segunda-feira, janeiro 29, 2007

Referendo: Sim ou Não? IV


IV – As verdadeiras soluções

1. Ao afirmarmos que a legalização do aborto não é a solução, nem legítima, nem eficaz, para enfrentar o drama do aborto clandestino, nem a resposta a dar às mulheres grávidas, que enfrentam com dificuldade a maternidade, aceitamos que nos perguntem: quais são, então, as verdadeiras soluções? Devemos procurá-las nos grandes valores da civilização cristã e de uma sociedade justa e humanista, que ponha os valores acima dos interesses.

2. O primeiro desses valores é o amor fraterno, que exige o domínio dos egoísmos individualistas e a generosidade para ajudar os outros, sobretudo os que enfrentam problemas e necessidades graves. A solidariedade, que no ideal cristão ganha a densidade da caridade, é o dinamismo fundamental da construção da comunidade e de uma sociedade solidária.
Num estudo recente, feito pela Universidade Católica Portuguesa, à pergunta dirigida às mulheres, se, num caso de maternidade difícil, optariam pelo aborto ou por aceitar a ajuda para poder levar a termo a sua maternidade, 76% das inquiridas responderam que, se fossem ajudadas, não recorreriam ao aborto. Este é um desafio feito ao Estado, à sociedade e também à Igreja. Temos de encontrar soluções positivas, na linha da solidariedade e da ajuda fraterna. É preciso organizar uma rede de apoio, discreta mas eficaz, de modo que toda a mulher a quem se coloque a tentação de recorrer ao aborto, saiba onde e a quem poderá recorrer, onde seja salvaguardada a sua intimidade e lhe seja garantida a ajuda de que precisa: espiritual, psicológica e material. Para nós cristãos, não passará também por aqui a tal “fantasia da caridade”?

3. Uma outra ordem de valores sobre a qual se pode construir uma solução, situa-se no âmbito da educação. A educação deve propor um quadro de compreensão da vida humana, dos instintos à liberdade, que abra para a generosidade e para a responsabilidade. Conceber o exercício da liberdade numa perspectiva individualista, em que cada um pode fazer tudo o que quer e lhe apetece, não leva nem ao crescimento da pessoa, nem à edificação de uma sociedade justa e solidária. A sociedade fica confrontada com a necessidade de resolver, de forma pragmática e eficaz, os percalços e os problemas criados por uma liberdade individual sem responsabilidade. É assim nos acidentes de viação, nas agressões contra o ambiente, no abandono e abuso de crianças, no aborto.
O exercício individualista da liberdade origina uma sociedade permissiva. O Estado gasta uma parte significativa das suas capacidades e energias a corrigir abusos da liberdade, e as leis que enquadram essa busca de soluções tendem a ser pragmáticas, não se enquadrando nos valores fundamentais de uma cultura que situe e motive a liberdade individual. Isso é tarefa da educação.
O caso concreto do aborto toca num aspecto fundamental: a educação para a sexualidade, generosa e responsável, que encontra no amor o contexto positivo do seu sentido. Enquanto o ambiente for o de cada um fazer o que lhe apetece, o uso da sexualidade levará, cada vez mais, ao desrespeito da pessoa humana de que resulta: a violência familiar, o abuso de crianças, a sida, a utilização da mulher como objecto, os percalços indesejáveis na adolescência, o aborto. Acordemos todo para uma educação que promova a dignidade da pessoa humana, e esteja à altura da civilização que herdámos.
Está na ordem do dia a equação do que deverá ser a educação sexual nas escolas. É bem-vinda e necessária. Mas se não se enquadrar nesta visão generosa da pessoa humana, ela poderá gerar mais permissivismo, mais violência, mais problemas. Um aspecto delicado é a educação para uma sadia regulação da própria fecundidade. A doutrina da Igreja, a este respeito, baseia-se no princípio da fecundidade responsável e generosa, no quadro do ideal cristão da castidade, que desafia os cristãos a viverem a sua sexualidade como experiência de amor generoso, no quadro da família, potenciada com a graça própria do sacramento do matrimónio. O não sancionamento ético, por parte da Igreja, de todos os métodos de regulação da fecundidade, não pode ser usado como argumento a favor do aborto. Eles dizem respeito à exigência do amor casto, caminho de santidade, situando-se no âmbito da consciência da pessoa, homem e mulher, não comprometendo a vida de outro ser humano, como no caso do aborto. São mandamentos diferentes na Lei de Deus: guardarás castidade é um mandamento, que é desafio para a vivência da própria sexualidade; e “não matarás”, que é exigência radical de respeito pela vida dos outros. Em termos religiosos ou simplesmente culturais, não haverá verdadeira educação sexual se não abrir para a perspectiva da castidade, concebida como vivência generosa e responsável da própria sexualidade.
Este é o quadro cultural em que se construirão soluções, não apenas para o problema do aborto, mas para a estabilidade do casamento, para os desregramentos que impedem uma vida sadia e para a erradicação de todas as formas de violência que têm a sua origem numa sexualidade desregrada e egoísta. Durante toda a vida, a sexualidade tem de ser expressão de vida e caminho de felicidade.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Oração pela Vida


Ó Maria, aurora do mundo novo,
Mãe dos viventes,
confiamo-Vos a causa da vida:
olhai, Mãe, para o número sem fim de crianças a quem é impedido nascer,
de pobres para quem se torna difícil viver,
de homens e mulheres vítimas de inumana violência,
de idosos e doentes assassinados pela indiferença ou por uma suposta compaixão.
Fazei com que todos aqueles que crêem no vosso Filho
saibam anunciar com desassombro e amor,
aos homens do nosso tempo, o Evangelho da vida.
Alcançai-lhes a graça de o acolher como um dom sempre novo,
a alegria de o celebrar com gratidão em toda a sua existência,
e a coragem para o testemunhar com laboriosa tenacidade,
para construírem, juntamente com todos os homens de boa vontade,
a civilização da verdade e do amor,
para louvor e glória de Deus Criador e amante da vida.

João Paulo II, em Evangelium vitae

Referendo: Sim ou Não? III *


III – Maternidade, grandeza e responsabilidade da mulher

1. Este período de esclarecimento das consciências em ordem à resposta a dar à pergunta que vai ser sujeita a referendo, sobre o alargamento legal do aborto voluntário, coincidiu com a Festa do Natal, nascimento de Jesus, Filho de Deus e da Virgem Maria. Maria, Mãe de Jesus, a “bendita entre todas as mulheres, porque é bendito o fruto do seu ventre”, convida-nos a meditar na grandeza da maternidade. O carácter misterioso do nascimento de Jesus, não retira a Maria a sua qualidade de Mulher-Mãe, em cujo ventre foi gerado e se desenvolveu o Homem Jesus de Nazaré. A mais sublime acção de Deus nas criaturas aconteceu no seio de Maria. Mas essa marca da acção de Deus nas criaturas, continua a acontecer sempre que uma mulher concebe e fica grávida, acolhendo no seu seio a mais maravilhosa obra da criação: o homem, outro homem, que prolonga o mistério da primeira criação. Cada mulher que concebe acolhe no seu seio o maravilhoso fruto do poder criador de Deus.
O facto da procriação humana se processar segundo dinamismos e leis precisos da natureza, hoje bastante conhecidos pela ciência, nada retira ao mistério da intervenção criadora de Deus, essa capacidade maravilhosa de comunicar a vida. Na maternidade, toda a mulher se auto-transcende, e toca a grandeza e a dignidade do mistério que está nela. Como em Maria, em toda a mulher a maternidade é uma missão, que não se exprime apenas na sua vontade, mas está profundamente impressa na sua natureza e no seu ser.

2. Tudo isto é simples e belo quando a maternidade é aceite e desejada, no seio da família radicada no amor. A maternidade é, então, um projecto de ambos os cônjuges, que se tornam pais, e pode elevá-los ao nível da contemplação e da beleza. Aliás, o sentido da paternidade só se encontra na maternidade, pois é no seio da mulher que a fecundidade do casal se exprime e desabrocha num horizonte mais vasto da fecundidade do seu amor. O marido-pai é o primeiro a contemplar, com enlevo, o mistério da vida. A mulher-mãe é a fonte do sentido da própria paternidade. E ambos se encontrarão, num único amor, ao acolher e ajudar a crescer, o filho que geraram, participando, assim, no poder criador de Deus.
Mas na realidade da vida, a maternidade é também fonte de exigência e de sofrimento, ocasião de queda e de fraqueza, desafio de coragem e generosidade. É desafio contínuo ao sacrifício e ao dom, e por isso ela é, para a mulher, caminho de amor. A missão de ser mãe é cenário de grandeza e de heroísmo, mas também de fraqueza e de pecado. E em todas as circunstâncias a fraqueza da mãe assume uma dramaticidade especial, porque está em causa a vida de uma criança. Em todo o percurso dessa missão, a mãe precisa de ser ajudada, pela família, pelos amigos, pela Igreja, pela sociedade. E ajudar a mãe significa sempre salvar a criança. Quando a mãe se torna incapaz ou se recusa a fazê-lo, a sociedade deve substituí-la nessa obrigação de salvar as crianças. Sempre assim foi, de diversas formas; é importante que assim continue a ser.

3. A dificuldade de uma maternidade não desejada pode ser a primeira dificuldade a ser ultrapassada pela mulher-mãe. As motivações do aborto não estão cientificamente estudadas. Elas vão desde a atitude egoísta de quem não está disposto a abraçar as dificuldades de criar um filho, ao medo dessas dificuldades, à pressão exercida, tantas vezes pelo pai da criança e pelo ambiente que rodeia a mulher. Para as mulheres que sentem essas dificuldades, o início da maternidade é momento de opção séria, de coragem e confiança, ou de desistência e de derrota, que tantas vezes atinge toda a sua vida futura. Nesse momento, a mulher precisa de ser ajudada, objectivamente ajudada, para que faça a opção da coragem e do respeito pela vida que se gerou no seu ventre. Esta coragem do início é, tantas vezes, largamente compensada, em amor e alegria.
Pensar que se ajuda a mulher, nessas circunstâncias, facilitando-lhe o aborto, é grave erro de perspectiva, pois facilita-se-lhe a derrota, não a ajudando à vitória sobre a fraqueza sentida. Uma lei facilitante torna-se numa tentação acrescida para uma mulher a sentir dificuldades em assumir a sua maternidade. Uma senhora escrevia-me há dias: “eu sei que matei um filho; mas nessa altura ninguém me ajudou”. Se queremos ajudar, não facilitemos a derrota, a mais triste na vida de uma mulher.

