segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Catequese 1º Domingo da Quaresma 2007




“A voz que clama no deserto”

1. Quando João Baptista inicia a sua pregação profética, anunciando que o Messias está a chegar, o seu discurso surpreende e choca. Os fariseus e as autoridades religiosas enviam uma delegação a perguntar-lhe quem é e o que pretende. E ele apresenta-se, aplicando a si mesmo um oráculo de Isaías: “Eu sou uma voz que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor” (Jo. 1,23).
João dirige-se a um povo crente, com uma forte estrutura religiosa, com uma espiritualidade, a da Aliança, com uma esperança, a do reino messiânico, com templo e liturgia, sobretudo com uma lei, a Lei de Deus. É este povo, em que a sociedade se identifica com a religião, que ele considera um deserto, incapaz de acolher a surpresa da sua mensagem: o Messias está perto, preparai-lhe o caminho, abri-lhe o vosso coração.
Porque é que o Baptista, tantos anos depois do êxodo, se considera a pregar no deserto? Trata-se de uma simbologia importante para a compreensão da mensagem da salvação. A travessia do deserto é um período da vida do povo em que ele depende completamente de Deus: é Ele que o alimenta, que o protege dos inimigos, que o conduz pela Sua Palavra, onde as desconfianças e infidelidades do Povo ficam a nu com toda a sua gravidade, são uma questão de vida ou de morte, porque sem a acção poderosa de Deus o povo não subsiste.
Ao contrário, quando Israel se estabelece na Palestina e cria uma civilização de abundância, esquece facilmente que depende de Deus, cai na idolatria, contenta-se com os bens da terra, a Lei torna-se apenas uma regra de costumes. Toda a mensagem dos profetas, antes e depois do exílio, é um esforço de fazer Israel voltar ao deserto, isto é, à consciência de que depende de Deus, que sem Ele não subsiste. A sua mensagem, como a de João, choca e escandaliza, porque é a denúncia de um presente acomodado à vida deste mundo, esquecendo que a verdadeira terra prometida é escatológica, obra de Deus.
A simbologia do deserto define a situação da Igreja no mundo e na história. A viver no mundo, sem ser do mundo, pode perder-se nas realidades deste mundo e esquecer a sua dependência radical do Espírito de Deus. Se se horizontaliza, perdida nos critérios do mundo, a Igreja deixa de ser capaz de ouvir a Palavra de Cristo, seu Senhor, ou a reduz a uma simples palavra humana, culturalmente integrada. Porque está no deserto, ela vive guiada pela Palavra de Deus e alimentada pelo Pão do Céu, sabendo que a travessia do deserto só acabará na eternidade, na Casa do Pai.

2. Escolhi esta imagem bíblica para introduzir as Catequeses Quaresmais deste ano, porque penso que a missão da Igreja na sociedade em que vivemos se realiza na tensão de amar o mundo, sem se identificar com ele, e que a mensagem de que a Igreja é portadora tem de ter a capacidade de surpreender, rasgando caminhos para a surpresa da fé e da esperança.
Mas este “deserto” onde é preciso rasgar caminhos novos, não se reduz à sociedade, no seu carácter profano, aparentemente cada vez mais indiferente às exigências espirituais do Reino de Deus, anunciado por Jesus. Aplica-se também à Igreja, povo de baptizados, onde uma religiosidade tradicional não exprime a exigência inovadora da Páscoa de Cristo, onde o abandono progressivo da prática religiosa, o divórcio entre fé e moral, isto é, a falta de coerência para se viver segundo a fé que se professa, a pobreza de uma autêntica cultura religiosa, exigem uma pastoral profética que rasgue caminhos para um seguimento de Cristo, transformador da vida. Isto exige aos cristãos que aprofundem as razões da sua fé. Esta não é, apenas, um sentimento ou uma tradição; é adesão da inteligência e do coração e encontra fundamento e apoio na razão. Aprofundar as razões do nosso acreditar é o tema que tratarei nesta Quaresma.

O “deserto” da sociedade em que vivemos
3. Na sua missão evangelizadora, a Igreja precisa de conhecer, com realismo, as principais coordenadas culturais da sociedade a que se dirige. Apesar de ter muitas reminiscências cristãs na sua cultura, a nossa sociedade não se abre facilmente à verdade do Evangelho, com tendência a isolar a fé cristã da racionalidade humana, relegando-a para o campo da subjectividade individual. Não há convergência espontânea entre a visão da vida veiculada pela fé cristã e a que é proposta pela sociedade em que vivemos, o que exige da Igreja “um remar contra a corrente”, na expressão de João Paulo II. Enumeramos, a seguir, alguns traços da cultura vigente que maiores dificuldades apresentam ao acolhimento da Palavra de Deus.

* O naturalismo na interpretação da vida e na busca do seu sentido, objectivo primordial na busca da verdade. Esta atitude exclui a relação com Deus, fonte da dimensão transcendente da vida. Mesmo que não se negue a sua existência, Ele fica de fora da vida e da história; vive-se como se Deus não existisse. É já comum chamar-se a esta atitude ateísmo prático. Vive-se ao ritmo dos instintos da natureza, físicos ou espirituais. Acentua-se a dimensão individual da liberdade e altera-se o horizonte da felicidade como objectivo a alcançar, reduzindo-a à realização de instintos e desejos, situados no presente e no futuro imediato. Esta atitude altera profundamente o sentido ético da existência, alicerce da profundidade de uma cultura. Dilui-se o sentido do pecado, que só se sente quando a vida é vivida numa relação de fidelidade a Deus. Resta, apenas, a infracção legal.
Ora Deus é a realidade mais séria e exigente que acontece na nossa vida. Ele apresenta-se como realidade insofismável, “Aquele que é” (cf. Ex. 3,14) e aceitá-l’O é mudar radicalmente o sentido da nossa vida. A Sua Palavra e a palavra que O anuncia, têm de abrir caminhos no deserto para serem ouvidas.

* O racionalismo, atitude que se acentuou, nos últimos dois séculos, no pensamento europeu e que tende a fazer da razão o único critério de verdade. Perante a fé, enquanto acolhimento de Deus e da Sua palavra, o racionalismo gerou movimentos que vão desde a aceitação do Deus da razão até ao ateísmo teórico. Esta tendência para reduzir a compreensão da verdade ao horizonte explícito da razão, chegou a influenciar o pensamento cristão e correntes de opinião dentro da própria Igreja, a seu tempo denunciados pelo Magistério. O progresso das ciências exactas, um dos maiores triunfos da razão humana, acentuou a atitude racionalista, chegando-se a alimentar um conflito inevitável entre a razão e a fé.
Curiosamente este culto da razão acabou por diminuir a sua dignidade e grandeza e reduzir o âmbito das suas potencialidades. A invasão da vida quotidiana pelos frutos da ciência e da técnica, deu origem a uma racionalidade básica, limitada ao imediato da existência e incapaz de atrair o homem para a busca da verdade. A filosofia, ciência vocacionada para a compreensão profunda da realidade e para a busca exigente da verdade, deu lugar à análise dos fenómenos, a uma sabedoria prática sem asas para voar. O individualismo do pensamento e da liberdade conduziram à anulação da cultura, substituída pelo imponderável dos sentimentos e da opinião, principal dogma da apregoada “nova idade”. O racionalismo levou a uma autêntica crise da racionalidade. Mas sobretudo esqueceu-se a capacidade da razão humana de procurar Deus, de integrar a Sua Palavra e de ser a base de uma verdadeira racionalidade da fé. E, no entanto, é nessa sua vocação de transcendência e de absoluto que reside a grandeza e a dignidade da razão humana.
A firmeza da fé, com capacidade de exprimir as razões do nosso acreditar, supõe o aprofundamento da sua racionalidade, o que exige estudo e cultura. Como escreveu João Paulo II, “a fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de o conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”
[1].

