terça-feira, novembro 28, 2006

Viagem do Papa à Turquia

A quinta viagem apostólica de Bento XVI à Turquia tem três objectivos: trata-se de uma visita de carácter pastoral, ecuménico e de promoção do diálogo com o Islão.
Visita Pastoral
Antes de tudo, como sucede em todas suas visitas, ele vai como bispo de Roma para confirmar na fé a pequena comunidade católica, presente com seus diferentes ritos (latino, arménio católico, siro-católico e caldeu). Segundo o Anuário Estatístico da Santa Sé, neste país de mais de 72 milhões de habitantes, dos quais 99% são muçulmanos, os católicos são cerca de 32.000, ou seja, 0,04%. Contam com 47 paróquias. São assistidos por seis bispos, por 13 sacerdotes diocesanos, 55 sacerdotes religiosos, 4 diáconos permanentes, 12 religiosos não sacerdotes, 86 religiosas, 8 missionários leigos e 28 catequistas. Neste país, a Igreja Católica não conta com reconhecimento jurídico, nem com autêntica liberdade religiosa. O Papa presidirá duas celebrações eucarísticas com os fiéis católicos no país. A primeira acontecerá em 29 de Novembro, no santuário mariano nacional de Meyem Ana Evi, ou seja, a Casa da Mãe Maria, em Efeso, cidade na qual o concílio de 431 proclamou sua divina maternidade. A segunda celebração eucarística acontecerá em 1º de Dezembro, último dia da viagem, em Istambul, na Igreja catedral do Espírito Santo.
Visita Ecuménica
O Papa vai a Istambul para responder ao convite do patriarca Ecuménico de Constantinopla, Sua Santidade Bartolomeu I, apresentada no começo de seu pontificado. O pontífice, deste modo, confirma que a busca da unidade plena entre os cristãos é uma de suas prioridades, segundo já declarou em 20 de Abril de 2005, em sua homilia pronunciada na Capela Sistina, um dia depois de sua eleição. Em 29 de Novembro, o Papa participará de um encontro de oração e de diálogo com o patriarca ecuménico. O ponto central da visita ao patriarca ecuménico será o dia 30 de Novembro, memória litúrgica do apóstolo André, irmão de São Pedro. A participação do Papa na Divina Liturgia seguida de uma breve oração comum e da apresentação de uma lápida em memória dos últimos três pontífices que visitaram o patriarcado [João XXIII como delegado apostólico e Paulo VI e João Paulo II como papas], concluirá com a leitura e a firma de uma declaração conjunta entre o Santo Padre e o Patriarca Bartolomeu I. Nesse mesmo dia, Bento XVI visitará sua Beatitude o Patriarca Mesrob II Mutafyan, na sede do Patriarcado Arménio Apostólico, que não se encontra em comunhão plena com Roma, ainda que nas últimas décadas deu importantes passos de aproximação.Com este mesmo espírito de fraterna comunhão com Cristo, o Santo Padre receberá, na sede da Representação Pontifícia de Istambul, o arcebispo siro-ortodoxo e alguns líderes das comunidades protestantes.
Diálogo Inter-religioso
Por último, esta viagem a um país leigo, mas de maioria islâmica, busca o diálogo inter-religioso. Neste sentido, terá uma importância decisiva a visita que realizará na terça-feira, 28 de Novembro, ao Mausoléu de Mustafá Kemal Ataturk (1881-1938), fundador e primeiro presidente da moderna República da Turquia. A seguir, após encontrar-se com o presidente da República e com o vice-primeiro-ministro, pronunciará um esperado discurso ante o presidente para os Assuntos Religiosos do país, onde poderia discutir questões ligadas ao diálogo e convivência entre muçulmanos e cristãos. Para mostrar sua estima pelos seguidores do Islão, o Papa pediu visitar, na tarde de 30 de Novembro, a Mesquita Azul, a maior de Istambul. A importância ao diálogo inter-religioso será sublinhada pelo Papa ao visitar, nesse mesmo dia, pouco depois, o Grão-Rabino da Turquia.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Declaração conjunta de Bento XVI e do arcebispo primaz da Comunhão Anglicana

Declaração comum
Há 40 anos, nossos predecessores, o Papa Paulo VI e o arcebispo Michael Ramsey, se encontraram nesta cidade santificada pelo ministério e pelo sangue dos apóstolos Pedro e Paulo. Começaram um novo itinerário de reconciliação baseado nos Evangelhos e nas antigas tradições comuns. Séculos de afastamento entre anglicanos e católicos deram passo a um novo desejo de união e cooperação, enquanto se redescobria e afirmava a comunhão real, ainda que incompleta, que compartilhamos. O Papa Paulo VI e o arcebispo Ramsey acordaram nessa ocasião estabelecer um diálogo no qual os temas que haviam sido motivo de divisão no passado fossem enfrentados desde uma nova perspectiva com verdade e amor. A partir daquele encontro, a Igreja Católica e a Comunhão Anglicana empreenderam um processo de diálogo fecundo, que se caracterizou pela descoberta de significativos elementos de fé compartilhada e pelo desejo de expressar, através da oração conjunta, um testemunho e um serviço àquilo que temos em comum. Durante mais de 35 anos, a Comissão Anglicano-Católica Internacional (ARCIC, por suas siglas em inglês) pronunciou um importante número de documentos que buscam articular a fé que compartilhamos. Nos últimos dez anos, desde que o Papa e o arcebispo de Canterbury firmaram a mais recente declaração conjunta, a segunda fase da ARCIC completou seu mandato com a publicação dos documentos «O dom da autoridade» (1999) e «Maria, graça e esperança em Cristo» (2005). Damos graças aos teólogos que rezaram e trabalharam juntos na preparação destes textos, que esperam um ulterior estudo e reflexão. (...) Recordando nossos quarenta anos de diálogo, e o testemunho de homens e mulheres santos, comuns a nossas tradições, entre os que se encontram Maria, a «Theotókos», os santos Pedro e Paulo, Bento, Gregório Magno e Agostinho de Canterbury, nós nos comprometemos a viver uma oração mais fervorosa e uma maior entrega para acolher e viver esta verdade rumo à qual o Espírito do Senhor deseja conduzir seus discípulos (cf. João 1, 13). Confiando na esperança apostólica «de que, quem iniciou em vós a boa obra, a irá consumando até o dia de Cristo Jesus» (cf. Filipenses 1, 6), cremos que se nos convertemos juntos em instrumentos de Deus para convidar todos os cristãos a uma mais profunda obediência de nosso Senhor, também nos aproximaremos ainda mais mutuamente, encontrado em sua vontade a plenitude da unidade e da vida comum à qual Ele nos chama.
Vaticano, 23 de novembro de 2006.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Trechos do livro «Jesus de Nazaré»