4. A exigência da maternidade faz parte da construção cultural do respeito pela mulher, pela sua dignidade e grandeza da sua generosidade. E é preciso reconhecer que a mulher se sentiu muitas vezes sozinha nesta luta pela sua dignidade. Neste aspecto houve grandes mudanças antropológicas e culturais nos últimos dois séculos. Recordo um estudo sobre a mulher francesa no séc. XVIII: casava cedo (15-16 anos), a esperança de vida era de 34 anos. Durante os cerca de 20 anos que durava o seu casamento, tinha, em média, 16 gravidezes, de que sobreviviam 4 filhos. A maternidade sofrida definia a vida da mulher. Tanta coisa mudou: a mulher conquistou uma outra inserção na sociedade, tem o mesmo direito à educação e ao trabalho, o planeamento familiar permite-lhe maior decisão sobre a sua maternidade. Esta deixou de ser a única dimensão a definir o ser mulher. Mas com isto também se acentuou a dimensão de projecto individual, onde o filho, se não foi desejado e decidido, pode aparecer como obstáculo.
Este é o novo quadro cultural em que é preciso situar a ajuda à mulher. Com toda a evolução do seu estatuto cultural e social, ajudá-la a não perder de vista que a sua vocação maternal é o centro da construção da sua dignidade. E isto é, também, um projecto de sociedade, porque o é de educação colectiva, que inclui a vivência responsável da sexualidade, a protecção da família, o esclarecimento para o exercício de um planeamento da fecundidade ao nível da dignidade do amor e da pessoa humana.
Que ninguém se iluda: facilitar o aborto não é o caminho para construir uma cultura de respeito pela dignidade da mulher. Dizer “não” ao aborto é dizer “sim” à dignidade da mulher, pois é ela, mais uma vez, que carrega a tristeza de ser “culpada” e “vítima”.

Lisboa, 21 de Janeiro de 2007

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

* Terceiro de 5 textos (semanais) do Cardeal Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos será celebrada, como é tradição, de 18 a 25 de Janeiro.
O tema para 2007 é: “Ele faz ouvir os surdos e falar os mudos” (Mc 7,37) e surge da experiência das comunidades cristãs da região de Umlazi, próxima de Durban, na África do Sul.
O Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos elaborou um conjunto de textos com vista à celebração da Semana de Oração que foram inicialmente preparados por um grupo local particular e depois adaptados para uso internacional. Eles reflectem as preocupações e a experiência de um povo marcado por um imenso sofrimento.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Caminhada pela Vida


No âmbito da campanha pelo "Não" à liberalização do aborto até às 10 semanas, os diversos movimentos e associações envolvidos estão a organizar a "Caminhada pela Vida", no próximo domingo, 28 de Janeiro, entre as 14:00 e as 18:00, desde a Maternidade Alfredo da Costa até à Fonte Luminosa.
Esta caminhada desenvolver-se à em 7 etapas, correspondentes às 7 etapas da vida (Concepção, Nascimento, Infância, Juventude, Adolescência, Maioridade, Idade Anciã). Cada uma delas destacada em cada um de 7 pontos do percurso, tem como finalidade promover a Vida e todas as Associações que a ela se dedicam.
Serão distribuídas bandeiras de todas as cores no início de cada etapa, pelo que pedimos, se estiver a chover traga um chapéu ou boné, para não tapar as cores que irão formar um arco-íris gigante.

Referendo: Sim ou Não? II


II – Uma questão de civilização

1. O facto de a Igreja Católica ser contra o aborto voluntário, em todas as circunstâncias, e devido à influência da doutrina da Igreja na definição dos parâmetros de moralidade, leva a opinião pública a considerar que esta disputa entre o “sim” e o “não” é um confronto entre a Igreja Católica e o resto da sociedade. A esta perspectiva dicotómica não escapam mesmo alguns defensores do “não”. Ora não me parece que esta seja a maneira mais correcta de situar o problema. Uma lei que permita a destruição da vida intra-uterina vai contra valores chave da nossa civilização. A defesa e a protecção da vida são um valor fundamental na estrutura de uma sociedade justa, onde o valor da vida humana é o principal fundamento da dimensão ética que deve inspirar toda a convivência em sociedade. Milénios de história e de evolução cultural, em que as religiões exerceram um papel significativo, levaram a humanidade a reconhecer, de forma progressiva, valores universais humanos, que não se impõem à sociedade por serem religiosos, mas por serem dados adquiridos da evolução cultural, na qual as religiões exerceram a sua influência específica.
O judeo-cristianismo, logo no decálogo da Lei de Moisés, confirmou estes valores universais. No que à vida diz respeito, exprimiu esse valor cultural no preceito “não matarás”. No cristianismo, este 5º mandamento da Lei de Deus, aprofunda-se com a exigência do amor fraterno. Esse é o principal mandamento da Lei: o amor de todo o seu semelhante. Como diz São João, “se alguém diz que ama a Deus e rejeita o seu irmão, é mentiroso” (1Jo. 4,20). Na moral católica, o valor universal do respeito pela vida, ganha a beleza e a exigência da caridade.
Uma lei que permita a destruição da vida humana é um atropelo de civilização, sinal de desvio preocupante no conjunto de valores éticos que são a base das sociedades humanistas, tão arduamente construídas ao longo de séculos. Os autores e defensores da proposta legislativa que vai ser referendada em 11 de Fevereiro próximo, encontram justificação para esta deriva cultural na possível dúvida sobre o momento em que começa a vida humana no seio materno. É uma dúvida chocante, no actual estado dos conhecimentos científicos sobre a vida intra-uterina.

2. Neste quadro civilizacional, defender o aborto voluntário significa uma de duas atitudes: ou se duvida acerca do momento em que começa a vida humana, ou se tem uma atitude de desrespeito pela vida.
A questão do momento em que começa a vida humana é também ela uma atitude cultural. Na própria história do pensamento cristã, essa questão pôs-se. Alguns autores escolásticos, numa perspectiva dualista da união da alma e do corpo, defenderam que a infusão da alma se dava numa determinada etapa da evolução do feto. E nessa visão antropológica, só depois da infusão da alma se podia falar de vida humana. Semelhante a essa é, ainda hoje, a visão muçulmana da evolução do feto.
Essa questão foi completamente ultrapassada pela Teologia e pelo Magistério. A alma está presente desde o primeiro momento do corpo e exprime-se nele e através dele. A alma não habita o corpo, anima-o e humaniza-o. Será que os defensores do aborto são “escolásticos”, do ponto de vista antropológico? Não deixa de ser curioso!
Mas a palavra esclarecedora sobre esta questão é-nos dada pela ciência. A partir do embrião, toda a especificidade de cada ser humano está definida. É possível identificar, desde logo, o código genético e as etapas do crescimento estão caracterizadas. É uma vida humana, desde o início. Apoiar-se no carácter incompleto de cada etapa do crescimento, para justificar a interrupção desse mesmo crescimento, é incongruente. O homem é sempre um ser em construção e nenhuma imperfeição na realização de toda a sua potencialidade pode justificar a sua exclusão.

3. A atitude de desrespeito pela vida humana está, infelizmente, muito espalhada na sociedade. A violência, a exclusão, o assassinato indiscriminado, a própria pena de morte. Esta é uma luta em que a humanidade não pode esmorecer, pela defesa da dignidade e dos direitos fundamentais de todo o ser humano, o primeiro dos quais é o direito a viver e a ser protegido pela Lei. Passa pela educação, pelas leis justas e pela visão do homem e da sociedade que devem inspirar uma sociedade justa.
Esta é, de facto, uma questão de cultura e de civilização, donde, a partir do respeito pela vida, deve emergir o sentido da grandeza da maternidade.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

A ética política do Governo respeita a Ética?