* O individualismo: o culto do indivíduo em detrimento da dimensão comunitária, acentuou uma visão da pessoa humana que dá primazia aos interesses e direitos individuais de cada um, relativizando a responsabilidade social. As expressões mais graves deste individualismo concretizaram-se na concepção da liberdade, no conceito de verdade, na definição da consciência moral. No exercício da liberdade, relativiza-se o sentido da corresponsabilidade para com os outros, em comunidade: cada um passa a ter direito à própria verdade e a decidir individualmente o que é bem e mal. O individualismo altera profundamente o universo ético da cultura.
A mensagem cristã dá prioridade ao amor, que põe os outros no centro da nossa liberdade e à comunidade sobre o indivíduo, sendo o contexto da definição e transmissão da verdade. Esta recebe-se e herda-se, não se inventa a partir de cada liberdade individual. Aos direitos correspondem sempre deveres e o dom de si mesmo é mais importante do que a procura dos próprios interesses. Neste quadro individualista dilui-se, progressivamente, o conceito de “bem comum”. Cai-se na prevalência do egoísmo sobre a generosidade.

* A permissividade. A nossa sociedade é, cada vez mais, permissiva, porque se foi perdendo a dimensão comunitária dos valores e da verdade. Qualquer magistério tem o valor da opinião, tolerado na medida em que não questione a liberdade individual. A esta permissividade está ligado o conceito de tolerância, concebida como aceitação de que cada um pode agir como lhe parecer melhor. Neste contexto, as próprias leis, que deveriam exprimir os valores culturais de uma comunidade, limitam-se a gerir conflitos entre indivíduos, tornando-se pragmáticas e não propostas de cultura e de civilização. A conflitualidade social agravou-se neste quadro cultural.

O “deserto” dentro da Igreja
4. A própria Igreja, na sua complexa realidade, pode constituir, também ela, esse “deserto” onde é preciso rasgar caminhos para a Palavra do Senhor.
A Igreja faz parte da sociedade e pode deixar-se influenciar pela deriva cultural que referi atrás. Como sabemos é muito grande o número de cristãos baptizados que, ou perderam a fé ou não a praticam. Muitos limitam a sua referência à Igreja a actos particularmente simbólicos, como é o nascimento, o casamento, a morte. E mesmo os praticantes, separam cada vez mais a fé da sua exigência moral. Celebram a fé, mas vivem com o espírito do mundo, desconhecendo o princípio bíblico de que é na prática dos mandamentos que se conhece e ama a Deus. Muitos relativizam o Magistério, deixando de escutar a Igreja como mestra da verdade.
Um cristianismo de tradição não tem a força para fazer frente ao espírito do mundo, e a Igreja enfraquece a sua capacidade profética de ser testemunho de uma outra visão da vida. Para muitos cristãos a fé é pouco profunda, solidificada pela cultura. E quando a fé não se solidifica numa verdadeira racionalidade crente, cai-se, facilmente, em expressões da fé baseadas na afectividade, no misticismo dos sentimentos, a que os Santos Padres chamaram “fideísmo”. O Papa João Paulo II refere-se-lhe assim: “não faltam também perigosas recaídas no fideísmo, que não reconhece a importância do conhecimento racional e do discurso filosófico para a compreensão da fé, melhor, para a própria possibilidade de acreditar em Deus”
[2].
Está em questão todo o ritmo da formação cristã, em que o aprofundamento cultural deve acompanhar a celebração da fé e a experiência da oração. Só a racionalidade crente possibilita um discernimento completo, por parte dos cristãos, das realidades da sociedade em que estão inseridos. No debate cultural eles tornam-se incapazes de dar as razões profundas das suas opções de fé. É um esforço que tem de começar na catequese, sobretudo a de adultos, valorizar a presença na escola, sobretudo na escola católica, aproveitar todos os meios disponíveis, tão ampliados pelas novas tecnologias, para promover um debate contínuo sobre a fé e o homem e a sociedade, vistos à luz da fé. Formar cristãos é ensiná-los a celebrar e a rezar, mas é também ensiná-los a pensar. Oxalá a Igreja seja o espaço onde se mantenha e, porventura, se salve um verdadeiro pensamento filosófico.

As razões do nosso acreditar
5. A vida da Igreja nas nossas sociedades ocidentais não é fácil. Não tem inimigos frontais e declarados, como noutras fases da sua história, embora haja forças organizadas que visam relativizar a importância dos valores cristãos na sociedade. Há modelos de sociedade que só triunfarão, alterando as coordenadas culturais. Mas a principal ameaça para a Igreja vem-lhe de dentro: é o desgaste da convivência da sociedade, é a usura do tempo, na incapacidade de afirmar a solidez racional da sua proposta. É preciso mostrar que há razões para acreditar, que a fé não violenta a razão e que esta, no seu dinamismo profundo, é uma abertura a Deus e à Sua Palavra. A cultura contemporânea minimizou a razão. Todos os ateísmos e agnosticismos são limitativos das capacidades da razão. É preciso recuperar o debate sobre a verdade e repor a dignidade da liberdade.
A Igreja faz parte da sociedade, e tudo o que é humano lhe interessa e diz respeito. É-lhe enviada com uma proposta que continua a chocar e a surpreender. A Igreja abraça a humanidade, sabendo que lhe é enviada em missão. Essa é a mensagem do Concílio Vaticano II, na “Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo do nosso tempo”, cuja actualidade é flagrante: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e não há nada de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração”
[3].
Amar os homens do nosso tempo não significa deixar-se arrastar pela deriva cultural das sociedades contemporâneas. Como enviada em missão, a Igreja tem de ser capaz de afirmar a diferença, de ler nos anseios e problemas da sociedade sinais para a sua missão, e poder propor com convicção aquilo em que acredita.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Sé Patriarcal, 25 de Fevereiro de 2007

[1] João Paulo II, Fides et Ratio (FR), Introdução
[2] Ibidem, nº 55
[3] Gaudium et Spes, nº 1

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

D. Manuel Clemente, novo bispo do Porto


D. Manuel Clemente, actual bispo auxiliar de Lisboa, é o novo bispo do Porto, substituindo D. Armindo Coelho, anunciou hoje o Vaticano.
Em comunicado, a Nunciatura Apostólica em Lisboa refere que o Papa Bento XVI aceitou a resignação de D. Armindo Coelho, uma vez que atingiu o limite de idade canónico, 75 anos, para o exercício daquelas funções.
D. Manuel Clemente, 58 anos, era bispo auxiliar de Lisboa desde 22 de Janeiro de 2000, tendo a sua nomeação episcopal sido anunciada em Novembro de 1999.
Licenciado em História e Teologia, doutorado em Teologia Histórica, D. Manuel Clemente é professor de História da Igreja na Universidade Católica Portuguesa e presidente da Comissão da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais.
D. Armindo Coelho, que a 16 de Fevereiro celebrou 76 anos, encontra-se afastado do governo da diocese do Porto desde Outubro de 2006 devido a um acidente vascular cerebral.
O até agora bispo titular, que continua internado no Hospital da Prelada, no Porto, tinha sido provisoriamente substituído por D. João Miranda Teixeira, bispo auxiliar, que fora nomeado Administrador Apostólico por Bento XVI.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Mensagem do Papa para a Jornada Mundial da Juventude