Publicamos alguns trechos do prefácio do primeiro volume do livro «Jesus de Nazaré», que o Papa Bento XVI publicará na próxima primavera européia. As passagens foram facilitadas por Rizzoli, editor a quem se concedeu os direitos internacionais.
Prefácio
Cheguei ao livro sobre Jesus, do qual apresento agora a primeira parte, após um longo caminho interior. Nos tempos de minha juventude -- anos trinta e quarenta -- publicou-se uma série de livros apaixonantes sobre Jesus. Recordo o nome de alguns autores: Karl Adam, Romano Guardini, Franz Michel Willam, Giovanni Papini, Jean Daniel-Rops. Em todos estes livros, a imagem de Jesus Cristo se delineava a partir dos evangelhos: como viveu sobre a Terra e como, apesar de ser plenamente homem, levou ao mesmo tempo os homens a Deus, com o qual, como Filho, era uma coisa só. Assim, através do homem Jesus, Deus se tornou visível, e a partir de Deus se pôde ver a imagem do homem justo.A partir dos anos cinqüenta, a situação mudou. O desgarre entre o «Jesus histórico» e o «Cristo da fé» se tornou cada vez maior: um se afastou do outro rapidamente. Mas que significado pode ter a fé em Jesus Cristo, em Jesus Filho do Deus vivo, se depois o homem Jesus era tão diferente de como o apresentavam os evangelistas e de como o anuncia a Igreja a partir dos Evangelhos?Os progressos da pesquisa histórico-crítica levaram a distinções cada vez mais sutis entre os diversos estratos da tradição. Por trás deles, a figura de Jesus, sobre a qual se apóia a fé, se fez cada vez mais incerta, assumiu características cada vez menos definidas. Ao mesmo tempo, as reconstruções sobre este Jesus, que devia ser buscado a partir das tradições dos evangelistas e suas fontes, tornaram-se cada vez mais contraditórias: desde o revolucionário inimigo dos romanos que se opunha ao poder constituído e naturalmente fracassa, ao manso moralista que tudo permite e inexplicavelmente acaba por causar sua própria ruína. Quem ler várias destas reconstruções pode constatar rapidamente que são mais fotografias dos autores e de seus ideais que o verdadeiro questionamento de uma imagem que se tornou confusa. Enquanto isso, ia crescendo a desconfiança para com estas imagens de Jesus, e a própria figura de Jesus ia se afastando cada vez mais de nós. Todos estas tentativas deixaram, como denominador comum, a impressão de que sabemos muito pouco sobre Jesus, e que só mais tarde a fé em sua divindade plasmou sua imagem. Enquanto isso, esta imagem foi penetrando profundamente na consciência comum da cristandade. Semelhante situação é dramática para a fé, porque torna incerto seu autêntico ponto de referência: a amizade íntima com Jesus, de quem tudo depende, se debate e corre o risco de cair no vazio. [...]Senti a necessidade de dar aos leitores estas indicações de caráter metodológico para que determinem o caminho de minha interpretação da figura de Jesus no Novo Testamento. Pelo que se refere à minha apresentação de Jesus, isto significa antes de tudo que eu tenho confiança nos Evangelhos. Naturalmente, dou por descontado quanto o Concílio e a moderna exegese dizem sobre os gêneros literários, sobre a intencionalidade de suas afirmações, sobre o contexto comunitário dos Evangelhos e suas palavras neste contexto vivo. Aceitando tudo isto na medida em que me era possível, quis tentar apresentar o Jesus dos Evangelhos como o verdadeiro Jesus, como o «Jesus histórico» no verdadeiro sentido da expressão.Estou certo de que -- e espero que o leitor possa perceber também -- esta figura é muito mais lógica e, desde o ponto de vista histórico, também mais compreensível que as reconstruções que pudemos encontrar nas últimas décadas.Eu creio que precisamente este Jesus -- o dos Evangelhos -- é uma figura historicamente sensata e convincente. Só se aconteceu algo extraordinário, só se a figura e as palavras de Jesus superavam radicalmente todas as esperanças e as expectativas da época, se explica a Crucifixão e sua eficácia.Aproximadamente vinte anos depois da morte de Jesus, encontramos já plenamente desdobrada no grande hino a Cristo que é a Carta aos Filipenses (2, 6-8) uma cristologia, na qual se diz de Jesus que era igual a Deus mas que desnudou a si mesmo, se fez homem, se humilhou até a morte na cruz e que a ele incumbe a homenagem da criação, a adoração que no profeta Isaías (45, 23) Deus proclamou que só a Ele se devia. A investigação crítica faz com bom critério a pergunta: o que aconteceu nestes vinte anos desde a Crucifixão de Jesus? Como se chegou a esta Cristologia?A ação de formações comunitárias anônimas, de quem se tenta encontrar expoentes, na realidade não explica nada. Como é possível que agrupações de desconhecidos pudessem ser tão criativas, ser tão convincentes até chegar a impor-se deste modo? Não é mais lógico, também desde o ponto de vista histórico, que a grandeza se encontre na origem e que a figura de Jesus rompesse todas as categorias disponíveis e assim poder ser compreendida só a partir do mistério de Deus?Naturalmente, crer que ainda sendo homem Ele «fosse» Deus e dar a conhecer isto envolvendo-o em parábolas e ainda de um modo cada vez mais claro, vai muito além das possibilidades do método histórico. Ao contrário, se a partir desta convicção de fé se lêem os textos com o método histórico e a abertura se torna maior, estes se abrem para mostrar um caminho e uma figura que são dignos de fé. Declara-se, então, também a luta em outros âmbitos presentes nos escritos do Novo Testamento em torno da figura de Jesus e, apesar de todas as diversidades, chega-se ao profundo acordo com estes escritos.Está claro que com esta visão da figura de Jesus vou muito além do que o que diz, por exemplo, Schnackenburg em representação de uma boa parte da exegese contemporânea. Espero, pelo contrário, que o leitor compreenda que este livro não foi escrito contra a exegese moderna, mas com grande reconhecimento pelo muito que ela continua contribuindo-nos.Fez-nos conhecer uma grande quantidade de fontes e de concepções através das quais a figura de Jesus pode fazer-se presente com uma vivacidade e uma profundidade que há poucas décadas não podíamos nem sequer imaginar. Eu tentei ir além da mera interpretação histórico-crítica, aplicando novos critérios metodológicos, que nos permitem uma interpretação propriamente teológica da Bíblia e que naturalmente requerem fé, sem que por isso eu queira renunciar à seriedade histórica. Creio que não é necessário dizer expressamente que este livro não é em absoluto um ato magisterial, mas a expressão de minha busca pessoal do «rosto do Senhor» (salmo 27, 8). Portanto, cada um tem liberdade para contradizer-me. Só peço às leitoras e aos leitores uma antecipação de simpatia, sem a qual não existe compreensão possível. Como já disse no começo deste prefácio, o caminho interior até este livro foi longo. Pude começar a trabalhar nele durante as férias de 2003. Em agosto de 2004, tomaram forma os capítulos 1 a 4. Após minha eleição à sede apostólica de Roma, utilizei todos os momentos livres que tive para levá-lo adiante. Dado que não sei quanto tempo e quantas forças me serão concedidas ainda, decidi publicar agora como primeira parte do livro os primeiros dez capítulos que vão desde o batismo no Jordão até a confissão de Pedro e a Transfiguração.