Ao reflectir nas razões do Governo para apoiar o Referendo, e ao ver o Primeiro Ministro a encabeçar a campanha pelo “Sim”, reconheço que não pensam bem.
Não só ele, sendo o líder desse governo, como outra gente, que pensa como ele, socialista ou não, no espectro global da nossa política. Jorge Coelho na “Quadratura do Círculo” que é um espaço útil de debate de ideias entre pensadores de cores políticas diferentes, lançava recentemente a ideia de que a grande razão, entre as maiores, era o facto social derivado do escândalo de ver milhares de mulheres portuguesas irem a Espanha abortar, e a injustiça que isso representava em relação às que não tem recursos para tal. Este é, para si, aparentemente, a razão ética da procura do “Sim”. “Problema social”, dizia Jorge Coelho!
Submeter a questão a “referendo” é ir pretender buscar uma legitimação ética para o aborto à opinião duma maioria, se possível. É uma ética de “maiorias” que se pretende chamar “ética política”. Mas essa nunca será uma legitimação da Ética que decorre do “direito natural”, assentando este na verdade que só a Biologia Humana é capaz de revelar.
A utilização dessa “ética política” é dar força ao opinável sem fundamento. É a instalação do “livre arbítrio colectivo”, mais ou menos manipulado, onde a dor e os dramas se misturam com interesses lucrativos de lúgubres trajectórias e inconfessados fins.Já aqui repetidamente discuti que, começada a vida humana – no ovo -, ela é inviolável porque o ser humano, na sua realidade intrínseca, corpo e alma, está lá desde esse início e com uma qualidade biológica como nunca mais vai ter no processo contínuo e uniforme que está na base da diferenciação orgânica e do crescimento corpóreo. As apelidações de ovo, embrião, feto, nascituro, infante, adolescente, adulto e velho são úteis para definirem estádios da vida desse Ser Humano, que nunca deixa de ser a vida de um Ser Humano, corpo e alma, do início ao fim da vida. É um erro biológico inadmissível pensar-se que a Vida, uma vez aparecida – logo na conjugação dos gâmetas - seja de natureza diferente da vida presente nas fases que se vão suceder, sejam os 14 dias ou as dez semanas, ou depois, em qualquer outra idade. Isto é um erro de pura e insustentável conjectura filosófica e uma aberração perante a realidade biológica que conhece quem cientificamente lida com ela na sua expressão macro e, sobretudo micromolecular.
Um dos corifeus do “sim”, EPC no “Público” (5ªfeira, 23 Nov.), pretende erradamente dizer que “a questão do começo da vida humana é o cerne da questão da despenalização do aborto” – ou da legalização do aborto em que a despenalização redunda – e essa questão “consiste apenas numa decisão de tipo filosófico”… Para si, “nada de mais inútil …do que brandir argumentos científicos para a tentar decidir.
Isto é inadmissível e reprovável como o denunciaram recentemente três ilustres colegas meus (Daniel Serrão, Miguel Leão e Nuno Montenegro, in: Tempo Medicina, 20 de Nov.06), assim: “Quem, no contexto da actual discussão sobre o aborto, aventa a hipótese da vida se iniciar por volta das 10 ou 12 semanas, está, ainda que de forma ínvia, a legitimar o princípio do “livre arbítrio” para a interrupção da gravidez”…
Portanto, a ética política – que tem noutros campos legitimidade - não a tem neste sobre o começo da vida humana, e não encontro fundamento ético, racional e humano, para que haja um referendo! O lugar da Ética em matéria como a que está em questão é soberano. E a vida não é eticamente matéria de REFERENDO ! Ao fazer-se, porém, e, obviamente, votarei NÃO!
Levi Guerra
Médico, Professor Catedrático de Medicina

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Referendo: Sim ou Não?


I – O que é que se pretende?

1. Aproxima-se a consulta popular em que o eleitorado vai ser convidado a dizer “sim” ou “não” a um alargamento legal do aborto, até às dez semanas de gravidez, tendo como motivo a justificá-lo apenas a vontade da mulher grávida. Embora a Igreja, porque é contra o aborto em todas as circunstâncias, não concorde com a Lei actualmente em vigor, ela apresenta razões para justificar o pedido da mulher: violação, mal-formação do feto, graves distúrbios psíquicos para a mãe. Agora pretende-se tornar legal que a mulher grávida peça o aborto só porque o quer.
O que é que se pretende? Que motivos levam a esta ousadia legislativa? O Estado democrático, através das leis que aprova, procura o bem da comunidade nacional. A arte de legislar tem uma forte componente cultural: as leis aplicam à vida concreta da sociedade, em ordem a harmonizá-la, os valores fundamentais da cultura de um Povo. É daí que provém a exigência ética de todas as leis. Será que a nossa cultura deixou cair o valor humano universal que é a dignidade da vida humana e o dever do Estado de a defender e proteger? Será que esta intenção legislativa propõe um bem fundamental para todos os portugueses?

2. Os motivos que parecem justificar esta proposta legislativa, vamo-nos apercebendo deles nas diversas declarações de governantes, de partidários da lei, de movimentos a favor do “sim”.

- Parece ser a busca de uma solução para o drama do aborto clandestino. Que ele existe e é um drama, é uma realidade. Mas qual a sua dimensão? O várias vezes anunciado estudo sobre esta realidade nunca foi realizado. O cruzamento dos métodos anticonceptivos com os métodos abortivos e as soluções químicas para a interrupção da gravidez fizeram diminuir a realidade do aborto de “vão de escada”. Esta nova realidade traz a decisão de abortar para o campo da liberdade pessoal e da consciência e não é razão para esta alteração na Lei. Não quero, com o que acabo de dizer, negar a realidade do “aborto clandestino”. Penso só que era preciso tipificar melhor a realidade, nas suas dimensões evolutivas, antes de propor à decisão dos portugueses uma tão grave alteração legal.
E será uma solução? Estudos feitos em países que seguiram este caminho, mostram que a legalização não resolveu significativamente o problema. Ao contrário, aumentaram os números globais de abortos.

- Pretende-se, depois, despenalizar a mulher que aborta. “Nem mais uma mulher para a cadeia” tornou-se “slogan”. Declarações que recentemente vi nos meios de comunicação social, dizem que, nos últimos trinta anos, nenhuma mulher foi presa por esse motivo. A afirmação surpreendeu-me. Houve, é certo, alguns julgamentos, e esses podemos contá-los, porque foram invariavelmente sublinhados com ruidosas manifestações dos movimentos “pró-aborto”. Mas também me consta terem sido dadas instruções à Polícia Judiciária para não ter entre as suas prioridades as investigações sobre o “crime” de aborto. Neste quadro, será urgente uma lei com tais problemas éticos? É notória a ambiguidade: não é possível “despenalizar” sem “legalizar”.

- Vi também apresentar como motivo, fazer alinhar Portugal entre os países mais progressistas da Europa, como se defender a vida fosse sinal de atraso cultural. Cautela Europa! Um continente a definhar por deficit de natalidade, a renunciar aos grandes valores da sua cultura, poderá ser a vítima do caminho que construir.

- Dizem outros que é um reconhecimento de um direito da mulher. “A mulher tem direito ao seu corpo”. Só que o feto é um corpo de outro ser humano, que a mulher mãe recebe no seu corpo, para o fazer crescer. O seio materno foi o primeiro berço de todos nós. É um corpo acolhido por outro corpo. Pergunto-me, sinceramente, pelo respeito que toda a mulher me merece, quantas mulheres-mães, mesmo as que passaram pelo drama do aborto, se pensarem um pouco, ouvindo o mais íntimo de si mesmas, serão capazes de fazer tal afirmação.

- A última razão que ouvi, e essa entristeceu-me particularmente, pois vinha de alguns católicos, que se querem distanciar da doutrina da Igreja: no aborto estão em questão duas vidas, a do feto e a da mãe. Estão a falar de aborto só quando a vida da mãe está em risco? E mesmo nessas circunstâncias é o caso em que a maternidade convida a correr riscos e apela ao heroísmo. Ou fazem equivaler a destruição da vida do feto ao incómodo de uma maternidade indesejada?

3. É notória a fragilidade de todos estes objectivos. O único que se afirma com a crueza da realidade é o drama do aborto clandestino do qual, como ficou dito, não se conhecem as fronteiras da realidade. Esta lei será uma solução? E, sobretudo, será uma solução legítima? Não o é, pois uma tal lei fere princípios éticos universais, é uma questão de civilização. Cultural e moralmente, o “Não” é a única resposta legítima.

Lisboa, 7 de Janeiro de 2007

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


* Primeiro de 5 textos (semanais) do Cardeal Patriarca de Lisboa, a respeito do Referendo sobre o Aborto