"Que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei"
(Jo 13, 34)
Queridos jovens!
Por ocasião da XXII Jornada Mundial da Juventude, que será celebrada nas Dioceses no próximo Domingo de Ramos, gostaria de propor à vossa meditação as palavras de Jesus: "que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei" (Jo 13, 34).
É possível amar?
Cada pessoa sente o desejo de amar e ser amada. Mas como é difícil amar, quantos erros e falências devem verificar-se no amor! Há até quem chegue a duvidar que o amor seja possível. Mas se carências afectivas ou desilusões sentimentais podem levar a pensar que amar é uma utopia, um sonho irrealizável, talvez seja necessário resignar-se? Não! O amor é possível e a finalidade desta mensagem é contribuir para reavivar em cada um de vós, que sois o futuro e a esperança da humanidade, a confiança no amor verdadeiro, fiel e forte; um amor que gera paz e alegria; um amor que une as pessoas, fazendo-as sentir-se livres no respeito recíproco. Deixai então que eu percorra juntamente convosco um itinerário, em três momentos, na "descoberta" do amor.
Deus, fonte do amor
O primeiro momento refere-se à fonte do amor verdadeiro, que é única: é Deus. São João ressalta bem este aspecto ao afirmar que "Deus é amor" (1 Jo 4, 8.16); agora ele não quer dizer apenas que Deus nos ama, mas que o próprio ser de Deus é amor. Estamos aqui diante da revelação mais luminosa da fonte do amor que é o mistério trinitário: em Deus, uno e trino, há um intercâmbio eterno de amor entre as pessoas do Pai e do Filho, e este amor não é uma energia ou um sentimento, mas uma pessoa, é o Espírito Santo.
A Cruz de Cristo revela plenamente o amor de Deus
Como se nos manifesta o Deus-Amor? Estamos no segundo momento do nosso itinerário. Mesmo se já na criação são claros os sinais do amor divino, a revelação total do mistério íntimo de Deus verificou-se com a Encarnação, quando o próprio Deus se fez homem. Em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, conhecemos o amor em todo o seu alcance. De facto, "a verdadeira novidade do Novo Testamento escrevi na Encíclica Deus caritas est não consiste em ideias novas, mas na própria figura de Cristo, que dá carne e sangue aos conceitos um realismo extraordinário" (n. 12). A manifestação do amor divino é total e perfeita na Cruz, onde, como afirma São Paulo, "é assim que Deus demonstra o seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós" (Rm 5, 8). Portanto, cada um de nós pode dizer sem receio de errar: "Cristo amou-me e entregou-se a Si mesmo por mim" (cf. Ef 5, 2). Redimida pelo seu sangue, vida humana alguma é inútil ou de pouco valor, porque todos somos amados pessoalmente por Ele com um amor apaixonado e fiel, um amor sem limites. A Cruz, loucura para o mundo, escândalo para muitos crentes, é ao contrário "sabedoria de Deus" para todos os que se deixam tocar profundamente no seu ser, "o que é considerado loucura de Deus é mais sábio que os homens, e o que é debilidade de Deus é mais forte que os homens" (cf. 1 Cor 1, 24-25). Aliás, o Crucificado, que depois da ressurreição traz para sempre os sinais da própria paixão, ressalta as "falsificações" e as mentiras sobre Deus, que se disfarçam com a violência, a vingança e a exclusão. Cristo é o Cordeiro de Deus, que assume os pecados do mundo e desenraiza o ódio do coração do homem. Eis a sua verdadeira "revolução": o amor.
Amar o próximo como Cristo nos ama
Chegamos agora ao terceiro momento da nossa reflexão. Na cruz Cristo grita: "Tenho sede" (Jo 19, 28): revela assim uma sede ardente de amar e de ser amado por todos nós. Unicamente se conseguirmos compreender a profundeza e a intensidade deste mistério, nos apercebemos da necessidade e da urgência de o amar por nossa vez "como" Ele nos amou. Isto exige o compromisso de dar também, se for necessário, a própria vida pelos irmãos amparados pelo Seu amor. Já no Antigo Testamento Deus dissera: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19, 18), mas a novidade de Cristo consiste no facto de que amar como Ele nos amou significa amar todos, sem distinções, também os inimigos, "até ao fim" (cf. Jo 13, 1).
Testemunhas do amor de Cristo
Gostaria agora de me deter sobre três âmbitos da vida quotidiana onde vós, queridos jovens, sois particularmente chamados a manifestar o amor de Deus. O primeiro é a Igreja que é a nossa família espiritual, composta por todos os discípulos de Cristo. Recordando-nos das suas palavras: "Por isso é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jo 13, 35), alimentai, com o vosso entusiasmo e com a vossa caridade, as actividades das paróquias, das comunidades, dos movimentos eclesiais e dos grupos juvenis aos quais pertenceis. Sede solícitos em procurar o bem do próximo, fiéis aos compromissos assumidos. Não hesiteis em renunciar com alegria a alguns dos vossos divertimentos, aceitai de bom grado os sacrifícios necessários, testemunhai o vosso amor fiel a Jesus anunciando o seu Evangelho especialmente entre os vossos coetâneos.
Preparar-se para o futuro
O segundo âmbito, no qual sois chamados a expressar o amor e a crescer nele, é a vossa preparação para o futuro que vos espera. Se sois noivos, Deus tem um projecto de amor para o vosso futuro de casal e de família e por conseguinte é essencial que o descubrais com a ajuda da Igreja, livres do preconceito difundido de que o cristianismo, com os seus mandamentos e as suas proibições, constitua obstáculos à alegria do amor e impeça em particular de viver plenamente aquela felicidade que o homem e a mulher procuram no seu amor recíproco. O amor do homem e da mulher está na origem da família humana e o casal formado por um homem e por uma mulher tem o seu fundamento no desígnio originário de Deus (cf. Gn 2, 18-25). Aprender a amar-se como casal é um caminho maravilhoso, que contudo exige um tirocínio empenhativo. O período do noivado, fundamental para construir o casal, é um tempo de expectativa e de preparação, que deve ser vivido na castidade dos gestos e das palavras. Isto permite amadurecer no amor, na solicitude e nas atenções ao outro; ajuda a exercer o domínio de si, a desenvolver o respeito do outro, características do verdadeiro amor que não procura em primeiro lugar a própria satisfação nem o seu bem-estar. Na oração comum pedi ao Senhor que guarde e incremente o vosso amor e o purifique de qualquer egoísmo. Não hesiteis em responder generosamente à chamada do Senhor, porque o matrimónio cristão é uma verdadeira e própria vocação na Igreja. De igual modo, queridos jovens e queridas jovens, estai preparados para dizer "sim", se Deus vos chamar a segui-lo pelo caminho do sacerdócio ministerial ou da vida consagrada. O vosso exemplo servirá de encorajamento para muitos outros vossos coetâneos, que estão em busca da verdadeira felicidade.
Crescer no amor todos os dias
O terceiro âmbito do compromisso que o amor exige é o da vida quotidiana com as suas numerosas relações. Refiro-me sobretudo à família, à escola, ao trabalho e ao tempo livre. Queridos jovens, cultivai os vossos talentos não só para conquistar uma posição social, mas também para ajudar os outros "a crescer". Desenvolvei as vossas capacidades, não só para vos tornardes mais "competitivos" e "produtivos", mas para serdes "testemunhas da caridade". Juntai à formação profissional o esforço de adquirir conhecimentos religiosos úteis para poder desempenhar a vossa missão de modo responsável. Sobretudo, convido-vos a aprofundar a doutrina social da Igreja, para que a vossa acção no mundo seja inspirada e iluminada pelos seus princípios. O Espírito Santo faça com que sejais inovadores na caridade, perseverantes nos compromissos que assumis, e audaciosos nas vossas iniciativas, a fim de que possais oferecer o vosso contributo para a edificação da "civilização do amor". O horizonte do amor é verdadeiramente infinito: é o mundo inteiro!
"Ousar o amor" seguindo o exemplo dos santos
Queridos jovens, gostaria de vos convidar a "ousar o amor", isto é, a não desejar nada para a vossa vida que seja inferior a um amor forte e belo, capaz de tornar toda a existência uma jubilosa realização da doação de vós próprios a Deus e aos irmãos, à imitação d'Aquele que mediante o amor venceu para sempre o ódio e a morte (cf. Ap 5, 13). O amor é a única força capaz de mudar o coração do homem e a humanidade inteira, tornando proveitosas as relações entre homens e mulheres, entre ricos e pobres, entre culturas e civilizações. Disto dá testemunho a vida dos Santos que, verdadeiros amigos de Deus, são o canal e o reflexo deste amor originário. Comprometei-vos a conhecê-los melhor, entregai-vos à sua intercessão, procurai viver como eles. Limito-me a citar Madre Teresa que, para se apressar a responder ao grito de Cristo "Tenho sede", grito que a comoveu profundamente, começou a recolher os moribundos nas estradas de Calcutá, na Índia. A partir de então, o único desejo da sua vida tornou-se o de extinguir a sede de amor de Jesus não com palavras, mas com gestos concretos, reconhecendo o seu rosto desfigurado, sequioso de amor, no rosto dos mais pobres. A Beata Teresa pôs em prática o ensinamento do Senhor: "Sempre que fizerdes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes" (cf. Mt 25, 40). E a mensagem desta humilde testemunha do amor divino difundiu-se em todo o mundo.
O segredo do amor
Queridos amigos, a cada um de nós é concedido alcançar este grau de amor, mas unicamente se recorrermos ao indispensável apoio da Graça divina. Só a ajuda do Senhor nos permite, de facto, evitar a resignação diante da grandiosidade da tarefa a ser desenvolvida e infunde-nos a coragem de realizar quanto é humanamente impensável. Sobretudo a Eucaristia é a grande escola do amor. Quando se participa regularmente e com devoção na Santa Missa, quando se transcorrem na companhia de Jesus Eucarístico pausas prolongadas de adoração é mais fácil compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do seu amor que ultrapassa todo o conhecimento (cf. Ef 3, 17-18). Partilhando o Pão eucarístico com os irmãos da comunidade eclesial sentimo-nos depois estimulados a traduzir "depressa", como fez a Virgem com Isabel, o amor de Cristo em generoso serviço aos irmãos.
Rumo ao encontro de Sidney
A este propósito é iluminadora a exortação do apóstolo João: "Meus filhinhos, não amemos nem com palavras nem com a boca, mas com as obras e com a verdade. Por isto conheceremos que somos da verdade" (1 Jo 3, 18-19). Queridos jovens, é com este espírito que vos convido a viver a próxima Jornada Mundial da Juventude juntamente com os vossos Bispos nas vossas respectivas Dioceses. Ela representará uma etapa importante rumo ao encontro de Sidney, cujo tema será: "Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas" (Act 1, 8). Maria, Mãe de Cristo e da Igreja, ajudar-vos-á a fazer ressoar em toda a parte o grito que mudou o mundo: "Deus é amor!". Acompanho-vos com a oração e abençoo-vos de coração.
Vaticano, 27 de Janeiro de 2007.
BENEDICTUS PP. XVI