quarta-feira, novembro 15, 2006

* * * Semana dos Seminários * * *


12 a 19 de Novembro 2006
Todos os anos, a celebração da Semana dos Seminários Diocesanos convida e interpela todos os cristãos e comunidades cristãs à reflexão, à oração, à solicitude e ao interesse pelos Seminários. Tomar consciência do Seminário e da sua missão, significa tomar consciência de uma realidade diante da qual ninguém pode ficar alheio ou indiferente. Indispensável e de capital importância no seio de cada Igreja Diocesana, o Seminário, espaço e tempo da formação dos pastores de que precisa o Povo de Deus, exige e merece, da parte de todos, uma atenção e uma solicitude que esteja para além da consciência vaga da sua existência. Tomar consciência da existência dos Seminários é, num primeiro momento, reconhecer o dom e a acção de Deus que assegura a vitalidade da Igreja e a fecundidade da sua missão. Contrariamente ao que tantas vezes nos querem fazer acreditar, quando tão insistentemente nos falam de números e de crise, os Seminários existem e neles continuam a formar-se todos quantos vão sendo chamados por Deus. Esta perspectiva, que só a fé pode conceder e à luz da qual sempre devemos olhar a Igreja, arranca-nos das demasiadas lamentações em que tantas vezes nos situamos para nos abrir à esperança e à confiança. Deus está activo e presente na Sua Igreja. Pela acção do Espírito Santo, Cristo Ressuscitado não cessa de conceder à Sua Igreja os meios de que necessita para se fazer presente no mundo e cumprir a sua missão.
A nossa oração pelos Seminários ao longo desta semana é, portanto, uma oração confiante, alegre e de acção de graças pelos futuros ministros que Deus concede à Sua Igreja. Nesta mesma atitude de confiança, a nossa oração é também uma oração de súplica. Também Jesus, ao mesmo tempo que formava os seus Apóstolos, pedia para que se rogasse ao Pai para que enviasse trabalhadores para a sua messe. A Igreja terá que pedir sempre a Deus os servidores de que necessita porque não os pode dar a si mesma. O ministério sacerdotal é uma graça e um dom que se pede a Deus.
O reconhecimento da existência e da vida e missão dos Seminários, como expressão da acção e do dom de Deus convida-nos, num segundo momento, ao compromisso. Desconhecemos o caminho de renovação a que somos chamados e o que nos será exigido para seguir Jesus Cristo segundo as condições do nosso tempo e prevemos mesmo que muitas coisas se transformarão. No entanto, sabemos que a evangelização é obra do Espírito Santo que não dispensa, contudo, a nossa colaboração. Por isso, a nossa disponibilidade para nos deixarmos conduzir pelo Espírito será a melhor forma de traduzirmos este compromisso.
Ao reconhecermos o Seminário como espaço e tempo da formação dos pastores de que precisa o Povo de Deus e, ao mesmo tempo, a extensão da messe onde somos enviados a anunciar o Evangelho e a expressar a compaixão de Jesus pelas multidões, sentimos que sobre cada um e sobre todos recai a responsabilidade do testemunho, da proposta e do apelo vocacional. A exigência deste compromisso deve despertar em nós o desejo e a necessidade de fortificarmos a nossa fé pessoal e comum, exprimindo assim, de modo mais explícito, a nossa adesão pessoal a Jesus Cristo. Só fervor de uma comunidade crente pode suscitar e fazer crescer em alguns dos seus membros o desejo de a servir, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O chamamento de membros das nossas comunidades para que se façam sacerdotes exige, pois, que as comunidades cristãs sejam cada vez mais conscientes da sua fidelidade a Cristo e à missão que lhes está confiada. O anúncio do Evangelho de Jesus Cristo ao mundo é um desafio e uma grande aventura, à qual continua a valer a pena consagrar a vida.
Neste mundo em permanente transformação, não sabemos quantos sacerdotes serão necessários para que a Igreja viva e realize a sua missão. No entanto, estamos certos de que o Senhor continua a chamar para servir a Sua Igreja e a conduzir segundo a acção do Espírito Santo. As razões que justificam a celebração de uma Semana de Oração pelos Seminários Diocesanos são importantes e de grande pertinência: recordar que a Igreja vive da graça de Deus e d'Ele recebe as vocações de que necessita; despertar em todos os cristãos uma maior fidelidade à missão que lhes está confiada; suscitar em todos o desejo de expressar e aprofundar uma fé cada vez mais viva e actuante.