segunda-feira, janeiro 08, 2007

A PESSOA HUMANA, CORAÇÃO DA PAZ

MENSAGEM DE BENTO XVI - DIA MUNDIAL DA PAZ – 2007

1. No início do ano novo, desejo fazer chegar aos Governantes e aos Responsáveis das Nações, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade, os meus votos de paz. Envio-os, de modo particular, a quantos se encontram na tribulação e no sofrimento, a quem vive ameaçado pela violência e pela força das armas ou àqueles que ultrajados na sua dignidade, aguardam a sua reintegração humana e social. Envio-os às crianças que, com a sua inocência, enriquecem a humanidade de bondade e de esperança e, com o seu sofrimento, a todos nos animam a sermos obreiros de justiça e de paz. Pensando precisamente nas crianças, especialmente naquelas cujo futuro está comprometido pela exploração e pela maldade de adultos sem escrúpulos, quis que, por ocasião do Dia Mundial da Paz, a atenção se concentrasse sobre o tema: Pessoa humana, coração da paz. De facto, estou convencido de que respeitando a pessoa promove-se a paz, e, construindo a paz, assentam-se as premissas para um autêntico humanismo integral. É assim que se prepara um futuro sereno para as novas gerações.A pessoa humana e a paz: dom e missão2. A Sagrada Escritura afirma: « Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher » (Gn 1,27). Por ter sido criado à imagem de Deus, o ser humano possui a dignidade de pessoa; não é só alguma coisa, mas alguém, capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e de entrar em comunhão com outras pessoas. Ao mesmo tempo, ele é chamado, pela graça, a uma aliança com o seu Criador, a dar-Lhe uma resposta de fé e amor que mais ninguém pode dar em seu lugar.(1) Nesta admirável perspectiva, compreende-se a missão confiada ao ser humano de amadurecer pessoalmente na capacidade de amar e de fazer progredir o mundo, renovando-o na justiça e na paz. Numa síntese feliz, Santo Agostinho ensina: « Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós ».(2) É, pois, um dever de todos os seres humanos cultivar a consciência do duplo aspecto de dom e de missão.3. A paz é assim, simultaneamente, um dom e uma missão. Se é verdade que a paz entre os indivíduos e os povos — a capacidade de viverem uns ao lado dos outros tecendo relações de justiça e de solidariedade — representa um compromisso que não conhece pausa, é também verdade, e é-o ainda mais, que a paz é dom de Deus. A paz é, com efeito, uma característica da acção divina, que se manifesta tanto na criação de um universo ordenado e harmonioso, como também na redenção da história humana necessitada de ser recuperada da desordem do pecado. Criação e redenção oferecem, portanto, a chave de leitura que introduz na compreensão do sentido da nossa existência sobre a terra. O meu venerado predecessor João Paulo II, dirigindo-se à Assembléia Geral das Nações Unidas no dia 5 de Outubro de 1995, teve a ocasião de dizer que nós « não vivemos num mundo irracional ou sem sentido, mas [...] existe uma lógica moral que ilumina a existência humana e torna possível o diálogo entre os homens e os povos ».(3) A “gramática” transcendente, ou seja, o conjunto de regras da acção individual e do recíproco relacionamento entre as pessoas de acordo com a justiça e a solidariedade, está inscrita nas consciências, nas quais se reflecte o sábio projecto de Deus. Como recentemente quis reafirmar, « nós cremos que na origem está o Verbo eterno, a Razão e não a Irracionalidade ».(4) A paz é, portanto, também uma tarefa que compromete cada indivíduo a uma resposta pessoal coerente com o plano divino. O critério que deve inspirar esta resposta não pode ser senão o respeito pela “gramática” escrita no coração do homem pelo seu divino Criador. Nesta perspectiva, as normas do direito natural não hão-de ser consideradas como directrizes que se impõem a partir de fora, como se coarctassem a liberdade do homem. Pelo contrário, devem ser acolhidas como uma chamada a realizar fielmente o projecto universal divino, inscrito na natureza do ser humano. Guiados por tais normas, os povos — no âmbito das respectivas culturas — podem aproximar-se assim do maior mistério, que é o mistério de Deus. Por isso, o reconhecimento e o respeito pela lei natural constituem também hoje a grande base para o diálogo entre os crentes das diversas religiões e entre estes e os não crentes. É este um grande ponto de encontro e, portanto, um pressuposto fundamental para uma autêntica paz.O direito à vida e à liberdade religiosa4. O dever de respeitar a dignidade de cada ser humano, em cuja natureza se reflecte a imagem do Criador, tem como consequência que não se possa dispor da pessoa arbitrariamente. Quem detém maior poder político, tecnológico, económico, não pode aproveitar-se disso para violar os direitos dos outros menos favorecidos. De facto, é sobre o respeito dos direitos de todos que se baseia a paz. Ciente disso, a Igreja faz-se paladina dos direitos fundamentais de cada pessoa. De modo particular, ela reivindica o respeito da vida e da liberdade religiosa de cada um. O respeito do direito à vida em todas as suas fases, estabelece um ponto firme de importância decisiva: a vida é um dom de que o sujeito não tem total disponibilidade. De igual modo, a afirmação do direito à liberdade religiosa põe o ser humano em relação com um Princípio transcendente que o furta ao arbítrio do homem. O direito à vida e à livre expressão da própria fé em Deus não está nas mãos do homem. A paz necessita que se estabeleça uma clara fronteira entre o que é disponível e o que não o é: assim se evitarão intromissões inaceitáveis naquele património de valores que é próprio do homem enquanto tal.5. Quanto ao direito à vida, cabe denunciar todas as terríveis violações a que é sujeito na nossa sociedade: junto com as vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embriões e pela eutanásia. Como não ver nisto tudo um atentado à paz? O aborto e as pesquisas sobre os embriões constituem a negação directa da atitude de acolhimento do outro, que é indispensável para se estabelecerem relações de paz estáveis. Mais: no que diz respeito à livre manifestação da própria fé, outro sintoma preocupante de ausência de paz no mundo é representado pelas dificuldades que frequentemente, tanto os cristãos como os adeptos de outras religiões, encontram para professar pública e livremente as próprias convicções religiosas. No caso particular dos cristãos, devo ressaltar com tristeza que por vezes não se limitam a criar-lhes impedimentos; em alguns Estados são mesmo perseguidos, tendo-se registado ainda recentemente episódios de atroz violência. Existem regimes que impõem a todos uma única religião, enquanto regimes indiferentes alimentam, não uma perseguição violenta, mas um sistemático desprezo cultural quanto às crenças religiosas. Em todo o caso, não se respeita um direito humano fundamental, com graves repercussões sobre a convivência pacífica, o que não deixa de promover uma mentalidade e uma cultura negativas para a paz.A igualdade de natureza de todas as pessoas6. Na raiz de não poucas tensões que ameaçam a paz, estão certamente as inúmeras injustas desigualdades ainda tragicamente presentes no mundo. De entre elas são, por um lado, particularmente insidiosas as desigualdades no acesso a bens essenciais, como a comida, a água, a casa, a saúde, e, por outro lado, as contínuas desigualdades entre homem e mulher no exercício dos direitos humanos fundamentais.Constitui um elemento de primária importância para a construção da paz o reconhecimento da igualdade essencial entre as pessoas humanas, que brota da sua transcendente dignidade comum. A igualdade a este nível é, pois, um bem de todos, inscrito naquela “gramática” natural que se deduz do projecto divino da criação; um bem que não pode ser descurado ou desprezado sem provocar pesadas repercussões que põem em risco a paz. As gravíssimas carências de que sofrem muitas populações, especialmente no Continente africano, estão na origem de violentas reivindicações e constituem assim um tremendo golpe infligido à paz.7. A mesma insuficiente consideração pela condição feminina introduz factores de instabilidade no ordenamento social. Penso na exploração de mulheres tratadas como objectos e nas numerosas formas de falta de respeito pela sua dignidade; penso também — num contexto distinto — nas visões antropológicas persistentes em algumas culturas, que reservam à mulher uma posição ainda fortemente sujeita ao arbítrio do homem, com consequências lesivas da sua dignidade de pessoa e para o exercício das próprias liberdades fundamentais. Não devemos iludir-nos pensando que a paz está assegurada enquanto não forem superadas também estas formas de discriminação, que lesam a dignidade pessoal, inscrita pelo Criador em cada ser humano.(5)A « ecologia da paz »8. Na Carta Encíclica Centesimus annus escreve João Paulo II: « Não só a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve usar respeitando a intenção originária de bem, segundo a qual lhe foi entregue; mas o homem é doado a si mesmo por Deus, devendo por isso respeitar a estrutura natural e moral, de que foi dotado».