Nota da Conferência Episcopal Portuguesa sobre o referendo do aborto no país

O NOVO CONTEXTO DA LUTA PELA VIDA
Nota Pastoral

Reunida em Assembleia extraordinária, após o habitual retiro, a Conferência Episcopal Portuguesa, na sequência do referendo de 11 de Fevereiro, decidiu propor algumas reflexões pastorais aos cristãos e à sociedade em geral.
1. Apesar de a maioria dos eleitores não se ter pronunciado, o resultado favorável ao “Sim” é sinal de uma acentuada mutação cultural no povo português, que temos de enfrentar com realismo, pois indicia o contexto em que a Igreja é chamada a exercer a sua missão. Manifestou-se uma cultura que não está impregnada de valores éticos fundamentais, que deveriam inspirar o sentido das leis, como é o do carácter inviolável da vida humana, aliás consagrado na nossa Constituição. Esta mutação cultural tem várias causas, nomeadamente: a mediatização globalizada das maneiras de pensar e das correntes de opinião; as lacunas na formação da inteligência, que o sistema educativo não prepara para se interrogar sobre o sentido da vida e as questões primordiais do ser humano; o individualismo no uso da liberdade e na busca da verdade, que influencia o conceito e o exercício da consciência pessoal; a relativização dos valores e princípios que afectam a vida das pessoas e da sociedade.Reconhecemos, também, que esta realidade social, em muitas das suas manifestações, tem posto a descoberto, em vários aspectos, alguma fragilidade do processo evangelizador, mormente em relação aos jovens. A nossa missão pastoral, por todos os meios ao nosso alcance, tem de visar este fenómeno da mutação cultural, pois só assim ajudaremos a que os grandes valores éticos continuem presentes na compreensão e no exercício da liberdade.
2. Congratulamo-nos com a vasta e qualificada mobilização, verificada nas últimas semanas, em volta da defesa do carácter inviolável da vida humana e da dignidade da maternidade. É um sinal positivo de esperança. É importante que permaneça activa, que encontre a estrutura organizativa necessária, para continuar a participar neste debate de civilização.O debate do referendo esteve centrado na justeza de um projecto de lei que, ao procurar despenalizar, acaba por legalizar o aborto. A partir de agora o nosso combate pela vida humana tem de visar, com mais intensidade e novos meios, os objectivos de sempre: ajudar as pessoas, esclarecer as consciências, criar condições para evitar o recurso ao aborto, legal ou clandestino. Esta luta deveria empenhar, progressivamente, toda a sociedade portuguesa: Estado, Igrejas, movimentos e grupos e restante sociedade civil. E os caminhos para se chegar a resultados positivos são, a nosso ver: a alteração de mentalidades, a formação da consciência, a ajuda concreta às mães em dificuldade.
3. A mudança de mentalidade interpela a nossa missão evangelizadora, de modo particular a evangelização dos jovens, das famílias e dos novos dinamismos sociais. Toda a missão da Igreja tem de ser, cada vez mais, pensada para um novo contexto da sociedade. São necessárias criatividade e ousadia, na fidelidade à missão da Igreja e às verdades evangélicas que a norteiam.Faz parte dessa missão evangelizadora o esclarecimento das consciências. A Igreja respeita a consciência, o mais digno santuário da liberdade. Não a ameaça, nem atemoriza, mas quer ajudar a esclarecê-la com a verdade, pois só assim poderá exprimir a sua dignidade.Esta verdade iluminadora das consciências provém de um sadio exercício da razão, no quadro da cultura; é-nos revelada por Deus, que vem ao encontro do ser humano; é património de uma comunidade, cuja tradição viva é fonte de verdade, enquadrando a dimensão individual da liberdade e da busca da verdade. Para os católicos, a verdade revelada, transmitida pela Igreja no quadro de uma tradição viva, é elemento fundamental no esclarecimento das consciências.Aos católicos que, no aceso deste debate, se afastaram da verdade revelada e da doutrina da Igreja, convidamo-los a examinarem, no silêncio e tranquilidade do seu íntimo, as exigências de fidelidade à Igreja a que pertencem e às verdades fundamentais da sua doutrina.Aos fiéis católicos lembramos, neste momento, que o facto de o aborto passar a ser legal, não o torna moralmente legítimo. Todo o aborto continua a ser um pecado grave, por não cumprimento do mandamento do Senhor, “não matarás”.Apelamos aos médicos e profissionais de saúde para não hesitarem em recorrer ao estatuto de “objectores de consciência” que a Lei lhes garante. Às mulheres grávidas que se sintam tentadas a recorrer ao aborto, aos pais dos seus filhos, pedimos que não se precipitem. A decisão de abortar é, na maior parte dos casos, tomada em grande solidão e sofrimento. Um filho que, no início, aparece como um problema, revela-se, tantas vezes, como a solução das suas vidas. Tantas mulheres que abortaram sentem, mais tarde, que se pudessem voltar atrás teriam evitado o acto errado. Abram-se com alguém, reflictam, em diálogo, na gravidade da sua decisão.
4. Mas há uma resposta urgente a dar ao drama do aborto: criar ou reforçar estruturas de apoio eficaz e amigo às mulheres a braços com uma maternidade não desejada e que consideram impossível levar até ao seu termo. Estudos recentes mostram que a maior parte das mulheres nessas circunstâncias, se fossem ajudadas não recorreriam ao aborto. É um dever de todos nós, de toda a sociedade, criar essas estruturas de apoio.Uma das novidades da campanha do referendo foi o facto de muitos defensores do “Sim” – a começar pelo Governo da Nação, que se quis comprometer numa questão que não é de natureza estritamente política – afirmarem ser contra o aborto, quererem acabar com o aborto clandestino e diminuir o número de abortos. Registamos esse objectivo, mas pensamos que o único caminho eficaz e verdadeiramente humano é avançarmos significativamente na formação da juventude e no apoio à maternidade e à família. Não poderemos esquecer que, no quadro social actual, a maternidade se tornou mais difícil. No actual contexto das nossas sociedades ocidentais só se chegará a uma política equilibrada de natalidade com um apoio eficaz à maternidade, com particular atenção à maternidade em circunstâncias difíceis e, por vezes, dramáticas.No que à Igreja diz respeito, continuaremos a incluir esta acção de acolhimento e ajuda às mães entre as nossas prioridades. Mas para que esta acção seja eficaz, precisa-se da convergência de todos, Estado e sociedade civil. Demo-nos as mãos para acabar com o aborto e tornar a lei, que agora se vai fazer, numa lei inútil.
5. A busca de uma solução, a médio e a longo prazo, tem de passar, também, por uma política de educação que forme para a liberdade, na responsabilidade, concretizada numa correcta educação da sexualidade. Esta constitui um dos dinamismos mais ricos e complexos do ser humano, onde se exprimem a dimensão relacional e a vocação para o amor e para a comunhão. Uma vivência desregrada da sexualidade é uma das principais causas das disfunções sociais e da infelicidade das pessoas. A sã educação da sexualidade há-de abrir para a gestão responsável da própria fecundidade, através de um planeamento familiar sadio, que respeite e integre as opções morais de cada um. Quando a geração de um filho não for fruto de irreflexão, mas de um acto responsável, estará resolvido, em grande parte, o problema do aborto.
6. A luta pela vida, pela dignificação de toda a vida humana, é uma das mais nobres tarefas civilizacionais. Não será o novo contexto legal que nos enfraquecerá no prosseguimento desta luta. A Igreja continuará fiel à sua missão de anúncio do Evangelho da vida em plenitude e de denúncia dos atentados contra a vida.
Fátima, 16 de Fevereiro de 2007