Pe. Álvaro Mancilha

segunda-feira, novembro 13, 2006

Portugueses despedem-se de missionária assassinada em Moçambique

Dom Ilídio Leandro, bispo de Viseu, presidiu na tarde dessa quinta-feira os funerais de Idalina Gomes, 30 anos, missionária portuguesa a serviço da Associação «Leigos para o Desenvolvimento» assassinada em Moçambique essa segunda-feira. Centenas de pessoas reuniram-se na Igreja matriz de Aguiar da Beira, para o último adeus a Idalina, que foi morta durante um assalto à Missão de Fonte Boa (centro-norte de Moçambique). Também foi morto o padre Waldyr dos Santos, de 69 anos, jesuíta brasileiro. Segundo refere Agência Ecclesia, familiares, amigos e conhecidos reuniram-se para uma justa homenagem à leiga que perdeu a vida na Missão onde se encontrava desde 2005. Ela fora à África para dar vida ao sonho de ajudar as crianças locais, como voluntária de uma organização católica. Uma longa procissão uniu a Igreja matriz ao cemitério, no final da cerimônia. Gonçalo Archer, da Associação «Leigos para o Desenvolvimento» destacou à agência portuguesa a grande manifestação de apreço que se viveu na tarde de ontem. Entre os presentes estavam também Sérgio e Filipa, os outros dois voluntários que estavam em missão na Fonte Boa quando a residência dos jesuítas foi atacada. Segundo manifestou em um comunicado de imprensa essa quinta-feira o superior dos jesuítas em Moçambique, padre Carlos Giovanni Salomão, os homicídios foram «um ato brutal de tentativa de intimidar e desestabilizar as Instituições Religiosas na Província de Tete». Padre Salomão enfatiza o atentado vai contra entidades religiosas atuam principalmente «no campo da Evangelização, da Educação, da Saúde e dos projetos sociais que visam o crescimento e o bem-estar deste povo tão sofrido». Mas, segundo o superior jesuíta, «não será por causa de um ato covarde e violento que nos iremos intimidar». «Acreditamos que o sangue deles, mais uma vez derramado naquela terra de Angónia, ajudará a produzir frutos espirituais que só Deus-Pai pode fazer aparecer pela sua imensa generosidade e misericórdia», escreve o sacerdote.

Ignorância religiosa alcançou um nível espantoso


O Papa Bento XVI enumerou os estragos do "nível espantoso" que alcançou a ignorância religiosa e a urgência de uma evangelização que não mutile a fé, ao dirigir um novo discurso aos bispos suíços em visita ad limina no Vaticano. A Santa Sé difundiu hoje o discurso que o Pontífice pronunciou na terça-feira aos prelados suíços, no que abordou temas de grande importância na Igreja como a centralidade de uma fé "completa" na vida cristã, a urgência da evangelização, de uma correta formação nos seminários e faculdades teológicas, a autêntica interpretação da Sagrada Escritura, e a necessidade de recuperar o autêntico sentido da liturgia.
Ao referir-se à fé, seu lugar na vida do cristão e a relação com sua atividade, o Santo Padre afirmou que "se antes se crescia" nesta virtude e era "parte da vida", hoje "parece natural o contrário, quer dizer, que no fundo não é possível acreditar, que de fato Deus está ausente. Em todo caso, a fé da Igreja parece uma coisa do passado longínquo". Por isso, continuou, "acredito que é importante tomar novamente consciência do fato de que a fé é o centro de tudo".
Depois de ressaltar que a fé "é sobre tudo fé em Deus" e esta "centralidade de Deus deve estar presente de modo completamente novo em todo nosso pensar e obrar", o Pontífice disse que "isto é o que anima também a ação, porque em caso contrário podem cair facilmente no ativismo e se acabam esvaziando".
"Esta forma completa da fé, expressa no Credo, de uma fé em e com a Igreja como sujeito vivo, no que obra o Senhor, é a que deveríamos tratar de pôr realmente no centro de nossas atividades. Vemos também hoje muito claramente: o desenvolvimento, onde foi promovido exclusivamente sem alimentar a alma, produz danos".