(6) É respondendo a esta incumbência, que lhe foi confiada pelo Criador, que o homem, juntamente com seus semelhantes, pode dar vida a um mundo de paz. Assim, ao lado da ecologia da natureza existe uma ecologia que podemos designar “humana”, a qual, por sua vez, requer uma “ecologia social”. E isto pede que a humanidade, se tem a peito a paz, tome consciência cada vez mais das ligações existentes entre a ecologia natural, ou seja, o respeito pela natureza, e a ecologia humana. A experiência demonstra que toda a atitude de desprezo pelo ambiente provoca danos à convivência humana, e vice-versa. Surge assim com mais evidência um nexo indissolúvel entre a paz com a criação e a paz entre os homens. Uma e outra pressupõem a paz com Deus. A poesia-oração de S. Francisco, conhecida também como «Canção do Irmão Sol », constitui um admirável exemplo — sempre actual — desta multiforme ecologia da paz. 9. O problema, cada dia mais grave, das provisões energéticas ajuda-nos a compreender quão estreita é a relação entre uma e outra ecologia. Nestes anos, novas nações entraram decididamente no sector da produção industrial, aumentando as necessidades energéticas. Isto está a provocar uma corrida sem precedentes aos recursos disponíveis. Entretanto, persistem ainda em algumas regiões do planeta situações de grande atraso, onde o desenvolvimento está praticamente bloqueado devido também ao aumento dos preços da energia. Que acontecerá àquelas populações? Que tipo de desenvolvimento ou de não-desenvolvimento lhes será imposto pela escassez de reabastecimento energético? Que injustiças e antagonismos provocará a corrida às fontes de energia? E como reagirão os excluídos desta corrida? Estas perguntas põem em evidência quanto o respeito pela natureza está intimamente ligado à necessidade de tecer entre os homens e entre as nações relações respeitadoras da dignidade da pessoa e capazes de satisfazer as suas autênticas necessidades. A destruição do ambiente, um uso impróprio ou egoísta do mesmo, e a apropriação violenta dos recursos da terra geram rupturas, conflitos e guerras, precisamente porque são fruto de um conceito desumano de desenvolvimento. Com efeito, um desenvolvimento que se limitasse ao aspecto técnico-económico, descurando a dimensão moral-religiosa, não seria um desenvolvimento humano integral, e terminaria, ao ser unilateral, por incentivar as capacidades destruidoras do homem. Visões redutoras do homem10. É urgente, portanto, mesmo no quadro das actuais dificuldades e tensões internacionais, empenhar-se em dar vida a uma ecologia humana que favoreça o crescimento da “árvore da paz”. Para tentar semelhante empresa, é necessário deixar-se guiar por uma visão da pessoa não viciada por preconceitos ideológicos e culturais ou por interesses políticos e económicos, que incitem ao ódio e à violência. É compreensível que as visões do homem variem nas distintas culturas. Mas o que não se pode admitir é que sejam cultivadas concepções antropológicas que contenham nelas mesmas o germe da discórdia e da violência. São igualmente inaceitáveis concepções de Deus que estimulem a intolerância para com os próprios semelhantes e o recurso à violência contra eles. Trata-se de um dado em que se deve insistir com clareza: uma guerra em nome de Deus jamais é aceitável. Quando uma certa concepção de Deus está na origem de factos criminosos, é sinal de que tal concepção já se transformou em ideologia.11. Hoje, porém, a paz não é posta em discussão só pelo conflito entre as visões redutoras do homem, ou seja entre as ideologias. É-o também pela indiferença face àquilo que constitui a verdadeira natureza do homem. Muitos contemporâneos negam, com efeito, a existência de uma específica natureza humana, tornando assim possíveis as interpretações mais extravagantes dos constitutivos essenciais do ser humano. Também aqui faz falta a clareza: uma visão “débil” da pessoa, que deixe espaço a qualquer concepção excêntrica, só aparentemente favorece a paz. Na verdade, impede o diálogo autêntico e abre o caminho à intervenção de imposições autoritárias, terminando assim por deixar a própria pessoa indefesa e, consequentemente, presa fácil da opressão e da violência.Direitos humanos e Organizações internacionais12. Uma paz verdadeira e estável pressupõe o respeito dos direitos do homem. Mas se estes direitos se baseiam numa concepção débil da pessoa, como não hão-de ficar também eles enfraquecidos? Daqui se vê claramente a profunda insuficiência de uma concepção relativista da pessoa, quando se trata de justificar e defender os seus direitos. A aporia neste caso é patente: os direitos são propostos como absolutos, mas o fundamento aduzido para eles é apenas relativo. Causará surpresa se, diante das exigências “incómodas” postas por um direito ou outro, aparecer alguém a contestá-lo ou decidir ignorá-lo? Somente radicados em instâncias objectivas da natureza, dada ao homem pelo Criador, é que os direitos a ele atribuídos podem ser afirmados sem medo de contestação. De resto, é evidente que os direitos do homem, por sua vez, implicam deveres. Bem o afirmava a propósito mahatma Gandi: «O Gange dos direitos desce do Himalaia dos deveres» Somente deixando claro este pressuposto de base, é que os direitos humanos, hoje sujeitos a contínuos ataques, podem ser adequadamente defendidos. Sem esta clareza, acaba-se por utilizar a mesma expressão, precisamente ‘direitos humanos’, mas subentendendo sentidos bem distintos entre si: para uns, a pessoa humana dotada de dignidade permanente e de direitos sempre válidos, em toda a parte e para todos; para outros, uma pessoa de dignidade mutável e de direitos sempre negociáveis nos conteúdos, no tempo e no espaço.13. À tutela dos direitos humanos fazem constante referência aos Organismos Internacionais e, de modo particular, à Organização das Nações Unidas que, com a Declaração Universal de 1948, se propôs, como missão fundamental, promover os direitos do homem. Tal Declaração é vista como uma espécie de compromisso moral assumido por toda a humanidade. Isto encerra uma verdade profunda, sobretudo se os direitos humanos descritos na Declaração são considerados como detentores de fundamento não simplesmente na decisão da assembleia que os aprovou, mas na mesma natureza do homem e na sua inalienável dignidade de pessoa criada por Deus. É, por isso, importante que os Organismos Internacionais não percam de vista o fundamento natural dos direitos do homem. Isto preservá-los-á do risco, infelizmente sempre latente, de resvalar para uma interpretação meramente positivista. Se isso acontecesse, os Organismos Internacionais terminariam carecendo da autoridade necessária para desempenhar o papel de defensores dos direitos fundamentais da pessoa e dos povos, motivo principal da sua mesma existência e actividade.Direito internacional humanitário e direito interno dos Estados14. A partir da consciência de que existem direitos humanos inalienáveis, ligados à natureza comum dos homens, foi elaborado um direito internacional humanitário, a cuja observância os Estados se comprometem mesmo em caso de guerra. Isto infelizmente não encontrou coerente concretização, sem falar do passado, em algumas recentes situações de guerra. Foi o que se deu, por exemplo, no conflito que, há alguns meses, teve por cenário o sul do Líbano, quando a obrigação de proteger e ajudar as vítimas inocentes e de não envolver a população civil foi em grande parte desatendida. O doloroso episódio do Líbano e a nova configuração dos conflitos, sobretudo desde que a ameaça terrorista pôs em prática inéditas modalidades de violência, requerem que a comunidade internacional reafirme o direito internacional humanitário e o aplique a todas as situações actuais de conflito armado, incluindo as não previstas pelo direito internacional em vigor. Além disso, a praga do terrorismo postula uma reflexão aprofundada sobre os limites éticos que são inerentes ao uso dos instrumentos actuais de tutela da segurança nacional. Com frequência cada vez maior, com efeito, os conflitos não são declarados, sobretudo quando os provocam grupos terroristas decididos a alcançar por qualquer meio os seus fins. Face aos desconcertantes cenários destes últimos anos, os Estados não podem deixar de sentir a necessidade de dotar-se de regras mais claras, capazes de contrastar eficazmente com a deriva dramática a que estamos assistindo. A guerra representa sempre um insucesso para a comunidade internacional e uma grave perda de humanidade. Mas quando, apesar de tudo, ela acontece, convém pelo menos salvaguardar os princípios essenciais de humanidade e os valores básicos de toda a convivência civil, estabelecendo normas de comportamento que limitem ao máximo os seus danos e procurem aliviar os sofrimentos dos civis e de todas as vítimas dos conflitos.(7)15. Outro elemento causador de grande inquietação é a vontade, manifestada recentemente por alguns Estados, de possuírem armas nucleares. Isto fez com que se acentuasse ainda mais o generalizado clima de incerteza e de medo por uma possível catástrofe atómica. O que faz voltar à lembrança o passado, aquelas ânsias desgastantes do período da assim chamada “guerra fria”. Desde então esperava-se que o perigo atómico estivesse definitivamente afastado e que o suspiro de alívio dado pela humanidade pudesse finalmente durar. Como se revela actual, a este respeito, a admoestação do Concílio Ecuménico Vaticano II: «Toda a acção bélica que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões e seus habitantes é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação ».(8) Infelizmente sombras ameaçadoras continuam adensando-se no horizonte da humanidade. O caminho para garantir um futuro de paz para todos é constituído não somente por acordos internacionais que visem a não proliferação das armas nucleares, mas também pelo esforço de procurar com determinação a sua diminuição e definitiva abolição. Não se poupem esforços para se chegar, pela negociação, a alcançar, tais finalidades! Está em jogo o destino de toda a família humana! A Igreja em defesa da transcendência da pessoa humana16. Desejo, enfim, dirigir um premente apelo ao Povo de Deus, a fim de que cada cristão se sinta comprometido a ser incansável promotor de paz e acérrimo defensor da dignidade da pessoa humana e dos seus direitos inalienáveis. Agradecido ao Senhor por tê-lo chamado a pertencer à sua Igreja – que, no mundo, é «sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana»,(9) – o cristão não se cansará de Lhe implorar o bem fundamental da paz, que tanta importância tem na vida de cada um. Além disso, ele sentirá o orgulho de servir com generosa dedicação a causa da paz, indo ao encontro dos irmãos, especialmente daqueles que, além de sofrer pobreza e privações, estão também privados deste precioso bem. Jesus revelou-nos que «Deus é amor» (1 Jo 4,8) e que a vocação maior de cada pessoa é o amor. Em Cristo, podemos encontrar as supremas razões para nos tornarmos paladinos seguros da dignidade humana e corajosos construtores de paz. 17. Portanto, jamais deixe de faltar a colaboração de cada crente para a promoção de um verdadeiro humanismo integral, conforme os ensinamentos das Cartas Encíclicas Populorum progressio e Sollicitudo rei socialis, das quais nos preparamos para celebrar precisamente este ano o 40o e o 20o aniversário. À Rainha da Paz, Mãe de Jesus Cristo “nossa paz” (Ef 2,14), confio a minha instante súplica por toda a humanidade, no início do ano de 2007, que vislumbramos — mesmo entre perigos e problemas — com o coração cheio de esperança. Seja Maria a mostrar-nos no seu Filho o Caminho da paz, e ilumine os nossos olhos, para que saibamos reconhecer o seu Rosto no rosto de cada pessoa humana, coração da paz!

