI na mensagem que escreveu por ocasião do octagésimo Domingo Mundial das Missões. Por este motivo, o tema escolhido para este dia, que nesta ocasião se celebra no domingo 22 de Outubro, é «A caridade, alma da missão».

«A missão, se não está orientada pela caridade, ou seja, se não surge de um profundo acto de amor divino, corre o risco de se reduzir a uma mera actividade filantrópica e social», adverte o Papa.

«O amor que Deus tem por cada pessoa constitui, de facto, o coração da experiência e do anúncio do Evangelho, e todos os que o acolhem se convertem por sua vez em testemunhas», acrescenta. «Toda comunidade cristã está chamada, portanto, a dar a conhecer que Deus é Amor».

Por este motivo, o Papa deseja que a Jornada Missionária Mundial seja uma oportunidade «para compreender cada vez melhor que o testemunho do amor, alma da missão, diz respeito a todos». «Servir ao Evangelho não deve ser considerado como uma aventura solitária, mas como um compromisso compartilhado de toda comunidade», sublinha o texto.

«Junto aos que estão na primeira linha das fronteiras da evangelização - e penso com reconhecimento nos missionários e nas missionárias - muitos outros, crianças, jovens e adultos, contribuem com a oração e a sua cooperação de diversos modos à difusão do Reino de Deus na terra», conclui o Santo Padre.

Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Missão

Queridos irmãos e irmãs!
1. O Dia Mundial da Missão que celebraremos, se Deus quiser, no domingo 22 de outubro, oferece a oportunidade de refletir este ano sobre o tema «A caridade, alma da missão». A missão, se não está orientada pela caridade, ou seja, se não surge de um profundo ato de amor divino, corre o risco de reduzir-se a mera atividade filantrópica e social. O amor que Deus tem por cada pessoa constitui, de fato, o coração da experiência e do anúncio do Evangelho, e todos que o acolhem se convertem por sua vez em testemunhas. O amor de Deus que dá vida ao mundo é o amor que a nós entregue em Jesus, Palavra de salvação, imagem perfeita da misericórdia do Pai celestial. A mensagem salvífica poder-se-ia sintetizar, portanto, nas palavras do Evangelista João: «Nisto se manifestou o amor que Deus nos tem; em que Deus enviou ao mundo seu Filho único para que vivamos por meio dele» (1 João 4, 9). O mandato de difundir o anúncio deste amor foi confiado por Jesus aos apóstolos depois de sua ressurreição, e os apóstolos, transformados interiormente no dia de Pentecostes pela potência do Espírito Santo, começaram a dar testemunho do Senhor morto e ressuscitado. Desde então, a Igreja segue esta mesma missão, que constitui para todos os crentes um compromisso irrenunciável e permanente.
2. Toda comunidade cristã está chamada, portanto, a dar a conhecer que Deus é Amor. Neste mistério fundamental de nossa fé quis deter-me a refletir na encíclica «Deus caritas est». Deus penetra com seu amor toda a criação e a história humana. O homem, em sua origem, saiu das mãos do Criador como fruto de uma iniciativa de amor. O pecado ofuscou depois nele a marca divina. Enganados pelo maligno, os primeiros pais Adão e Eva abandonaram a relação de confiança com seu Senhor, cedendo à tenção do maligno, que introduziu neles a suspeita de que Ele era um rival e queria limitar sua liberdade. Deste modo, preferiram a si mesmos em lugar do amor gratuito divino, persuadidos de que desta maneira estavam reafirmando seu livre arbítrio. Como conseqüência, acabaram perdendo a felicidade original e experimentaram a amargura da tristeza do pecado e da morte. Deus, contudo, não os abandonou e prometeu a eles e a sua descendência a salvação, preanunciando o envio de seu Filho unigênito, Jesus, que revelaria, na plenitude dos tempos, seu amor de Pai, um amor capaz de resgatar toda criatura humana da escravidão do mal e da morte. Em Cristo, portanto, comunicou-se a vida imortal, a mesma vida da Trindade. Graças a Cristo, Bom Pastor, que não abandona a ovelha perdida, dá-se a possibilidade aos homens de todos os tempos de entrar na comunhão com Deus, Pai misericordioso, disposto a voltar a acolher em sua casa o filho pródigo. Sinal surpreendente deste amor é a Cruz. Em sua morte na cruz, Cristo --como escrevi na encíclica «Deus caritas est»-- «realiza esse se colcoar Deus contra si mesmo, ao entregar-se para dar nova vida ao homem e salvá-lo: isto é amor em sua forma mais radical […]. É ali, na cruz, onde se pode contemplar esta verdade. E a partir dali se deve definir agora o que é o amor. E, desde essa visão, o cristão encontra a orientação de seu viver e de seu amar» (n. 12).
3. Na vigília de sua paixão, Jesus deixou como testamento aos discípulos, reunidos no Cenáculo para celebrar a Páscoa, o «mandamento novo do amor – “mandatum novum”»: «O que vos mando é que vos ameis uns aos outros» (João 15, 17). O amor fraterno que o Senhor pede a seus «amigos» tem seu manancial no amor paterno de Deus. Observa o apóstolo João: «todo o que ama nasceu de Deus e conhece a Deus» (1 João 4, 7). Portanto, para amar segundo Deus é necessário viver nEle e dEle: é Deus a primeira «casa» do homem e só quem habita nEle arde com um fogo de caridade divina capaz de «incendiar» o mundo. Não é esta a missão da Igreja em todos os tempos? Então não é difícil compreender que a autêntica solicitude missionária, compromisso primário da comunidade eclesial, está unida à fidelidade ao amor divino, e isto vale para cada cristão, para cada comunidade local, para as Igrejas particulares e para todo o Povo de Deus. Precisamente da consciência desta missão comum recobra forças a generosa disponibilidade dos discípulos de Cristo para realizar obras de promoção humana e espiritual que testemunham, como escrevia o querido João Paulo II na Encíclica «Redemptoris misio», «a alma de toda a atividade missionária»: «o amor, que é e continua sendo a força da missão, e é também o único critério segundo o qual tudo se deve fazer e não fazer, mudar e não mudar. É o princípio que deve dirigir toda ação e o fim ao qual deve tender. Atuando com caridade ou inspirados pela caridade, nada é disforme e tudo é bom» (número 60). Ser missionários significa amar a Deus com todo nosso ser, até dar, se é necessário, inclusive a vida por Ele. Quantos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, também em nossos dias, ofereceram o supremo testemunho de amor com o martírio! Ser missionários é atender, como o bom Samaritano, as necessidades de todos, especialmente dos mais pobres e necessitados, porque quem ama com o coração de Cristo não busca o próprio interesse, mas unicamente a glória do Pai e o bem do próximo. Este é o segredo da fecundidade apostólica da ação missionária, que supera as fronteiras e as culturas, chega aos povos e se difunde até os confins extremos do mundo.
4. Queridos irmãos e irmãs, que a Jornada Missionária Mundial seja uma oportunidade para compreender cada vez melhor que o testemunho do amor, alma da missão, concerne a todos. Servir ao Evangelho não deve ser considerado como uma aventura em solitária, mas como um compromisso compartilhado de toda comunidade. Junto aos que estão em primeira linha nas fronteiras da evangelização --e penso com reconhecimento nos missionários e nas missionárias-- muitos outros, crianças, jovens e adultos, contribuem com a oração e sua cooperação de diversos modos à difusão do Reino de Deus na terra. O desejo é que esta participação cresça cada vez mais graças à contribuição de todos. Aproveito esta oportunidade para manifestar minha gratidão à Congregação para a Evangelização dos Povos e às Pontifícias Obras Missionárias (PP.OO.MM.), que com entrega coordenam os esforços deslocados em todas as partes do mundo em apoio à ação de todos que se encontram em primeira fila nas fronteiras da missão. Que a Virgem Maria, que com sua presença na Cruz e sua oração no Cenáculo colaborou ativamente nos inícios da missão eclesial, apóie sua ação e ajude aos crentes em Cristo a ser cada vez mais capazes de autêntico amor, para que em um mundo espiritualmente sedento se convertam em manancial de água viva. Apresento meu auspício de coração, enquanto envio a todos minha Benção.
Vaticano, 29 de abril de 2006.
BENEDICTUS PP. XVI