Evangelização e formação teológica
"Se não se ensinar o ser humano, além de tudo o que é capaz de fazer e tudo o que sua inteligência faz possível, a iluminar sua alma e a ser consciente da força de Deus, ele aprenderá sobretudo a destruir. Por isso, é necessário que se fortaleça nossa responsabilidade missionária: se formos felizes com nossa fé, sentimo-nos obrigados a falar dela aos demais. Depois, está nas mãos de Deus em que medida os homens poderão acolhê-la".
Bento XVI também abordou a educação católica, afirmando que "uma coisa que a todos preocupa no sentido positivo do termo, é o fato de que a formação teológica dos futuros sacerdotes e de outros professores e anunciadores da fé seja boa; por isso, temos necessidade de boas faculdades teológicas, de bons seminários maiores e de adequados professores de teologia".
O Papa falou depois da catequese, que se por um lado, "nos últimos cinqüenta anos progrediu do ponto de vista metodológico, por outra, perdeu-se muito na antropologia e na busca de pontos de referência, de modo que freqüentemente não se chega nem sequer aos conteúdos da fé. Entretanto, é importante que na catequese a fé continue sendo plenamente valorizada e encontrar os modos para que seja compreendida e acolhida, porque a ignorância religiosa alcançou hoje um nível espantoso".
Interpretação bíblica
Mais adiante, o Santo Padre destacou que "a unidade da Escritura não é um fato puramente histórico-crítico, mas um fato teológico: estes escritos são uma única Escritura, compreensíveis somente se lidas na ‘analogia fidei’ como unidade em que há um progresso para Cristo, e inversamente, Cristo atrai a si toda a história". Neste contexto, afirmou que era muito importante que "junto com e na exegese histórico-crítica, dê-se realmente uma introdução à Escritura viva como Palavra de Deus atual".
Liturgia: uma "automanifestação da comunidade"?
O Papa saiu ao encontro de distorções sobre o sentido da liturgia na Igreja. Assim, esclareceu que esta não é "uma automanifestação da comunidade que entra no cenário, mas a saída da comunidade do simples 'ser si mesmos', é o chegar ao grande banquete dos pobres, é o entrar na grande comunidade viva em que Deus mesmo nos nutre". Referindo-se à homilia, o Santo Padre recordou que não é "uma interrupção da liturgia, mediante um discurso, mas sim pertence ao ato sacramental, levando a palavra de Deus no presente desta comunidade".
"Isso significa –prosseguiu–, que a homilia, de por si, é parte do mistério e não pode ser simplesmente separada dele". O Papa, depois de recordar que o celebrante deve ler a homilia afirmou: "O sacerdócio é formoso somente se cumprir-se uma missão que é uma totalidade, da qual não se pode separar uma coisa ou outra. E a esta missão pertence, sempre, inclusive no culto do Antigo Testamento, o dever do sacerdote de ligar o sacrifício com a Palavra, que é parte integrante do mesmo".
Continuando, Bento XVI falou do sacramento da Penitência, "que devemos aprender de novo. Já de um ponto de vista puramente antropológico, é importante, por um lado, reconhecer a culpa e por outro exercer o perdão. A difundida ausência de sentimento de culpa é um fenômeno preocupante de nossa época. O dom do sacramento da Penitência não consiste somente no fato de que recebemos o perdão, mas em que nos demos conta, antes de tudo, de nossa necessidade de ser perdoados e possamos compreender melhor os outros e perdoá-los".
Bispos e ecumenismo
Sobre o ministério episcopal, o Papa destacou a importância de que "os bispos como sucessores dos apóstolos sejam verdadeiramente responsáveis pelas Igrejas locais que o Senhor lhes confiou", e "por outra, abram as Igrejas locais à Igreja universal". Neste contexto, o Santo Padre se referiu aos problemas dos ortodoxos "com as Igrejas autocéfalas" e aos protestantes "com a desagregação das Igrejas regionais". "Damo-nos conta –disse– do grande significado da universalidade, da importância de que a Igreja se abra à totalidade, convertendo-se na universalidade verdadeiramente uma única Igreja".
Finalmente, Bento XVI se referiu ao ecumenismo, insistindo na tarefa de "ser garante dos valores essenciais, básicos, que procedem de Deus em nossa sociedade. Acredito que se aprendermos a atuar juntos neste campo, poderemos realizar uma boa parte da unidade, ali onde não é ainda possível a plena unidade teológica e sacramental".

quinta-feira, novembro 09, 2006

Projeto de Lectio Divina para jovens

Em Bogotá, foi lançado um Projecto de Lectio Divina para Jovens designado «Lectionautas», com o apoio da Sociedade Bíblica Unida e do Centro Bíblico Pastoral para a América Latina e do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Participaram representantes das Conferências Episcopais da Colômbia, Chile, Argentina e Venezuela.Este projecto tem como objectivo capacitar jovens líderes católicos para que ensinem outros jovens a ler a Bíblia com o método de oração contemplativa tradicional chamado Lectio Divina.
O Centro Bíblico Pastoral para a América Latina elaborou um «Manual de Lectio Divina para jovens», «responsabilizando-se pelo conteúdo do próprio manual, para que esteja dentro das linhas católicas da leitura orante da Bíblia e também que esteja de acordo com as necessidades da Igreja na América Latina, em preparação à V Conferência do Episcopado Latino-Americano», afirma um comunicado de imprensa.
O tema é «Formar discípulos e missionários de Jesus Cristo».

Cada vez mais jovens sem tecto na Europa

Por ocasião da celebração, a 12 de Novembro, do Dia dos Sem Tecto, a Caritas alerta de que no último ano se acentuou na Europa, e particularmente na Espanha, a mudança de rosto no perfil estas pessoas, devido sobretudo ao aumento do número de jovens, mulheres e imigrantes, ao mesmo tempo em que denuncia as agressões físicas cada vez mais frequentes que sofrem os sem tecto. Esta jornada, que se convoca sob o lema «Sem tecto, sem direitos. Hoje também durmo na rua. Na sociedade, falto eu», está promovida por Caritas, FACIAM (Federação de Associações de Centros para Integração e Ajuda a Marginalizados) e a secção espanhola de FEANTSA (Federação Europeia de Associações Nacionais que trabalham com Pessoas sem Lar). Estas três organizações convidam toda a sociedade a reflectir sobre as situações de exclusão e de violência de que são objecto as pessoas sem lar e sobre os distintos meios onde estas se produzem: estruturas sociais, Administrações públicas, meios de comunicação, novas tecnologias e relações pessoais. Os sem tecto, objecto de múltiplas violências Segundo se assinala nos materiais editados para difundir os objectivos do Dia dos Sem Tecto, actualmente se produzem contra as pessoas que vivem na rua vários tipos de violência. Uma delas é a que exerce a própria sociedade, que tende a «criminalizar a miséria e a culpar os excluídos de sua situação, a estigmatizá-los», pelo que «as pessoas sem lar perdem sua condição de cidadãos, desaparecem do espaço público», até chegar ao «não reconhecimento de sua capacidade de contribuição social». Também se exerce violência contra os sem tecto quando o Estado não garante seu acesso aos direitos sociais básicos, como casa, educação, emprego e protecção social; e quando os obstáculos para aceder a esses direitos supõem, na prática, a perda da cidadania e da possibilidade de desenvolver-se com dignidade. Caritas, FACIAM e FEANTSA chamam a atenção sobre a pressão que exercem sobre estas pessoas um número crescente de prefeituras de toda a Espanha que estão impulsionando mudanças municipais «destinadas a fustigar a vida das pessoas sem lar na rua» e a «estabelecer medidas de controle para isolar determinados grupos sociais». «Estas ordens, fonte de grave exclusão e marginalização das pessoas sem tecto, penalizam estigmatizam e criminalizam ainda mais um colectivo já vulnerável em si», denunciam estas organizações. Os meios de comunicação tampouco são alheios a esta exclusão social dos sem tecto, já que se criticam, sobretudo, «determinadas estratégias informativas que agravam o fenómeno dos sem tecto quando se referem a estas pessoas com termos como ‘mendigo’ ou ‘indigente’, expressões com uma forte conotação negativa que podem ler quase diariamente em notícias que, na maioria dos casos, recriam conteúdos violentos ou mórbidos». E se critica também a recusa cada vez mais frequente a gravar actos violentos contra as pessoas que vivem na rua através de suportes domésticos (telefones celulares, câmaras digitais, etc.) e a distribuí-los via Internet a qualquer parte do mundo. Responsabilidade de todos As entidades promotoras desta jornada lançam diversas propostas aos poderes públicos, dirigidas a desenvolver alternativas reais de inserção para as pessoas sem tecto, arbitrar respostas adequadas à imigração, anexar a especulação imobiliária e impulsionar uma adequada política de moradia, e derrogar as ordens municipais de regulação do espaço público baseadas em modelos repressivos e policiais. Caritas, FACIAM E FEANTSA incitam, desta forma, os meios de comunicação a abordar conteúdos informativos honestos sobre as pessoas sem tecto, baseados no respeito pela sua situação de precariedade social e de especial vulnerabilidade humana. E fazem um chamado a toda a sociedade a implicar-se na posta em andamento de acções de inclusão social destas pessoas e a participar nas acções que numerosas organizações realizam para defender seus direitos e melhorar suas condições de vida. 30.000 sem tecto na Espanha e 3 milhões na Europa Segundo os últimos números disponíveis, na Espanha há actualmente 30.000 pessoas que carecem de um tecto onde viver, e 273.000 que residem em moradas precárias. Em toda a União Europeia, se estima que há cerca de 3 milhões de pessoas sem lar e outros 18 milhões que habitam em moradias precárias. Durante 2005, Caritas Espanhola investiu 15,3 milhões de euros em programas de ajuda para os sem tecto e atendeu em todo o país a quase 90.000 destinatários.