Vaticano, 8 de Dezembro de 2006.
Bento XVI

(1) Cf. Catecismo da Igreja Católica, 357.
(2) Sermão 169, 11,13: PL 38,923.
(3) N. 3.
(4) Homilia no Islinger Feld de Regensburg (12 de Setembro de 2006).
(5) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo (31 de Maio de 2004), nn. 15-16.
(6) N. 38.
(7) A este respeito, o Catecismo da Igreja Católica estabeleceu critérios muitos severos e precisos: cf. nn. 2307-2317.
(8) Const. past. Gaudium et spes, 80.
(9) Conc. Ecum. Vat. II, Ib., 76.

“Construir a Paz pelo Amor e pela Beleza”

Homilia na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, Dia Mundial da Paz
Paróquia de Santo António do Estoril, 1 de Janeiro de 2007

1. Todos nós, e a maior parte dos nossos contemporâneos, andamos preocupados com a paz global. Impressionam-nos os conflitos sangrentos, repudiamos o terrorismo e as novas formas de violência; assusta-nos a escalada na busca de armas de destruição maciça, mas esquecemo-nos que a paz global se decide no horizonte mais restrito da nossa vida pessoal, na nossa harmonia interior, no respeito sagrado pela vida e pela pessoa dos outros, na exclusão da violência no universo mais restrito da nossa vida pessoal. Há uma certa incongruência e mesmo hipocrisia quando nos arvoramos em defensores da paz global e cedemos à violência e à injustiça, na família, no ciclo limitado das nossas relações, na maneira habitual de viver em sociedade. Toda a forma de violência prejudica a paz. Quem é violento para com aqueles que lhe são próximos é capaz de ser violento em relação a toda a comunidade humana. É essa a mensagem que nos dirigiu, hoje, o Santo padre Bento XVI, ao dizer-nos que “a pessoa humana é o coração da paz”. A nossa meditação neste Dia Mundial da Paz, não pode ignorar as múltiplas formas de violência que existem na nossa sociedade: contra as crianças, mesmo antes de nascerem, a violência familiar de que a mulher é a principal vítima, as injustiças no trabalho e nos negócios, a busca egoísta dos próprios interesses, abafando os dinamismos de generosidade e de busca do bem-comum. As injustiças na sociedade tornam-se focos de violência e não facilitam a construção da paz global. Quero, hoje, aprofundar convosco, dois aspectos de uma espiritualidade para a paz, no universo próprio da nossa vida: a generosidade do amor e a contemplação da beleza.
2. Nunca haverá paz sem amor, porque a convivência entre os homens assenta na consciência de que, cada um de nós, só será feliz se procurar contribuir para a felicidade dos outros. É-se pessoa, ajudando os outros a sê-lo; somos corresponsáveis, com as pessoas com quem nos cruzamos, pela harmonia da vida e pela construção da felicidade e da paz. Uma visão da vida, centrada sobre si mesma, é egoísta e não leva à felicidade e à paz. A multidão de homens e mulheres, de todas as culturas e religiões, que dão a sua vida para ajudar outras pessoas que sofrem, são, no mundo de hoje, talvez muito mais do que os governantes das nações, os grandes obreiros da paz. A generosidade para com os outros aprofunda no próprio coração o sentido da dignidade de toda a vida e de cada pessoa humana. É nesse sentido que o Santo Padre nos diz que a paz é um dom e uma missão. Nós os crentes, sabemos que a paz, sem deixar de ser nossa responsabilidade e missão, é um dom de Deus, e encontra a sua expressão mais profunda na harmonia nas relações de cada homem com Deus que o criou e com o Seu Filho Jesus Cristo, que nos salvou. Só aqueles que o experimentaram, podem saborear a paz profunda que, no nosso coração, brota da nossa relação confiante com Deus, sobretudo com Jesus Cristo, que nos permite viver, no coração de Deus, a intimidade de filhos. É essa a mensagem de Paulo aos Gálatas: “a prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Abbá, ó Pai. Assim já não és escravo, mas filho” (Gal. 4,6-7). A missão da Igreja, ao ajudar as pessoas a descobrir Deus e a aprofundar esta relação filial com Ele, constitui um contributo importante para a paz. Nem sempre a sociedade reconhece este esforço silencioso e persistente de humanização, e não está consciente de que se trata de uma missão fundamental e prioritária, porque quem está em paz com Deus é, espontaneamente, um construtor da paz entre os homens. A religião é o mais sagrado santuário da liberdade. O respeito pela liberdade religiosa e o apreço por aqueles que tomam, livremente, essa opção, é um dos mais sólidos pilares da paz. A paz, como missão, significa que ela deve ser compromisso de todos, particularmente dos cristãos. Esse é, aliás, o dinamismo de todos os dons de Deus: suscitar e fortalecer nas pessoas o desejo de amor. Tudo o que Deus nos dá é para nos tornarmos capazes de amar, de ser Sua imagem. A sua primeira exigência é o respeito pela vida. Esta é, sempre, uma participação na vida divina, e não a respeitar, mesmo quando ela é apenas um embrião promissor, é uma violência, gérmen de outras violências. A vida não é um bem arbitrário, de que se possa dispor ao sabor de políticas, de interesses pessoais ou mesmo de sofrimentos inevitáveis. No respeito pela vida e pela dignidade dos outros, cada um exprime e reconhece a dignidade da sua própria vida e reforça o direito de a ver respeitada. A paz como missão significa a determinação de lutar contra todas as formas de violência, de discriminação, de negação da dignidade e de direitos inalienáveis de toda a pessoa humana.
3. Um dos frutos do amor é a contemplação da beleza. Entre o amor e o belo há uma identidade de natureza. O amor é a experiência humana que mais nos conduz a tocar a beleza como harmonia do ser. Na beleza toca-se aquela dimensão profunda em que toda a realidade se auto-transcende e encontra a sua conaturalidade com a beleza divina. Contemplar a beleza é caminho para a paz. A beleza não é algo a acrescentar à realidade do Universo e da pessoa humana. Antes ela é a dimensão mais profunda de toda a realidade criada. Tem-se acesso à beleza indo ao fundo das realidades. Nas realidades criadas, a beleza é a assinatura do Seu autor, de Deus que as criou. Ela é a maravilhosa harmonia impressa em todo o Universo, no mistério do seu início, no ritmo do seu crescimento, nas leis que o regem e o orientam para o homem, única criatura a encarnar a própria beleza de Deus. Podemos contemplá-la, a desafiar-nos e a transcender-nos, no infinitamente pequeno como na imensidão do cosmos; ela extasia-nos, particularmente, na harmonia da vida. Particularmente acessível no casal que gera um filho e que a mãe contempla a crescer no seu seio, torna-se mais exigente, a clamar pela generosidade do amor, quando a vida é difícil. De toda a educação da pessoa humana deveria fazer parte a educação para a beleza, porque ela fortalece o coração para o amor e para a defesa da vida; a sua força exclui a violência e, é, em si mesma, uma expressão de paz. Os modernos movimentos ecológicos procuram ser uma educação para a beleza. Bento XVI, na sua Mensagem, convida-nos a ir mais longe e a completar a ecologia da natureza com uma “ecologia humana”, procurando e preservando, acima de tudo, a beleza impressa no coração do homem.
4. Mas para além da beleza impressa no íntimo de toda a criação, o homem, a obra prima da criação, a criatura mais bela no conjunto da harmonia global, torna-se criador de beleza. Chamamos-lhe, então, artista, porque a arte que produz torna mais acessível à contemplação de todos a beleza tantas vezes escondida. Como na aventura da revelação de Deus, os Profetas foram aqueles que escutaram a Palavra de Deus e a comunicaram por suas palavras aos outros, incapazes de escutar a Palavra na sua origem divina, assim os artistas são os “profetas da beleza”, porque a captam na sua transcendentalidade e a tornam acessível a outros. No judeo-cristianismo, como nas outras grandes religiões, estes “profetas da beleza” completaram sempre a missão dos Profetas da Palavra. Ambos se encontram na expressão do louvor de Deus. Na Liturgia, a Palavra e a beleza dão-se as mãos. A beleza torna-se caminho de oração e de contemplação. Os artistas são, assim, tal como os arautos do amor, grandes artífices da paz. Ao tocar a beleza, eles abrem-se à universalidade do mistério do homem, horizonte onde se situa a paz. Quando o artista fica prisioneiro de projectos reduzidos, que podem ser ideologias ou ânsia de poder, negam-se como profetas da transcendência que toda a beleza exprime e anuncia. A educação para a beleza é um caminho para a paz e ela pode ser, também, uma educação pela arte e para a arte. A Igreja aceita ter responsabilidades específicas nesse desafio, ela que vê ligada à sua fé a mais significativa expressão do nosso património artístico, e estamos dispostos a estudar caminhos novos para proporcionar, sobretudo às nossas crianças e aos nossos jovens essa descoberta da vida através da beleza. Se desejamos a paz, reunamos o mais generoso do nosso contributo na generosidade do amor e na contemplação da beleza.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

“Humanização de Deus, divinização do Homem”