Papa oferece Oração a Maria aos jovens

Bento XVI deu uma oração dirigida à Virgem Maria aos jovens da Itália, para os ajudar na sua meditação e preparação para um encontro com eles de 1 a 2 de Setembro, em Loreto. O pontífice recitou a sua composição poética na quarta-feira, ao encontrar-se na Basílica de São Pedro, no Vaticano, com os bispos da Conferência Episcopal de Las Marcas, por ocasião de sua visita «ad limina apostolorum». Os prelados estavam acompanhados por peregrinos dessas dioceses da Itália, muitos deles jovens, que ao aplaudir, arrancaram dos lábios do Papa esta expressão: «Já vi que a Igreja está viva e é jovem!». A seguir, o bispo de Roma confirmou o encontro com rapazes e raparigas em Loreto, onde está o santuário nacional mariano da Itália, na costa do Mar Adriático. «Nos veremos em Las Marcas, em Loreto», despediu-se o Papa. Esta é a oração que ele compôs e que leu nessa ocasião:

Maria, Mãe do «sim», vós escutastes Jesus
e conheceis o timbre de sua voz e as batidas de seu coração.
Estrela da manhã, falai-nos d’Ele
e contai-nos como é vosso caminho para segui-lo pela senda da fé.
Maria, que em Nazaré vivestes com Jesus,
imprimi em nossa vida vossos sentimentos,
vossa docilidade, vosso silêncio que escuta
e fazei florescer a Palavra em opções de autêntica liberdade.
Maria, falai-nos de Jesus, para que o frescor de nossa fé
brilhe em nossos olhos e aqueça o coração de quem se encontra conosco,
como o fizestes ao visitar Isabel,
que na velhice se alegrou convosco pelo dom da vida.
Maria, Virgem do «Magnificat»,
ajudai-nos a levar a alegria ao mundo e, como em Caná,
conduzi todo jovem, comprometido no serviço aos irmãos,
a fazer só o que Jesus disser.
Maria, dirigi vosso olhar ao Ágora dos jovens,
para que seja terreno fecundo da Igreja italiana.
Rezai para que Jesus, morto e ressuscitado,
renasça em nós e nos transforme em uma noite cheia de luz, cheia d’Ele.
Maria, Virgem de Loreto, porta do céu,
ajudai-nos a elevar o olhar.
Queremos ver Jesus, falar com Ele
e anunciar seu amor a todos.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Catequeses Quaresmais do Cardeal Patriarca

À semelhança dos anos anteriores, o Cardeal Patriarca de Lisboa irá apresentar as suas Catequeses Quaresmais, às 18 horas de cada um dos Domingos da Quaresma, na Sé de Lisboa.
O tema geral deste ano é: AS RAZÕES DO NOSSO ACREDITAR.

­ 1º Domingo: A voz que clama no deserto
­ 2º Domingo: O homem peregrino da verdade
­ 3º Domingo: A razão humana é capaz de Deus
­ 4º Domingo: Apoio racional da fé. Os sinais de credibilidade
­ 5º Domingo: A fé transforma-se em cultura
­ Domingo de Ramos: Cristo é a plenitude de tudo o que é humano

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Mensagem do Cardeal-Patriarca para a Quaresma 2007

1. Na sua Mensagem para a Quaresma, o Santo Padre Bento XVI convida os cristãos a encontrarem-se com Jesus Cristo, contemplando o Seu rosto de crucificado: “hão-de olhar para Aquele que trespassaram” (Jo. 19,37). Convido os cristãos da Diocese de Lisboa a seguirem a palavra do Papa, porque somos uma Igreja em comunhão com o Sucessor de Pedro, e queremos sê-lo mais profundamente neste tempo santo da Quaresma, início da celebração pascal deste ano. Por isso limitar-me-ei a dar sugestões para uma resposta sincera e profunda às palavras do Santo Padre.
Acolher o amor de Deus
2. Olhar o rosto de Jesus crucificado é abrir-se ao insondável amor com que Deus nos ama. Porque a morte de Jesus, o Filho de Deus, é a mais radical expressão do amor de Deus por nós, contemplar o Crucificado é o caminho mais directo para nos abrirmos a esse amor infinito. Também aí, sobretudo aí, Cristo é o caminho para o Pai. Que Deus nos ama, é objecto da nossa fé. Começamos por acreditar nesse amor. Mas o amor de Deus por cada um de nós pode tornar-se experiência vivida e mesmo sentida. A generosidade absoluta desse amor comove-nos; a ânsia que Deus manifesta de nos amar e de receber o nosso amor, desperta dinamismos profundos, escondidos no nosso coração. Não é só Deus que se sente atraído por nós; no mais íntimo de nós mesmos sentimo-nos atraídos por Deus e essa é uma atracção de amor. A dimensão esponsal com que as imagens bíblicas nos apresentam o amor de Deus pelo seu Povo, revela-nos o mais profundo desejo de Deus: ser comunhão connosco. Para o conseguir, enviou o seu Filho, isto é, deu-no-l’O para nos amar com um amor humano, que é divino, e dar a maior prova de amor, deixar-se amar por nós. Ao preparar a Páscoa deste ano, não desviando o olhar do rosto de Cristo crucificado, identifiquemos todos os sinais da nossa atracção por Deus, demos-Lhe o nosso amor manifestado em gestos simples de vida, que vão da adoração ao amor fraterno, e demos, neste tempo, à Cruz do Senhor um lugar especial na nossa vida, com muita gratidão e de ternura. E nunca esqueçamos que amá-l’O é cumprir a sua vontade obedecendo aos seus mandamentos, pois há formas de viver que abafam em nós essa experiência do amor de Deus.
Quaresma, tempo eucarístico
3. O Santo Padre diz-nos na sua Mensagem: “A Eucaristia atrai-nos para o acto oblativo de Jesus, somos envolvidos na dinâmica da sua doação. Vivamos então a Quaresma como um «tempo eucarístico», no qual, acolhendo o amor de Jesus, aprendemos a difundi-lo à nossa volta com todos os gestos e palavras” O que é que nos sugere este convite de vivermos a Quaresma como tempo eucarístico?
* Tomar consciência, pelo modo como a preparamos e participamos nela, que a Eucaristia é o maior dom dado por Cristo à Sua Igreja: participar no acto de amor do Pai, que entrega o Seu Filho por nosso amor; participar no amor de Cristo ao Pai e a nós, “obedecendo até à morte e morte de Cruz”, abraçando a humanidade no amor infinito de Deus; participar na obediência de Jesus, procurando, em tudo, fazer a vontade de Deus Pai e participar no amor de Cristo pela humanidade, envolvendo, também nós, toda a humanidade com o nosso amor; entregar toda a nossa vida para a reencontrar em Deus.
* Procurar a Eucaristia, com uma fidelidade ainda mais delicada, sempre que possível, em todos os dias da semana.
* Cuidar, com particular zelo, da qualidade das celebrações, para que nelas se exprima a comunhão entre Cristo e a Sua Igreja, em comunhão e encontro de fé e amor.
* Preparar-se para elas, com especial cuidado e delicadeza, pela conversão e arrependimento dos nossos pecados, celebrando o sacramento da reconciliação.
* Partir delas, sentindo-se enviado em missão e testemunhando, pelas palavras e pela vida, a alegria de nos sentirmos amados por Deus.
A Eucaristia não é uma repetição. Em cada dia ela pode ser a surpresa do encontro com o Amor. É o momento em que Deus nos atrai e se nos revela, onde a Sua Palavra pode ter o impacto de uma manifestação de Deus. Só assim as celebrações eucarísticas, durante a Quaresma, nos prepararão para a Festa da Páscoa, onde nos cruzaremos com Jesus ressuscitado e descobriremos que contemplar o Seu rosto doloroso é o caminho para encontrar o Seu rosto glorioso.
A Quaresma, tempo de Caridade
4. A caridade, diz o Santo Padre, “é o amor oblativo de quem procura exclusivamente o bem do próximo”, que tem a sua fonte em Deus, que, ao dar-nos o Espírito Santo, inunda os nossos corações de capacidade e de desejo de amar os irmãos como Cristo os ama. O nosso Programa Diocesano de Pastoral está repassado de um desejo: fazer de toda a acção da Igreja uma expressão da caridade. A Quaresma é um tempo privilegiado para darmos concretização a este desejo. São as próprias palavras do Papa a indicar-nos o caminho: “Contemplar «Aquele que trespassaram» estimular-nos-á desta forma a abrir o nosso coração aos outros, reconhecendo as feridas provocadas à dignidade do ser humano; impulsionar-nos-á, sobretudo, a combater qualquer forma de desprezo pela vida e de exploração da pessoa e a aliviar os dramas da solidão e do abandono de tantas pessoas. A Quaresma seja para cada cristão uma experiência renovada do amor de Deus que nos foi dado em Cristo, amor que todos os dias devemos, por nossa vez, «dar novamente» ao próximo, sobretudo a quem mais sofre e é necessitado. Só assim poderemos participar plenamente da alegria da Páscoa”.
5. Na nossa Diocese é já uma tradição que uma das expressões da caridade seja a nossa “Renúncia Quaresmal”, partilhando mais generosamente o que temos em favor dos mais carenciados, pessoas e comunidades de todo o mundo. Como sabem, o contributo da vossa Renúncia destina-se ao “Fundo Diocesano de Ajuda Inter-Eclesial”, que procura responder aos pedidos de ajuda que nos vêm de todo o mundo. Como o Santo Padre nos disse na sua Encíclica “Deus é amor”, a caridade deve ser praticada pelas pessoas e pelas Igrejas. Este “Fundo” é um dos modos que permite à Igreja de Lisboa praticar a caridade, ajudando as Igrejas mais pobres em bens materiais a socorrer os seus pobres e a viabilizar instituições de ajuda aos nossos irmãos. Não os conhecemos, mas Deus conhece-os e ama-os e recompensar-nos-á pela nossa generosidade. Que a nossa caridade proporcione a esses irmãos o sentirem-se amados por Deus.
Os resultados até agora recebidos da “Renúncia Quaresmal” de 2006 são da ordem dos 262.007,24€. Em anexo, a lista dos pedidos que contemplámos em 2006, depois de os analisarmos cuidadosamente. Um outro conjunto de pedidos de ajuda está já em estudo. Construamos, desde já, a alegria da nossa Páscoa. Maria, que aos pés da Cruz, nos recebeu como seus filhos, estará connosco nesta nossa abertura ao amor de Deus.