in ZENIT.org

quarta-feira, novembro 08, 2006

Uma cultura da morte

A atracção pela morte é um dos sinais da decadência.
Portugal deveria estar, neste momento, a discutir o quê?
Seguramente, o modo de combater o envelhecimento da população.
Um país velho é um país mais doente.
Um país mais pessimista.
Um país menos alegre.
Um país menos produtivo.
Um país menos viável – porque aquilo que paga as pensões dos idosos são os impostos dos que trabalham.
Era esta, portanto, uma das questões que Portugal deveria estar a debater.
E a tentar resolver. Como?
Obviamente, promovendo os nascimentos.
Facilitando a vida às mães solteiras e às mães separadas.
Incentivando as empresas a apoiar as empregadas com filhos, concedendo facilidades e criando infantários.
Estabelecendo condições especiais para as famílias numerosas.
Difundindo a ideia de que o país precisa de crianças – e que as crianças são uma fonte de alegria, energia e optimismo.
Um sinal de saúde.
Em lugar disto, porém, discute-se o aborto.
Discutem-se os casamentos de homossexuais (por natureza estéreis).
Debate-se a eutanásia.
Promove-se uma cultura da morte.
Dir-se-á, no caso do aborto, que está apenas em causa a rejeição dos julgamentos e das condenações de mulheres pela prática do aborto – e a possibilidade de as que querem abortar o poderem fazer em boas condições, em clínicas do Estado.
Só por hipocrisia se pode colocar a questão assim.
Todos já perceberam que o que está em causa é uma campanha.
O que está em curso é uma desculpabilização do aborto, para não dizer uma promoção do aborto.
Tal como há uma parada do 'orgulho gay', os militantes pró-aborto defendem o orgulho em abortar.
Quem já não viu mulheres exibindo triunfalmente t-shirts com a frase «Eu abortei»?
Ora, dêem-se as voltas que se derem, toda a gente concorda numa coisa:
o aborto, mesmo praticado em clínicas de luxo, é uma coisa má.
Que deixa traumas para toda a vida.
E que, sendo assim, deve ser evitada a todo o custo.
A posição do Estado não pode ser, pois, a de desculpabilizar e facilitar o aborto – tem de ser a oposta.
Não pode ser a de transmitir a ideia de que um aborto é uma coisa sem importância, que se pode fazer quase sem pensar – tem de ser a oposta.
O Estado não deve passar à sociedade a ideia de que se pode abortar à vontade, porque é mais fácil, mais cómodo e deixou de ser crime.
Levada pela ilusão de que a vulgarização do aborto é o futuro, e que a sua defesa corresponde a uma posição de esquerda, muita gente encara o tema com ligeireza e deixa-se ir na corrente.
Mas eu pergunto: será que a esquerda quer ficar associada a uma cultura da morte?
Será que a esquerda, ao defender o aborto, a adopção por homossexuais, a liberalização das drogas, a eutanásia, quer ficar ligada ao lado mais obscuro da vida?
No ponto em que o mundo ocidental e o país se encontram, com a população a envelhecer de ano para ano e o pessimismo a ganhar terreno, não seria mais normal que a esquerda se batesse pela vida, pelo apoio aos nascimentos e às mulheres sozinhas com filhos, pelo rejuvenescimento da sociedade, pelo optimismo, pela crença no futuro?
Não seria mais normal que a esquerda, em lugar de ajudar as mulheres e os casais que querem abortar, incentivasse aqueles que têm a coragem de decidir ter filhos?
JASaraiva, Sol, 14/Out'2006