Homilia na Solenidade do Natal do Senhor
Sé Patriarcal, 25 de Dezembro de 2006

1. A Encarnação do Verbo eterno de Deus no Homem Jesus Cristo é o mistério central da nossa fé, e situa, em termos únicos e definitivos, a religião, concebida como relação dos homens com Deus. A Encarnação é uma manifestação tão ousada e inaudita da relação de Deus com o homem, que só Deus, no Seu insondável desígnio, a podia imaginar e realizar. A fé de Israel estava centrada na Aliança entre Deus e o Seu Povo, proposta de intimidade e fidelidade mútua entre os homens e Deus. A Aliança apresentava um Deus próximo, bom e misericordioso, solícito com os homens, presente e comprometido com a sua história. Pela Sua Palavra, revela-Se e desvela o Seu desígnio; pelo Seu poder conduz a história; pela Sua misericórdia está sempre disposto a perdoar e a transformar as infidelidades em momentos de redenção e de aprofundamento da Aliança. Mas, como diz São João, “a Deus ninguém jamais O viu”. Fala através dos Profetas, conduz o Povo através de Juízes e de Reis que Ele deseja sejam “pastores de Israel”, e promete um tempo novo de consolidação definitiva da Aliança, em que enviará um “Rei Justo”, o Seu ungido, que conduzirá o Povo à plenitude da Aliança. Na fé de Israel, a densidade da Aliança concentra-se na esperança messiânica. Mas em nenhum momento do Antigo Testamento, por mais profunda que seja a expectativa messiânica, se ousa afirmar a divindade do Messias esperado. Ele é um príncipe da linhagem de David, realizará acções que só Deus pode realizar, como salvar o Povo dos seus pecados; Ele realizará a obra de Deus, será o Seu “Servo” por excelência. É certo que, em perspectiva escatológica, chega a ser imaginado como uma figura celeste, um “Filho do Homem”, que aparece sobre as nuvens do Céu. Mas que o Messias seja a Encarnação do próprio Deus, é a surpresa reservada por Deus para os que acreditarem na ressurreição de Jesus Cristo. A divindade de Cristo continua a ser a surpresa inaudita da fé cristã, afirmação da humanização de Deus e da divinização do homem, novo capítulo da “nova e definitiva Aliança”. Em relação ao homem, Deus afirma-se mais pela proximidade do que pela distância; diz-nos que, vencido o pecado, há na profundidade do homem a capacidade de ser semelhante a Deus. Afinal Deus e o homem são da mesma família, o que já estava sugerido na narração da criação, quando se diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança.
2. Os crentes do Antigo Testamento encontravam dois obstáculos, aparentemente intransponíveis, para ousarem, sequer, imaginar que um homem pudesse ser Deus: a infinita distância entre o homem e Deus, distância de natureza, acentuada irremediavelmente na história do pecado do homem; e a compreensão de Deus como uma única Pessoa. Só a revelação de Deus como comunidade de Pessoas, uno na natureza e trino nas pessoas, poderia permitir a ousadia de acreditar na Encarnação de uma das Pessoas divinas. A revelação cristã resolve estas duas dificuldades: Cristo liberta radicalmente o homem do pecado e Ele próprio nos revela o mistério da comunhão trinitária. É por aí que começa São João ao falar de Cristo como Encarnação de Deus: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus… Tudo se fez por meio d’Ele” (Jo.1,1). Só depois de afirmar esta alteridade, como Pessoa, do Verbo eterno em relação a Deus, de Quem é a Palavra, o Evangelista podia afirmar: “E o Verbo fez-Se carne e habitou no meio de nós. E nós vimos a glória d’Ele, glória que lhe vem do Pai, como o Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1,14). O anúncio deste mistério é prévio a tudo o que se possa dizer sobre Jesus. É por isso que São João faz deste anúncio o prólogo do seu Evangelho. O cristianismo é uma coisa ou outra conforme se acredita ou não que Jesus Cristo é o Filho de Deus feito Homem e se toma à letra a própria confissão de Jesus: “Eu e o Pai somos um” (Jo. 10,30).
3. Esta realidade inaudita de um “Deus-Homem” muda radicalmente a fisionomia da religião. A ponte entre Deus e o homem está definitivamente feita, porque o homem não precisa de sair da sua humanidade para encontrar Deus, e reconhece em Deus o mais íntimo da sua vocação humana. A primeira grande alteração acontece na maneira de escutar a Palavra de Deus: é uma mudança radical na mediação profética. É o que nos diz a Carta aos Hebreus: “Deus, que muitas vezes e de muitos modos, falara antigamente a nossos pais pelos Profetas, nestes tempos, que são os últimos, falou-nos por Seu Filho” (Heb. 1,1-2). Em Jesus Cristo cessa a mediação profética, porque Deus nos fala directamente através do Filho feito Homem. A Palavra de Deus é, agora, a Palavra de Jesus Cristo. E n’Ele toda a Sua realidade, ensinamento e missão, é Palavra. Deus já não precisa de mediações simbólicas para revelar aos homens a Sua Palavra. Ele próprio, no Tabor, anunciou a nova etapa do diálogo do homem com Deus: “Este é o Meu Filho… escutai-O” (Mt. 17,5). Jesus Cristo, Filho de Deus, revela-nos o mais profundo desígnio de Deus a nosso respeito: seremos Seus filhos e entraremos na comunhão de amor que Ele é. E isso aconteceu-nos, quando, pelo baptismo, nos unimos à Sua morte e ressurreição. A principal obrigação do homem em relação a Deus, que é glorificá-l’O, está garantida por Jesus Cristo, no sacrifício de louvor. Ao permitir-nos esta intimidade e esta verdade com Deus, Cristo revela ao homem o mais profundo do Seu coração. Só em Jesus Cristo o homem reconhece o seu mistério. Cristo revela o homem a si mesmo; Cristo humaniza o homem.
4. Num momento em que, num mundo globalizado, se fala na urgência do diálogo inter-religioso como caminho para a paz, os cristãos só se podem comprometer, de forma construtiva, nesse diálogo, se não esquecerem este carácter único da sua fé: a proximidade de Deus, em Jesus Cristo. Noutras religiões, encontramos o sentido da transcendência de Deus, da Sua santidade e bondade, Senhor e Juiz de todos os homens. Mas só o cristianismo nos torna Deus acessível, próximo, expresso na realidade humana do Homem Jesus Cristo. Ele tornou-se o único caminho por onde podemos chegar a Deus. É também a partir de Jesus Cristo que podemos entrar em diálogo com crentes de outras religiões, nossos irmãos. No que essas religiões significam de caminho para Deus, elas são expressão silenciosa de Jesus Cristo, o único caminho. Ao exprimir-se num Homem, Deus tocou no âmago de toda a história humana e do próprio Universo criado, no seio dos quais as “sementes do Verbo” anseiam pela sua manifestação plena. Foi assim que um grande Padre da Igreja, Santo Ireneu, designou os valores positivos de todas as religiões como caminhos para Deus: “sementes do Verbo”, Ele que Se fez carne, em Jesus Cristo. Porque o homem é o centro do Universo, a Encarnação de Deus, em Jesus Cristo, é um passo decisivo para a transformação do Universo criado, em ordem à sua plenitude definitiva. Ele é uma força transformadora, a germinar no seio do cosmos, a anunciar a sua transformação. São João lembra que por esse Verbo eterno, que Se fez carne, todas as coisas foram feitas. Tudo será recapitulado n’Ele, como afirma o Concílio Vaticano II: “O Verbo de Deus, por Quem tudo foi feito, Ele próprio Se fez carne, para que, Homem perfeito, salve todos os homens e recapitule todas as coisas n’Ele” (G.S. n.º45). A nossa fé em Jesus Cristo, Verbo de Deus Encarnado, compromete-nos com a evolução do Universo e o destino da criação. O drama do Universo é indissociável do drama do homem, e ambos encontram a resposta iluminadora na Cruz de Jesus Cristo. É este o ensinamento de Paulo aos cristãos de Roma: “Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não se podem comparar à glória que se revelará em nós. Porque a criação, em expectativa, aspira pela revelação dos filhos de Deus. Se ela foi submetida à vaidade (…) é com esperança de ser, também ela, liberta da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rom. 8,18-21). O cristão é chamado a encontrar Deus, em Jesus Cristo, também no âmago da criação, ela própria redimida por Jesus Cristo. Num Hino da Liturgia das Horas, a Igreja canta: “Porque Ele está connosco, enquanto o tempo é tempo, ninguém espere, para O encontrar, o fim dos dias. Abrindo os olhos, busquemos o Seu rosto e a Sua imagem. Busquemo-l’O na vida, sempre oculto, no íntimo do mundo, como um fogo”. Acreditar em Jesus Cristo, Verbo encarnado, significa introduzir Deus em todas as dimensões da nossa vida: pessoais e íntimas, de relação com os outros numa história comum, nas nossas relações com o Universo, inseparável do destino do homem. Deus está próximo, passou a ser uma força contínua, na nossa vida e na nossa história.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

“Jesus é o Messias de Deus”

Homilia na Noite de Natal
Sé Patriarcal, 24 de Dezembro de 2006

1. O Menino que nasceu em Belém é o Messias prometido. A esperança da vinda do Messias como intervenção definitiva de Deus na História do povo com quem fez aliança, é fortemente reavivada na profecia de Isaías. E o anúncio feito pelos Anjos aos Pastores, naquela noite em Belém, é messiânico: “Anuncio-vos uma grande alegria para todo o Povo: nasceu-vos, hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc. 2,10-11). O nascimento de Jesus é, para o Povo da Aliança, o cumprimento da grande promessa de Deus. Por isso, é motivo de alegria para todo o povo. Cristo é a manifestação definitiva da fidelidade de Deus. A origem desta promessa tem a ver com a função dos reis de Israel que, em nome de Deus, conduziam o Povo na fidelidade à Aliança, construindo um Reino onde abundassem a justiça e a paz. Os reis eram, no espírito da Aliança, os pastores de Israel. A infidelidade dos reis, levou a que Deus lhes retirasse essa dignidade de serem os pastores do Seu Povo. O Profeta Ezequiel diz a esses pastores de Israel que Deus lhes retirará o cuidado do Seu rebanho, e que Ele, o próprio Deus, tomará conta do Seu rebanho: “suscitarei para pôr à sua frente um pastor que os apascentará, o meu servo David” (Ez. 34,23). O Santo Rei David ficará na memória de Israel como um rei justo, que apesar do seu pecado, foi pastor de Israel. O anúncio do Rei Justo, verdadeiro Pastor de Israel, aparece sempre ligado à herança espiritual de David. Na tradição oficial, o Messias será um descendente de David, que será um bom pastor de Israel, e o conduzirá à fidelidade ao pacto de aliança. O drama espiritual de Israel consiste em viver a sua história em tensão, entre os descendentes de David, os reis segundo a carne, que se tornaram “maus pastores” e a esperança no verdadeiro descendente de David, que Deus fará surgir no tempo oportuno, a plenitude do tempo, e que será o “Bom Pastor”, que instaurará um Reino de Justiça e de Paz. Há momentos em que esta tensão se sente de maneira dramática. É o caso do diálogo de Isaías com o Rei Acaz: o profeta tenta levar o rei a ser o “bom pastor” de Israel, num momento difícil da sua história. Perante a recusa e a incredulidade do rei, o profeta anuncia essa outra descendência de David: “O próprio Senhor te dará um sinal. Ei-lo: a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, a quem chamará Emanuel” (Is. 7,14). Este anúncio é tão denso que é, para o profeta, quase uma realidade palpável. O Povo pode desejar um tempo de justiça e de paz, “porque um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Tem o poder sobre os Seus ombros e será chamado «Conselheiro Admirável», Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz” (Is. 9,5). Ao identificar a sua acção junto do Povo, Isaías vê neste Menino aquele que cumpre a profecia de Ezequiel: o próprio Deus será Rei e Pastor do Seu Povo. Esta tensão entre a dupla descendência de David prolonga-se até ao tempo histórico de Jesus. Todos desejam a vinda do Messias. Para uns, Ele seria um Rei forte, capaz de vencer os inimigos do Povo, mas descendente de David segundo a carne. Outros, as comunidades espirituais, os pobres e os simples, já não acreditavam que um rei terreno pudesse salvar Israel. Para eles o Messias tinha de ser um dom de Deus, um “Filho do Homem” que aparecesse sobre as nuvens do Céu. Jesus recusa sempre que se aplique a Si mesmo o messianismo oficial. Só o aceita explicitamente no pretório de Pilatos, quando está a ser julgado. À pergunta de Pilatos, “portanto Tu és Rei”, Jesus responde: “Tu o dizes, Sou Rei. Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. Mas antes tinha deixado tudo claro: “o Meu Reino não é deste mundo” (Jo. 18,36-37). Jesus gostava de se chamar a Si mesmo o “Filho do Homem”, suscitando o entusiasmo em quantos seguiam essa tradição messiânica. Mas enquanto estes esperavam um Messias a surgir triunfalmente sobre as nuvens do Céu, Jesus, verdadeiramente obra de Deus, nasce discretamente do seio virginal de Maria. “Um Menino nasceu para nós”! Essa foi a surpresa de Belém.
2. O nascimento em Belém confirma a ascendência davídica do Messias, não segundo a carne, mas como novidade e surpresa de Deus, unificando as duas tradições messiânicas. Jesus pode chamar-se, a Si Mesmo, o “Filho do Homem”, porque Ele nasceu de Deus, foi gerado pelo Espírito Santo, no seio virginal de Maria. Ele é, como os reis de Israel, o Messias, isto é, o ungido. Mas não o foi por nenhum sacerdote do templo, mas pelo próprio Deus, no momento em que a Sua divindade se exprimiu na humanidade. O mistério da encarnação é a sua “unção” messiânica. O próprio Jesus o afirma, designando-Se como “Aquele que o Pai consagrou (ungiu) e enviou ao Mundo” (Jo. 10,36). Ao nascer em Belém, Jesus afirma-Se como o prometido Rei Justo, descendente de David, que será o “Bom Pastor” e trará a salvação a Israel. Ao nascer de Deus e de Maria, afirma-Se como iniciativa salvífica de Deus, manifestação da Sua eterna fidelidade. O anúncio do Seu nascimento só podia ser feito aos “pobres” de Israel, neste caso os pastores. Os poderosos não estavam preparados para acolher este anúncio. Eles estão todos representados na figura do Rei Herodes, que ao ter notícia da hipótese de ter nascido o Messias Rei, o considera um perigo e um adversário, a eliminar o mais rapidamente possível. Esta “tensão” entre as duas maneiras de conceber a descendência de David, acompanhará Jesus em toda a Sua vida terrena, e será a causa da Sua morte. Foi considerado blasfemo porque Se considerou “Filho de Deus”. Ele não era o Messias que os poderosos do Povo estavam preparados para acolher. E os sumo-sacerdotes conseguiram fazer o que já Herodes tinha tentado com a matança dos inocentes. Esta tensão há-de atravessar a humanidade até àquele momento decisivo em que a Sua glória se há-de manifestar. Até lá permanece a pergunta: mas afinal quem é Jesus Cristo? Uma personagem histórica, situada num contexto preciso? Mais um Profeta, com uma mensagem interessante? Ou é a surpresa de Deus, manifestação do Seu amor por nós, um dom de Deus, um “Bom Pastor” que nos traz a salvação?Como naquela noite em Belém, só os simples de coração O poderão acolher como o Mensageiro de Deus, o que nos traz a salvação; reconhecer como faz Paulo na Carta a Tito, que n’Ele “se manifestou a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens” (Tit. 2,11).Só os corações simples podem alegrar-se com Jesus como surpresa e dom de Deus. “Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o Povo: nasceu-vos, hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc. 2,11). O anúncio do Anjo abre para o mistério daquele Menino. É o Messias. Chama-lhe o “Ungido”. Mas ao chamar-lhe Senhor, abre o véu do Seu segredo divino, e resume a Sua missão: glorificar a Deus e construir a paz. Esta paz é obra do amor e encontra todo o seu esplendor na participação do amor do Pai e do Filho. No momento solene da Sua Páscoa, plena realização da Sua missão messiânica, Jesus reza ao Pai: “Glorifiquei-Te sobre a terra, porque acabei a obra que Tu Me tinhas mandado realizar” (Jo. 17,4). “Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste, para que sejam um como Nós” (Jo. 17,11). “Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz; não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo. 14,2-7).
3. Este é um aviso, para os homens do nosso tempo, em noite de Natal. Nem todas as expressões de festa com que assinalamos esta quadra nos trazem a paz de Deus e a alegria do coração. Acolhamos a surpresa do dom de Deus, que continua a ser-nos dada naquele Menino, nascido para nós, expressão da paternidade amorosa de Deus.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