Lisboa, 2 de Fevereiro de 2007, Festa da Apresentação do Senhor.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Mensagem de Bento XVI para a Quaresma 2007


«Hão-de olhar para Aquele que trespassaram» (Jo 19, 37)
Queridos irmãos e irmãs!
«Hão-de olhar para Aquele que trespassaram» (Jo 19, 37). Este é o tema bíblico que guia este ano a nossa reflexão quaresmal. A Quaresma é tempo propício para aprender a deter-se com Maria e João, o discípulo predilecto, ao lado d’Aquele que, na Cruz, cumpre pela humanidade inteira o sacrifício da sua vida (cf. Jo 19, 25). Portanto, dirijamos o nosso olhar com participação mais viva, neste tempo de penitência e de oração, para Cristo crucificado que, morrendo no Calvário, nos revelou plenamente o amor de Deus. Detive-me sobre o tema do amor na Encíclica Deus caritas est, pondo em realce as suas duas formas fundamentais: o agape e o eros.
O amor de Deus: agape e eros
A palavra agape, muitas vezes presente no Novo Testamento, indica o amor oblativo de quem procura exclusivamente o bem do próximo; a palavra eros denota, ao contrário, o amor de quem deseja possuir o que lhe falta e anseia pela união com o amado. O amor com o qual Deus nos circunda é sem dúvida agape. De facto, pode o homem dar a Deus algo de bom que Ele já não possua? Tudo o que a criatura humana é e possui é dom divino: é portanto a criatura que tem necessidade de Deus em tudo. Mas o amor de Deus é também eros. No Antigo Testamento o Criador do universo mostra para com o povo que escolheu uma predilecção que transcende qualquer motivação humana. O profeta Oseias expressa esta paixão divina com imagens audazes, como a do amor de um homem por uma mulher adúltera (cf. 3, 1-3); Ezequiel, por seu lado, falando do relacionamento de Deus com o povo de Israel, não receia utilizar uma linguagem fervorosa e apaixonada (cf. 16, 1-22). Estes textos bíblicos indicam que o eros faz parte do próprio coração de Deus: o Omnipotente aguarda o «sim» das suas criaturas como um jovem esposo o da sua esposa. Infelizmente desde as suas origens a humanidade, seduzida pelas mentiras do Maligno, fechou-se ao amor de Deus, na ilusão de uma impossível auto-suficiência (cf. Gn 3, 1-7). Fechando-se em si mesmo, Adão afastou-se daquela fonte de vida que é o próprio Deus, e tornou-se o primeiro daqueles «que, pelo temor da morte, estavam toda a vida sujeitos à escravidão» (Hb 2, 15). Deus, contudo, não se deu por vencido, aliás o «não» do homem foi como que o estímulo decisivo que o levou a manifestar o seu amor em toda a sua força redentora.
A Cruz revela a plenitude do amor de Deus
É no mistério da Cruz que se revela plenamente o poder incontível da misericórdia do Pai celeste. Para reconquistar o amor da sua criatura, Ele aceitou pagar um preço elevadíssimo: o sangue do seu Filho Unigénito. A morte, que para o primeiro Adão era sinal extremo de solidão e de incapacidade, transformou-se assim no acto supremo de amor e de liberdade do novo Adão. Pode-se então afirmar, com São Máximo, o Confessor, que Cristo «morreu, se assim se pode dizer, divinamente, porque morreu livremente» (Ambigua, 91, 1956). Na Cruz manifesta-se o eros de Deus por nós. Eros é de facto – como se expressa o Pseudo Dionísio – aquela «força que não permite que o amante permaneça em si mesmo, mas o estimula a unir-se ao amado» (De divinis nominibus, IV, 13: PG 3, 712). Qual «eros mais insensato» (N. Cabasilas, Vita in Cristo, 648) do que aquele que levou o Filho de Deus a unir-se a nós até ao ponto de sofrer como próprias as consequências dos nossos delitos?
«Aquele que trespassaram»
Queridos irmãos e irmãs, olhemos para Cristo trespassado na Cruz! É Ele a revelação mais perturbadora do amor de Deus, um amor em que eros e agape, longe de se contraporem, se iluminam reciprocamente. Na Cruz é o próprio Deus que mendiga o amor da sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de nós. O apóstolo Tomé reconheceu Jesus como «Senhor e Deus» quando colocou o dedo na ferida do seu lado. Não surpreende que, entre os santos, muitos tenham encontrado no Coração de Jesus a expressão mais comovedora deste mistério de amor. Poder-se-ia até dizer que a revelação do eros de Deus ao homem é, na realidade, a expressão suprema do seu agape. Na verdade, só o amor no qual se unem o dom gratuito de si e o desejo apaixonado de reciprocidade infunde um enlevo que torna leves os sacrifícios mais pesados. Jesus disse: «E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim» (Jo 12, 32). A resposta que o Senhor deseja ardentemente de nós é antes de tudo que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Mas aceitar o seu amor não é suficiente. É preciso corresponder a este amor e comprometer-se depois a transmiti-lo aos outros: Cristo «atrai-me para si» para se unir comigo, para que eu aprenda a amar os irmãos com o seu mesmo amor.
Sangue e água
«Hão-de olhar para Aquele que trespassaram». Olhemos com confiança para o lado trespassado de Jesus, do qual brotam «sangue e água» (Jo 19, 34)! Os Padres da Igreja consideraram estes elementos como símbolos dos sacramentos do Baptismo e da Eucaristia. Com a água do Baptismo, graças à acção do Espírito Santo, abre-se para nós a intimidade do amor trinitário. No caminho quaresmal, recordando o nosso Baptismo, somos exortados a sair de nós próprios e a abrir-nos, num abandono confiante, ao abraço misericordioso do Pai (cf. São João Crisóstomo, Catechesi, 3, 14 ss.). O sangue, símbolo do amor do Bom Pastor, flui em nós especialmente no mistério eucarístico: «A Eucaristia atrai-nos para o acto oblativo de Jesus... somos envolvidos na dinâmica da sua doação» (Enc. Deus caritas est, 13). Vivamos então a Quaresma como um tempo «eucarístico», no qual, acolhendo o amor de Jesus, aprendemos a difundi-lo à nossa volta com todos os gestos e palavras. Contemplar «Aquele que trespassaram» estimular-nos-á desta forma a abrir o coração aos outros reconhecendo as feridas provocadas à dignidade do ser humano; impulsionar-nos-á, sobretudo, a combater qualquer forma de desprezo da vida e de exploração da pessoa e a aliviar os dramas da solidão e do abandono de tantas pessoas. A Quaresma seja para cada cristão uma experiência renovada do amor de Deus que nos foi dado em Cristo, amor que todos os dias devemos, por nossa vez, «dar novamente» ao próximo, sobretudo a quem mais sofre e é necessitado. Só assim poderemos participar plenamente da alegria da Páscoa. Maria, a Mãe do Belo Amor, nos guie neste itinerário quaresmal, caminho de conversão autêntica ao amor de Cristo. Desejo a vós, queridos irmãos e irmãs, um caminho quaresmal proveitoso, enquanto com afecto envio a todos uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 21 de Novembro de 2006.
BENEDICTUS PP. XV
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quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Bento XVI: «Amar e desejar a vida»


Palavras que Bento XVI dirigiu neste Domingo, ao rezar a oração mariana do Ângelus junto a milhares de peregrinos congregados na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Queridos irmãos e irmãs:
Hoje se celebra na Itália a Jornada pela Vida, promovida pela Conferência Episcopal, sobre o tema «Amar e desejar a vida».
Saúdo cordialmente todos aqueles que se congregaram na Praça de São Pedro para testemunhar o seu compromisso a favor da vida, desde a concepção até seu ocaso natural. Uno-me aos bispos italianos para renovar o chamado lançado várias vezes, também pelos meus venerados predecessores, a todos os homens e mulheres de boa vontade, para que acolham o grande e misterioso dom da vida.
A vida, que é obra de Deus, não deve ser negada a ninguém, nem sequer ao menor e mais indefeso nascituro, e muito menos quando apresenta graves deficiências. Ao mesmo tempo, renovando o ensinamento dos pastores da Igreja na Itália, convido-vos a não cair no engano de pensar que se pode dispor da vida até «legitimar sua interrupção com a eutanásia, mascarando-a talvez com um véu de piedade humana». Na diocese de Roma, começa hoje a «Semana da vida e da família», ocasião importante para rezar e refletir sobre a família, que é «berço» da vida e de toda vocação. Sabemos que a família, fundada no matrimônio, constitui o ambiente natural para o nascimento e para a educação dos filhos e, portanto, garante o porvir de toda a humanidade. No entanto, sabemos também que ela atravessa uma profunda crise e que deve enfrentar numerosos desafios.Sendo assim, é necessário defendê-la, tutelá-la e valorizá-la em seu caráter único e exclusivo.
Se este compromisso corresponde em primeiro lugar aos esposos, também é um dever prioritário da Igreja e de toda instituição pública apoiar a família através de iniciativas pastorais e políticas que levem em consideração as necessidades reais dos cônjuges, dos idosos e das novas gerações. Um clima familiar sereno, iluminado pela fé e pelo santo temor de Deus, favorece, além disso, o surgimento e o florescimento de vocações ao serviço do Evangelho. Refiro-me, em particular, não somente àqueles que estão chamados a seguir Cristo no caminho do sacerdócio, mas também aos religiosos, às religiosas, às pessoas consagradas, a quem recordamos na sexta-feira passada na Jornada Mundial da Vida Consagrada.
Queridos irmãos e irmãs, rezemos para que, com um esforço constante a favor da vida e da família, nossas comunidades se convertam em lugares de comunhão e de esperança, nas quais se renova, apesar das muitas dificuldades, o grande «sim» do amor autêntico à realidade do ser humano e da família, segundo o projeto originário de Deus.
Peçamos ao Senhor, por intercessão de Maria Santíssima, que cresça o respeito pelo caráter sagrado da vida, para que haja cada vez uma maior consciência das autênticas exigências familiares, e para que aumente o número daqueles que contribuem para a realização da civilização do amor no mundo.

XV Jornada Mundial do Enfermo

DECRETO

Concedem-se indulgências especiais aos fiéis
Por ocasião da «XV Jornada Mundial do Enfermo»
Tendo o homem caído no pecado original, que o priva tanto dos dons sobrenaturais como dos preternaturais, Deus Criador e Redentor, com sua infinita misericórdia, uniu intimamente, com um misterioso laço, o que exige a justiça e o que alcança o perdão: por isso, os sofrimentos, que têm uma índole penal, convertem-se em ocasião propícia para expiar os pecados e para alcançar o crescimento nas virtudes, e deste modo, alcançar a salvação eterna.
Esta disposição da Divina Providência se cumpre a favor dos fiéis em virtude do mistério pascal de Cristo, que morrendo se converteu em dispensador de vida, e ressuscitando é causa da firmíssima esperança em nossa futura ressurreição. Portanto, a mesma condição pela qual o homem está submetido às enfermidades e aos sofrimentos que dela se derivam, se é aceita com atos de fé, esperança e caridade, enquanto objeto da santíssima vontade de Deus, é causa de maior santidade.
É necessário também dedicar atentíssima reflexão ao fato de que os remédios humanos têm um limite e que, portanto, chegará inevitavelmente um momento que levará o homem ao final de seu caminho sobre esta terra: aos enfermos que atravessam por esta condição é necessário dispensar os tratamentos mais atentos e a maior caridade, para que seu passo deste mundo ao Pai seja confortado pelos divinos consolos e, deste modo, como implora a oração da Igreja pelos moribundos, eles possam ver o rosto manso de Jesus, e ressoe com clareza sua voz que os chama à glória e felicidade eternas.
A Santa Mãe Igreja, consciente disso, deseja vivamente que a anual celebração da Jornada Mundial do Enfermo se converta em catequese eficaz sobre o ensinamento, aqui recordado, do tesouro da Revelação, sobre o valor e a função da dor. Portanto, com o objetivo de que os fiéis que participem desta celebração, que acontecerá na cidade de Seul, em 11 de fevereiro próximo, memória litúrgica da Bem Aventurada Virgem Maria de Lourdes, estejam animados cada vez mais por estes sentimentos, o Santo Padre quis enriquecê-la com o dom das Indulgências, como se indica a seguir.
Concede-se a indulgência plenária aos fiéis que, com as condições habituais (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração segundo as intenções do Santo Padre) e com o espírito desapegado de todo pecado, participem em 11 de fevereiro próximo com devoção, na cidade de Seul ou em qualquer outro lugar estabelecido pela autoridade eclesiástica, de alguma cerimônia sagrada celebrada para implorar de Deus as finalidades da XV Jornada Mundial do Enfermo.
Os fiéis que nos hospitais públicos ou em casas privadas assistam com caridade, como «bons samaritanos», os enfermos, em especial os incuráveis ou terminais e, com motivo de seu serviço não possam participar na cerimônia antes indicada, alcançarão o mesmo dom da indulgência plenária, se nesse dia prestarem generosamente ao menos durante alguma hora sua assistência caritativa aos enfermos como se o fizessem ao próprio Cristo Senhor (cf. Mateus 25, 40), tendo o espírito desapegado de todo pecado e o propósito de cumprir, enquanto lhes seja possível, as condições exigidas para alcançar a indulgência plenária.
Os fiéis que por enfermidade, por idade avançada ou por qualquer outra razão semelhante não possam participar da cerimônia indicada, alcançarão a indulgência plenária, sob a condição de que, tendo o espírito desapegado de qualquer pecado e propondo-se cumprir o quanto antes com as habituais condições, nesse dia, unidos ao Santo Padre, participem espiritualmente com o desejo na acima citada celebração e ofereçam a Deus, através da Virgem Maria, «saúde dos enfermos», seus sofrimentos físicos e espirituais.
Por último, concede-se a indulgência parcial a todos os fiéis, de 9 a 11 de fevereiro, cada vez que com coração contrito dirijam a Deus misericordioso orações devotas para implorar as acima ditas finalidades em ajuda dos enfermos, em particular dos incuráveis ou terminais.
Este decreto só tem vigor nesta ocasião. Não obstante qualquer disposição contrária.
Dado em Roma, na sede da Penitenciaria Apostólica, em 25 de janeiro de 2007, na conversão de São Paulo, apóstolo.
Cardeal James Francis STAFFORD
Penitenciário maior
Gianfranco GIROTTI, o.f.m. conv.
Bispo titular de Meta, regente

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Vigília de Oração pela Vida

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Referendo: Sim ou Não? V


V – A dignidade da consciência

1. Ao sermos consultados sobre uma questão tão delicada como é a legalização do aborto, a resposta é pessoal e livre, empenhativa da própria consciência. Quanto mais grave é a questão, maior é a responsabilidade da consciência. É como se dependesse de cada um de nós permitir ou proibir a legalização do aborto. São momentos em que a responsabilidade da liberdade é enorme, pois cada um torna-se corresponsável da decisão que vier a ser tomada.
Todos parecem estar de acordo que esta é uma questão de consciência, embora na maneira como o afirmam, nem sempre transpareça o sentido da sua dignidade. A consciência é o santuário mais íntimo da pessoa humana, expressão máxima da liberdade e da capacidade de dar sentido à própria existência, onde se afere o que é bem e o que é mal, onde se adopta o sentido radical da vida, onde se tomam as opções que a guiam e comprometem.
A consciência é o encontro das mais nobres faculdades humanas: a inteligência, a vontade, a liberdade. Por isso, ela tem de ser iluminada pela verdade, sustentada pela capacidade de decisão e exprimir-se livremente. O exercício da liberdade deveria ser sempre uma opção de consciência.
Não se pode violentar a consciência, pressionando-a, iludindo-a com falsas verdades, desviando-a do essencial da sua responsabilidade. Violentar a consciência é o mais grave atropelo da dignidade da pessoa humana.

2. Dada a sua dignidade e responsabilidade, a consciência precisa de ser iluminada pela verdade. Formar a própria consciência é sempre, mas sobretudo nas questões mais graves, procurar a luz da verdade. A consciência do cristão precisa de ser iluminada, não apenas pela luz natural, mas pela Palavra de Deus e pelo ensinamento da Igreja, coerente e unânime ao longo de uma longa tradição. Só a luz da verdade indica com clareza o caminho a seguir e a decisão a tomar.
Neste caso concreto é preciso escutar o essencial dessa mensagem: toda a vida é um dom de Deus, só Deus é Senhor da vida, nenhuma decisão humana contra a vida é legítima e honesta. Este respeito pela vida radicaliza-se no mandamento novo do amor: amai-vos uns aos outros. Só no amor fraterno a consciência atinge a plenitude da sua dignidade. Isso aliás está expresso no quinto mandamento da Lei de Deus: “Não matarás nem causarás dano, a ti mesmo, ou ao teu próximo”. Ninguém pode fazer mal ao seu semelhante.
Nem todos são capazes de acolher a luz da Palavra de Deus, que supõe a fé. Mas no caso do respeito pela vida, esta Palavra está impressa no coração de cada homem, é uma lei natural, que é parte constitutiva da dignidade do ser humano e que iluminará a consciência, se esta não for perturbada com mentiras ou meias verdades.

3. Situações como esta, em que uma comunidade inteira é convidada, ao mesmo tempo, a tomar uma decisão de consciência das mais empenhativas da liberdade humana, não são frequentes, penso mesmo que devem ser excepcionais, para não se tornarem ilegítimas. Pedir aos portugueses que, todos ao mesmo tempo, tomem uma decisão de tal gravidade, é muito mais que o vulgar exercício da democracia, em si mesma, como sistema político, orientada para a gestão da “coisa pública”. Não se pode perguntar, repetidamente, aos portugueses se aceitam a legalização do aborto, ao sabor dos ritmos políticos.

4. Neste tempo de esclarecimento, todos se devem confrontar com a verdade acerca da vida desde o seu início. Escutem, antes de mais, a voz íntima do seu coração, tantas vezes abafada pelos afectos e pelo barulho feito à volta desta questão. Escutem o testemunho da ciência, de médicos e psicólogos que nos têm vindo a proclamar a beleza da vida, desde o seu início, e dos traumas humanos provocados nas mulheres que abortam. Escutem o testemunho comovido de mulheres que abortaram e a alegria já manifestada por aquelas que venceram essa tentação e sentem hoje a alegria do filho que deixaram nascer. Escutemos, sobretudo, a Palavra de Deus e a voz da Igreja, que tem a doutrina que afirma, não por contradição, mas na fidelidade à verdade fundamental sobre a vida e sobre o homem. A defesa desta verdade, a Igreja fá-la por fidelidade, tantas vezes partilhando a dor de quem sofre este drama, e que ela toca ao vivo no mais discreto do seu ministério.
Nesta abertura à verdade que ilumina a nossa consciência, temos de nos defender de alguns obstáculos: da pressão sobre nós exercida por visões ideológico-partidárias e por movimentos de opinião. Mas temos, sobretudo, de nos defender de meias verdades e, sobretudo, das inverdades que podem surgir no calor da campanha em favor da opção que se deseja. Antes da responsabilidade do voto, cada um de nós tem, neste momento, a responsabilidade de procurar a verdade, pois só ela nos iluminará. E isso faz-se escutando os outros, esclarecendo dúvidas, debatendo perspectivas.

5. No dia 11 de Fevereiro próximo, na solidão de um voto, cada um de nós estará sozinho com a sua consciência, tornando-se corresponsável de uma decisão grave para a vida de pessoas e para a sociedade como um todo. O momento do voto não é comparável àquele em que uma mulher, também sozinha, tem de tomar a decisão de abortar ou não. Aí a decisão é envolta em drama, diz respeito a uma vida concreta, a que tem no seu seio, e aí joga a sua dignidade e o seu futuro. Mas a nossa decisão tem também a densidade de decidir do destino de muitos seres humanos e da grandeza e dignidade da sociedade que somos. Transformar a possibilidade do aborto num direito adquirido, tem consequências de civilização.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

O Grande Silêncio


O Grande Silêncio é um documentário sobre os Monges da Ordem da Cartuxa, filmado na Grande Chartreuse, nos Alpes franceses. Depois de 17 anos a tentar fazer este documentário, o realizador Philip Gröning finalmente conseguiu autorização para filmar dentro do mosteiro.
O resultado é uma meditação silenciosa sobre a vida monástica na sua forma mais pura, através das filmagens de 6 meses a acompanhar os rituais diários dos Monges da Cartuxa. Um privilégio que Philip demorou mais de uma década a conquistar. Sem música à excepção dos cânticos do mosteiro, sem entrevistas, nem comentários, ou artifícios. É um filme sobre a presença do absoluto e a vida de homens que dedicam a sua vida e existência inteiramente a Deus.
O Grande Silêncio foi considerado o Melhor Documentário no European Film Awards, recebeu o Prémio especial do júri no festival de Sundance e foi também o Melhor Documentário nos Bavarian Film Awards.