terça-feira, novembro 07, 2006

Amor à vida

Missionária portuguesa morta em Moçambique

A Província da Companhia de Jesus em Portugal confirmou que foram mortos em Moçambique, esta segunda-feira, um religioso brasileiro e uma missionária portuguesa. Ao redor de 1h30 da madrugada (hora local) a Missão de Fonte Boa, a cargo da Companhia de Jesus, situada no distrito da Angónia, Província de Tete, em Moçambique, foi assaltada por um grupo armado. Durante o assalto foram assassinados dois missionários: Idalina Neto Gomes, de 30 anos, missionária portuguesa ao serviço da Associação “Leigos para o Desenvolvimento” (uma ONGD católica portuguesa), e o padre Waldyr dos Santos, de 69 anos, jesuíta brasileiro. Idalina Gomes encontrava-se há um ano em missão no país africano, sendo advogada de profissão. Preparava-se para vir a Portugal em férias e pensava regressar a Moçambique para mais um ano de missão. Os Leigos para o Desenvolvimento são uma ONGD de matiz católico que, através dos seus voluntários, actua nos chamados países em vias de desenvolvimento, em especial nos de expressão oficial portuguesa. Os seus voluntários são cristãos leigos que, por um ou mais anos, põem as suas capacidades pessoais e profissionais ao serviço da promoção humana, em África e Timor-Leste. Hoje foi celebrada uma Eucaristia em sufrágio de Idalina Gomes, no Colégio de São João de Brito, em Lisboa.

A ciência não consegue explicar tudo

Bento XVI discutiu esta segunda-feira as extraordinárias possibilidades que a ciência abriu à humanidade, reconhecendo no entanto que ela não pode explicar tudo.
Foi o que expressou aos membros da Academia Pontifícia das Ciências, reunidos em Roma, com motivo de sua assembléia plenária celebrada sobre o tema: «A possibilidade de predição na ciência: precisão e limitações». O pontífice começou constatando em seu discurso pronunciado em inglês que «o crescente “avanço” da ciência, e especialmente sua capacidade para controlar a natureza através da tecnologia, em certas ocasiões foi associado a uma correspondente “retirada” da filosofia, da religião e inclusive da fé cristã».«De fato --acrescentou--, alguns viram no progresso da ciência e da tecnologia modernas uma das principais causas de secularização e materialismo.»«Por que invocar o domínio de Deus sobre esses fenômenos, quando a ciência mostrou sua própria capacidade de fazer o mesmo?», perguntou.«Se pensarmos, por exemplo --respondeu--, na maneira em que a ciência moderna contribuiu para a proteção do ambiente, prevendo os fenômenos naturais, o progresso dos países em vias de desenvolvimento, a luta contra as epidemias e o aumento da expectativa de vida, fica claro que não há conflito entre a Providência de Deus e a ação do homem.»«A ciência, ainda que generosa, só dá o que tem de dar» --advertiu--. «O ser humano não pode depositar na ciência e na tecnologia uma confiança tão radical e incondicional, como para crer que o progresso da ciência e da tecnologia pode explicar tudo e satisfazer plenamente suas necessidades existenciais e espirituais», afirmou.«A ciência não pode substituir a filosofia e a revelação, dando uma resposta exaustiva às questões fundamentais do homem, como as que concernem ao sentido da vida e da morte, aos valores últimos e à natureza do progresso», indicou.«O próprio método científico, em sua capacidade de reunir os dados, elaborá-los e utilizá-los em suas projeções, tem limites próprios que restringem necessariamente a possibilidade de predição científica em determinados contextos e aspectos.»«A ciência, portanto, não pode querer proporcionar uma representação completa e determinista de nosso futuro e do desenvolvimento de cada fenômeno que estuda», indicou.«A filosofia e a teologia poderiam oferecer, neste sentido, uma contribuição importante a esta questão», assegurou.Por exemplo, sugeriu, podem ajudar «as ciências empíricas a reconhecer a diferença entre a incapacidade matemática para predizer certos acontecimentos e a validade do princípio de causalidade».A filosofia e a teologia, acrescentou, ajudam a explicar a diferença entre «a evolução como a origem de uma sucessão no espaço e no tempo, e a criação como a origem última do ser participado no Ser essencial».Se a ciência nega a transcendência do ser humano «em nome de uma suposta capacidade absoluta do método científico de prever e condicionar o mundo humano, implicará a perda do que é humano no homem e, ao não reconhecer sua unicidade e sua transcendência, poderia abrir perigosamente as portas a seu abuso», concluiu.A Academia Pontifícia das Ciências foi fundada em Roma em 1603 com o nome de Academia dos Linces (Galileu Galilei foi membro), e está composta por oitenta «acadêmicos pontifícios» nomeados pelo Papa segundo a proposta do Corpo Acadêmico, sem discriminação de nenhum tipo. Tem como fim honrar a ciência pura onde quer que se encontre, assegurar sua liberdade e favorecer as pesquisas, que constituem a base indispensável para o progresso das ciências. A Academia se encontra sob a dependência do Santo Padre. Seu presidente, eleito por quatro anos, é desde 1993 Nicola Cabibbo, professor de Física na Universidade La Sapienza de Roma, e ex-presidente do Instituto Nacional Italiano de Física Nuclear. O diretor da Chancelaria é o bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Conclusões do IV Congresso Mundial da Federação Internacional de Bioética Personalista

A Federação Internacional de Bioética Personalista celebrou em Córdoba, Espanha, o seu IV Congresso Internacional, nos dias 27 e 28 de Outubro de 2006, com a presença do bispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida e da FIBIP. Os trabalhos congressuais se centraram na relação entre a dignidade da pessoa humana e o bem comum, desde a perspectiva da Bioética. A humanidade foi progredindo, com fadiga e contradições, na capacidade de reconhecer e respeitar a dignidade humana. Superamos em boa parte a escravidão e o racismo. Cresce em todo o mundo a rejeição da pena de morte, a tortura e a guerra. Aumenta a sensibilidade em relação à proteção das crianças, à igualdade de todos os seres humanos, a proteção do meio ambiente, etc. Contudo, nos restam ainda algumas tarefas pendentes e urgentes. Refletindo sobre o bem comum, notamos que em nossa cultura parece cada vez mais difícil saber o que é o bem e mais árduo comprometer-se para que este seja comum. O relativismo moral que trata de impor-se e a atual incerteza sobre os fundamentos da dignidade humana, obscurecem a compreensão do bem verdadeiramente humano. O individualismo e o hedonismo encerram cada um em seus próprios interesses, dificultando a busca generosa dos interesses comuns. A Bioética, enquanto disciplina que se ocupa dos problemas que atêm à vida e à saúde das pessoas, pode e deve oferecer uma contribuição importante ao progresso humano. Quem cultiva a “Bioética Personalista” está convencido de que este enfoque é fundamental para a promoção do verdadeiro bem comum. Com efeito, o bem comum não é senão o conjunto de condições sociais, culturais e estruturais que favorecem a realização e o aperfeiçoamento de cada uma das pessoas que fazem parte da comunidade. Portanto, não é possível favorecer, ou sequer respeitar, o bem comum, sem pôr no centro dos interesses, preocupações e decisões de todos e especialmente das autoridades públicas, o valor e a dignidade sublimes de toda pessoa humana. O conceito da dignidade humana foi o centro inspirador da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada solenemente pelas Nações Unidas em 1948. Foi também central em muitas das constituições nacionais das últimas décadas e continua sendo, pelo menos na teoria, o centro inspirador de leis, resoluções, sentenças judiciais, etc. no mundo inteiro. A pessoa humana é digna de respeito absoluto, pelo mero fato de ser pessoa, ou seja, pelo fato de ser um membro da família humana. A dignidade da pessoa não se atribui, se reconhece; não se outorga, se respeita. Está escrita no interior de todo ser humano: não depende de seu estado de desenvolvimento, de sua saúde, de suas qualidades e capacidades, nem sequer de seus comportamentos. Todo ser humano, em qualquer estado e condição, é uma unidade indecifrável de corpo e espírito, aberto ao horizonte do infinito, capaz de interrogar-se sobre o sentido último de sua existência, de transcender a si mesmo e até de abrir-se ao ser infinitamente transcendente de Deus. Um longo processo de paulatina “degradação” do ser humano levou muitos à conclusão de que não se trata mais que de um mamífero um pouco superior aos demais seres vivos. Depois de considerar-nos somente um animal mais complexo, nos está dando o complexo de animal. Na realidade, o ser humano, todo ser humano, criado à imagem e semelhança do Criador, é mais parecido com Deus que com o macaco. Uma das tarefas ainda pendentes no progressivo reconhecimento da dignidade humana é a rejeição da distinção discriminatória entre os seres humanos já nascidos e os ainda por nascer. Trata-se de uma das últimas fronteiras na conquista progressiva do respeito da dignidade humana. Levando isso em conta, a promoção do bem comum no âmbito específico da bioética, significa, por exemplo, favorecer a pesquisa e o progresso biomédico, respeitando todos os seres humanos implicados. Na pesquisa e aplicação terapêutica das células-tronco, deve-se rejeitar a instumentalização destrutiva de seres humanos em estado embrionário. O bem comum elementar exige também que não se falsifique a realidade científica, fazendo a opinião pública crer que as “células-tronco embrionárias” podem já curar doenças. Não existe na atualidade uma só aplicação clínica com essas células, enquanto há mais de 60 aplicações terapêuticas com as “células-tronco adultas”, que não implicam nenhum dano a seres humanos. O bem comum exige também que a pesquisa biomédica e farmacêutica leve em conta sobretudo as mais graves e urgentes necessidades médicas da população. O verdadeiro sentido do bem comum aumenta seus horizontes também além das fronteiras nacionais. É preciso favorecer o progresso médico nos países em vias de desenvolvimento, sem impor-lhes políticas de saúde contrárias às suas culturas e às suas verdadeiras necessidades. A FIBIP renova hoje seu compromisso em favor do bem comum, centrado no bem de cada pessoa humana, e convida à comunidade social e especialmente aos responsáveis públicos a fazer próprio este compromisso.
Córdoba, 28 de Outubro de 2006.

Primeiro ministro turco poderá estar ausente durante a visita do Papa

A Santa Sé não considera importante a ausência de Recep Tayyip Erdogan.
O primeiro ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, poderá estar ausente do país durante a visita de Bento XVI, pois confirmou sua participação no encontro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que nesses dias ocorrerá em Riga (Letônia). Em resposta às interpretações que os meios de comunicação fizeram de sua prevista ausência, a Sala de Imprensa do Vaticano publicou esta quinta-feira um comunicado no qual evita dramatizar este fato. Na nota, a Santa Sé revela que «há tempos já havia sido informada – no transcurso da preparação da viagem – da coincidência com o importante compromisso do primeiro ministro por ocasião do encontro da OTAN». O Vaticano explica, além disso, que havia recebido a informação de que «o chefe do Governo tentaria estar presente na Turquia para encontrar-se com o Santo Padre, mas que não podia garantir». O comunicado continua dizendo que «no caso da ausência», Erdogan comunicou que «seria representado por outra importante autoridade do Governo, ou seja, pelo vice primeiro ministro». A viagem do Papa à Turquia está prevista para acontecer de 28 de novembro a 1 de dezembro de 2006. Segundo a previsão do programa (ainda não oficial), deveria se encontrar, entre outros, com o presidente da República, Ahmet Necdet Sezer, com o grande mufti Ali Bardokoglu (máxima autoridade islâmica), com o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, e com o patriarca armênio apostólico, Mesrop II Mutafyan. Em uma entrevista concedida esta segunda-feira ao jornal italiano «Il Corriere della Sera», o presidente da Conferência Episcopal Católica da Turquia, D. Ruggero Franceschini OFMCap, arcebispo de Esmirna (Izmir), reconhece que a ausência do primeiro ministro turco pode ter razões políticas. «Preparam-se as eleições e talvez tenham prevalecido os extremistas de direita, que se opõem aos caminhos do diálogo. O primeiro ministro terá pensado que, ao não encontrar-se com o Papa, não terá um problema na campanha eleitoral», explica. O prelado explica as dificuldades atuais no diálogo entre cristãos e muçulmanos na Turquia, mencionando três causas: a invasão do Chipre por parte desse país, ganhando assim a oposição do mundo ortodoxo-cristão e, mais em geral, de todo ocidente, «o despertar islâmico», e as conseqüências dos atentados de 11 de setembro. «Mas o Papa virá, estamos felizes que venha, e como homens de fé cremos que Deus pode tirar o bem do mal», conclui D. Franceschini.