"Não havia lugar para eles"

MENSAGEM DE NATAL 2006 DE SUA EMINÊNCIA REVERENDÍSSIMAD. JOSÉ DA CRUZ POLICARPOCARDEAL-PATRIARCA DE LISBOA
Senhores telespectadores e rádio-ouvintes,
1. Na Liturgia desta noite lê-se a narração do Nascimento de Jesus feita por São Lucas. Num determinado momento ele conta: Maria “teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc. 2,7). Não havia lugar para eles. O facto é explicado pela circunstância da grande afluência de pessoas a Belém por causa do recenseamento ordenado pelo Imperador Romano. Há sempre uma circunstância para justificar a exclusão. Mas fica clara a insensibilidade de uma cidade à urgência de acolher uma mulher grávida, prestes a dar à luz. Não é por acaso que o Evangelista reteve este pormenor: não havia lugar para eles. Jesus, desde o Seu nascimento, partilha a sorte dos excluídos, dos que não têm lugar. Mais tarde, quando as autoridades civis e religiosas O condenam à morte, negando-Lhe um lugar no seio do Seu Povo, Jesus experimenta na carne que a exclusão pode ser a expressão máxima da injustiça. E percebemos porque é que, na Sua Palavra e nos Seus gestos, Ele se põe, espontaneamente, do lado dos excluídos, lutando por um lugar para eles, quanto mais não seja no coração de alguém que os ame e reconheça a sua dignidade. No Seu caso, o lugar que Lhe fora negado em Belém, há-de conquistá-lo oferecendo a Sua morte e vencendo-a na ressurreição. O Seu lugar é hoje um lugar central no coração daqueles que acreditam n’Ele, incontornável para toda a humanidade.
2. Resolvi sublinhar este aspecto do Nascimento de Jesus nesta saudação que vos estou a dirigir, em noite de Natal, quando há dias fui surpreendido pelo título de primeira página de um grande jornal diário: “Hotéis portugueses começam a assumir opção de não aceitar crianças”. Mais uma vez, noutra circunstância concreta, não há lugar para as crianças. Como em Belém, há certamente circunstâncias económico-sociais que justificam esta exclusão: a comodidade dos outros utentes, a rentabilidade económica do sector, etc. A exclusão das crianças continua a ser problema real na nossa sociedade. O número de crianças sem lugar na família é preocupante. Estou a falar-vos da Casa do Gaiato do Tojal, instituição que a Igreja de Lisboa assumiu, recentemente, à sua responsabilidade e que vem juntar-se a outras obras da Diocese, como a “Casa Mãe” do Gradil e o “Instituto da Sãozinha”, na Abrigada, destinadas a serem a família das crianças sem família. Outras instituições, como a “Ajuda de Berço”, também elas apoiadas pela Igreja, procuram proporcionar um colo aos bebés a quem ele foi recusado. E os filhos dos pais separados comprometidos num segundo casamento? Divididos e, por vezes, disputados entre os pais, essas crianças sentem que não têm lugar no coração dos pais e nas novas famílias que eles constituíram. Os portugueses vão ser consultados, em referendo, sobre a legalização do aborto, a pedido da mulher grávida. Sejam quais forem os motivos que justificam, aos olhos da mulher, essa atitude dramática, é sempre negar um lugar a um ser humano que foi gerado, a quem a mãe, os pais e a sociedade negam um lugar para poder crescer. Em todos estes casos de crianças excluídas, pode dizer-se: não há lugar para eles.
3. E as pessoas idosas? Esse é o seu drama. Muitos sentem que perderam o lugar, que estão a mais. Os lares que os acolhem, e também aí falo com vasto conhecimento da realidade, procuram dar-lhe um lugar, mas não evitam a solidão, não compensam o esquecimento, por melhores que sejam as condições materiais e institucionais de que os rodeiam. Também aí há justificação: o aumento da duração da vida; a mulher no trabalho; a exiguidade da habitação; as condições económicas. Mas a realidade é que não há lugar para eles.
4. Outros grupos mereciam uma referência nesta noite. Penso nas pessoas portadores de deficiência e nos ex-reclusos. Marcados pelo estigma da deficiência ou do seu passado, não é fácil encontrarem um lugar na sociedade, no trabalho, na família. A atenção aos ex-reclusos é urgente, pois se não se sentirem úteis e integrados, podem regredir na delinquência. Saúdo o “Companheiro”, associação católica de apoio à reintegração dos ex-reclusos e que tantas dificuldades tem encontrado nos últimos tempos.
5. Nos últimos meses têm sido abundantes as notícias de empresas que fecham, porque não têm viabilidade ou se deslocam, deixando milhares de pessoas sem trabalho. Numa sociedade em que o trabalho por conta de outrem é, para a maioria da população, a forma da subsistência e, por conseguinte, a garantia das condições que garantam viver a vida em harmonia, o desemprego imposto torna-se uma grave forma de exclusão. De repente essas pessoas sentem, dramaticamente, que não há lugar para elas. Aí as razões justificativas são lógicas e implacáveis: as consequências da globalização, as exigências do sistema económico vigente, quase sempre em crise, o direito das multinacionais se deslocarem para garantirem maior rentabilidade. O fenómeno atinge proporções tais na nossa sociedade, que exige politicas de fundo e não apenas soluções casuais. É preciso aprofundar as exigências éticas de todo o processo económico e dos seus principais agentes, adaptando-as à evolução da sociedade e ao bem-estar dos cidadãos. No que à globalização e deslocação das empresas diz respeito, torna-se urgente a adaptação e a criatividade no âmbito do direito internacional. Enquanto os sistemas económicos gerarem pobreza e causarem exclusão, eles não servem o bem-comum da sociedade. Os sindicatos, legítimas associações de trabalhadores, têm que os defender e promover na busca de soluções criativas e inovadoras. Não podem ficar prisioneiros de ideologias, embora lhes seja legítimo terem princípios inspiradores do modelo de sociedade e das soluções que defendem. Devem ser estruturas de diálogo e não apenas de conflito; devem avaliar a eficácia das acções que desencadeiam, e ser factores de esperança e não de revolta. Numa sociedade justa os primeiros defensores dos direitos dos trabalhadores deveriam ser as empresas e os empregadores, o que não dispensa o papel das associações de trabalhadores, porque não há empresas sadias sem a participação criativa de todos os seus agentes.
6. Jesus nasceu em Belém, começando por fazer a experiência de não haver lugar para Ele na cidade. A quantos O seguem e nos quais Ele infunde o Seu Espírito, convida-os a lutar contra todas as formas de exclusão, na certeza de que só o amor, a generosidade e a paixão pela pessoa humana a podem evitar. Mas o Senhor convida-nos, também, a encontrar um lugar para aqueles a quem o negaram, ainda que seja só na nossa ternura e no nosso coração. A Igreja, se for fiel a Jesus Cristo, estará sempre na primeira linha da luta contra todas as formas de exclusão. Desejo a todos um Bom Natal. E que cada um de nós saiba concretizar este desejo tão próprio do ambiente natalício: dar a alguém que tenha sido excluído, um lugar no seu coração.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca