segunda-feira, março 26, 2007

Catequese 5º Domingo da Quaresma 2007

“A fé transforma-se em cultura”


1. O cristão, para tornar sólidas as razões do seu acreditar, tem de equacionar as relações da sua vida de crente com a cultura em que está inserido, o que traz à vida da fé uma inevitável densidade cultural. O ambiente cultural pode facilitar a vida da fé, quando há uma convergência global entre os valores expressos na cultura e a perspectiva cristã da existência. Mas pode também trazer dificuldades acrescidas, quando para ser fiel ao Evangelho o cristão tem de remar contra a corrente das perspectivas culturais envolventes. A Igreja, ao longo de dois mil anos de história, tem uma vasta experiência deste remar contra a corrente. A conversão a Jesus Cristo pode acontecer em todas as culturas. Os cristãos, para serem fiéis ao Evangelho, tiveram de reagir contra realidades culturalmente aceites como, por exemplo, o politeísmo, a escravatura, o desrespeito pela vida, a prostituição sagrada, a poligamia, etc. E ao fazê-lo, a prática cristã influiu nas culturas, chegando mesmo, em alguns contextos, à sua transformação radical, originando culturas de matriz cristã. O cristianismo, porque é uma experiência de vida e de liberdade, influi na cultura. João Paulo II afirmou “que uma fé que não se transforma em cultura, é uma fé não plenamente acolhida, não inteiramente pensada e não vivida numa fidelidade total”[1].

2. Mas o que é a cultura? O seu processo dinâmico está já anunciado na primeira narrativa da criação do homem, no Livro do Génesis: “Deus criou o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou. Deus abençoou-os e disse-lhes: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gen. 1,27-28). O homem é criado com a possibilidade e a responsabilidade de ser protagonista da sua história e do seu destino. A cultura é um quadro harmónico desta acção do homem, construindo a sua humanidade, encontrando-se, simultaneamente, com o sentido da sua existência. O Concílio Vaticano II definiu, assim, a cultura: “Em sentido lato, a palavra cultura designa tudo aquilo através do qual o homem aperfeiçoa e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; se esforça por submeter o Universo pelo conhecimento e pelo trabalho; humaniza a vida social, tanto familiar como o conjunto da vida civil, graças ao progresso dos costumes e das instituições; traduz, comunica e conserva, nas suas obras, ao longo dos tempos, as grandes experiências espirituais e as grandes aspirações do homem, para que possam estar ao serviço de um grande número e mesmo de todo o género humano”
[2].
A cultura está, assim, ligada à actividade humana, na busca do sentido da vida, na transformação do mundo, na construção da comunidade humana. O homem, na sua liberdade e no exercício da sua criatividade, está no centro da cultura. Há três dinamismos fundamentais através dos quais o homem constrói o quadro cultural em que vive: pensando, buscando pela sua inteligência, a compreensão de si mesmo e de todas as coisas; deixando-se atrair pela beleza, que procura imprimir naquilo que faz; agindo sobre o Universo, criando, com a sua acção, um ambiente humano. Em todo este processo o homem é atraído pela verdade, buscando a compreensão de si mesmo e do sentido da sua existência, que ele encontra também na beleza e no sentido da sua acção, construindo civilização. O pensamento filosófico, a criação artística e a determinação na acção transformadora, que se encontram em síntese superior na experiência religiosa, enquanto reconhecimento de Deus, levam o homem à sabedoria, um quadro de compreensão da vida humana, onde se encontram as respostas às questões fundamentais que sempre se puseram ao espírito humano. O Santo Padre João Paulo II define, assim, estas diversas sabedorias: “Basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá depois desta vida? Estas perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais perguntas depende efectivamente a orientação que se imprime à existência”
[3].
A cultura, como quadro inspirador do sentido da vida, sublinha a dimensão comunitária da existência humana e da busca da verdade. Só uma comunidade, ao longo da sua história, vai burilando uma sabedoria. Como afirma o Concílio Vaticano II, “assim, a partir de usos herdados, forma-se um património próprio a cada comunidade humana. De igual modo se constitui um ambiente determinado e histórico em que todos os homens se inserem, sejam quais forem a sua nação ou século e onde encontram os valores que lhes permitirão promover a civilização”
[4].

Fé cristã e cultura
3. A fé cristã é marcada pelo realismo da encarnação. Em Nosso Senhor Jesus Cristo toda a nossa relação com Deus se humanizou, penetrando no mais fundo da nossa realidade humana. A solidez humana da fé passa pelo seu enraizamento na cultura. O crente é chamado a assumir a sua fé como expressão cultural. Não pode haver ruptura entre a fé que se professa e a cultura que inspira os valores éticos da existência. E quando houver conflito entre os valores que a fé inspira e a cultura ambiente, na vida do cristão devem permanecer as perspectivas da fé no exercício e orientação da liberdade.
A fé transforma-se em cultura através daqueles dinamismos que já referi: o pensamento, a contemplação da beleza, a acção motivada pelos mandamentos do Senhor. O crente deve habituar-se a pensar a fé, ao mesmo tempo que pensa a sua existência. A cultura cristã é suporte importante da própria fé. Todos os conteúdos da fé podem ser objecto do nosso pensamento: a relação com Deus, o sentido da fraternidade construído sobre o amor dos irmãos, o ideal da verdade, da justiça e da paz, a fidelidade como exigência nobre da vida vivida em relação, a esperança na vida eterna. O mistério da Cruz de Cristo abre-nos para a compreensão do sofrimento e da sua dimensão redentora. A morte e a vida, a alegria e a dor, abraçam-se na busca do sentido da vida cuja fonte é a “sabedoria da Cruz”.
Deus e o Seu Filho Jesus Cristo atraem a nossa inteligência enquanto suprema verdade; mas cativam o nosso coração como suma beleza. Exprimir a fé como beleza foi, ao longo de dois mil anos, o mais sólido enraizamento cultural da fé. Épocas houve em que se procurou, de forma sistemática, a harmonia entre a inteligência e a beleza. O património cultural do cristianismo não é constituído apenas pelo pensamento cristão; é-o também pelo vasto património artístico em que os crentes exprimiram a fé através da beleza. A beleza deveria fazer sempre parte da cultura cristã. Uma racionalidade sem abertura à beleza é truncada e não exprime a totalidade do mistério do homem e da sua busca da plenitude. Tempos houve em que a catequese era feita através da arte; oxalá, na catequese actual, a beleza fosse, pelo menos, uma linguagem sempre presente. O cultivo da beleza caiu num naturalismo horizontal, perdendo a sua capacidade de ser raio de luz a penetrar no mistério. E a beleza sem transcendência é menos bela.
Finalmente, a fé torna-se cultura, pela acção dos cristãos, quando as suas atitudes são inspiradas nos preceitos evangélicos. Cumprir os mandamentos é a afirmação convincente da verdade que se acredita. O contrário soa a falso. Pela pena do Apóstolo João, esse é já o critério de autenticidade da Igreja primitiva: “É nisso que sabemos que O conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz, eu conheço-O e não guarda os seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está n’Ele” (1Jo. 2,3-4).
Actualmente a fragilidade da fé de muitos cristãos exprime-se no divórcio entre aquilo que dizem acreditar e a maneira como vivem. Confessam a fé em Cristo e vivem segundo o espírito do mundo. O que inspira os seus comportamentos é a cultura profana e não a Palavra de Deus. E, no entanto, só a coerência corajosa dos comportamentos influencia e marca presença na cultura vigente. “Não é aquele que diz Senhor, Senhor, que entra no Reino de Deus, mas aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática” (Mt. 7,21). A perspectiva de uma cultura cristã exprime-se na coerência das atitudes: no louvor de Deus, no amor dos irmãos e no respeito pela vida, na honradez e no amor à verdade, na justiça e na busca da paz. É por isso que os santos são clareiras de luz na construção de uma cultura cristã.

As mutações culturais
4. As culturas são realidades vivas, podem alterar-se, ao sabor dos comportamentos e das escolhas das pessoas e das comunidades, ao longo do tempo. Porque está mais ligada à vida das comunidades do que à dos indivíduos, as culturas não se alteram repentinamente, mas podem ser sujeitas a processos longos de transformação. E do mesmo modo que o cristianismo acabou por influir decisivamente em culturas assentes noutras sabedorias, originando culturas de matriz cristã, também estas se podem alterar em sentido contrário, pela agressividade dos elementos que nelas influem, e pela falta de coerência dos cristãos na vivência dos valores evangélicos. Esta é já, de certo modo, a situação da chamada cultura europeia, outrora tão marcada pela visão cristã do homem e da vida. A coerência cristã é, hoje, cada vez mais vivida num choque de perspectivas culturais. E num quadro desses, de pouco vale lamentarmo-nos com as manifestações casuais dessa alteração. Ou agimos sobre a cultura, afirmando pela vida a beleza e a grandeza da sabedoria cristã, ou será ineficaz a nossa luta.
Um filósofo contemporâneo escreveu recentemente: “A consciência moderna desviou-se, decididamente, da fé. A fé foi preservada, sem dúvida, em algumas camadas da população. Mas arrisca-se a viver, digamos, num vazio cultural, sem verdadeiro contacto com a consciência dominante do seu tempo, o que representa uma situação perigosa para a fé”
[5].
E a Conferência Episcopal Portuguesa na Nota Pastoral publicada após o Referendo sobre a despenalização do aborto escreveu: “O resultado favorável ao “sim” é sinal de uma acentuada mutação cultural no Povo Português, que temos de enfrentar com realismo, pois indica o contexto em que a Igreja é chamada a exercer a sua missão. (…) A nossa missão pastoral, por todos os meios ao nosso alcance, tem de visar este fenómeno da mutação cultural”.
E o caminho passa pela coerência e ousadia dos cristãos, para pensar a fé no contexto do pensamento contemporâneo e agir corajosamente de acordo com a Palavra do Senhor. Num lago de água salobra não basta querer salvar cada peixe, é preciso mudar a água e isso só acontece agindo culturalmente sobre a cultura. Cada cristão é, hoje, chamado a ser, pela clareza do pensamento e a generosidade da sua vida, agente de mutação cultural.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] Discurso aos Bispos da América Latina
[2] Gaudium et Spes, nº 53
[3] JOÃO PAULO II, Fides et Ratio, n.º 1
[4] Gaudium et Spes, nº 53
[5] B. POTTIER, S.J., « L’agnosticisme, choix évident pour l’homme contemporain », in Nouvelle Revue Théologique, 2007, t. 1, p. 7

terça-feira, março 20, 2007

Catequese 4º Domingo da Quaresma 2007

“Apoio racional da fé: os sinais de credibilidade"
1. A razão humana pode assumir o conhecimento específico da fé, garantindo-lhe o apoio racional e integrando-o, harmonicamente, no conjunto do conhecimento humano. Isso não se faz reduzindo o conhecimento próprio da fé, que inclui o abandono ao mistério, à lógica do conhecimento racional. É a razão humana que, para além da sua capacidade lógica de conhecimento, se abre e acolhe aquele conhecimento que só pode encontrar a sua fonte na revelação de Deus, e que, dirigida ao homem, é inteligível, e interpela as capacidades humanas de verdade. Já dissemos, num dos domingos anteriores, que a revelação é portadora da sua própria credibilidade, isto é, vem carregada daqueles elementos que permitem à inteligência humana acolhê-la, indo além das suas capacidades naturais, sem se violentar, na simplicidade de um horizonte de conhecimento e de verdade que se alarga. Nesse processo de abertura da razão à Palavra revelada e à fé, exercem um papel importante os “sinais”, a que habitualmente chamamos “sinais de credibilidade”. “É sobre eles que a nossa inteligência se apoia para reconhecer o que não poderia constatar directamente: eles conduzem-na para além dela mesma, num mundo impenetrável, que eles lhe tornam cognoscível”[1].
Para compreendermos a importância dos “sinais” no crescimento da fé e na racionalidade do conhecimento que ela gera, temos de ter em conta o diferente dinamismo do conhecimento racional e do conhecimento da fé. A razão busca o conhecimento, penetrando na realidade, dissecando-a com método lógico, procurando a sua compreensão clara, a que chamamos evidência. É no aperfeiçoamento dos métodos de análise racional da realidade que consiste o progresso e os avanços no conhecimento científico. Por este método, a razão humana não chega ao conhecimento de Deus, quando muito chega à inevitabilidade da sua existência.
Mas Deus não se apresenta ao homem apenas como uma realidade desconhecida a investigar. Ele irrompe na vida das pessoas como um Outro, a querer dialogar com o homem e a querer estabelecer, com ele, uma relação de aliança e de amor, como fez Cristo a Saulo, na Estrada de Damasco (Act. 9). E é quando Deus entra na nossa vida como uma pessoa e com uma proposta de relação, que se pode iniciar ou rejeitar a fé como caminho de vida e de verdade. Como o de Paulo, o testemunho dos convertidos, ao longo dos séculos, é claro e esclarecedor. Todos afirmam que, ou de repente, ou pouco a pouco, Deus se lhes manifestou e os interpelou para uma relação, num caminho novo a encetar
[2]. E é nesse caminho de convivência com Deus, que Ele se revela e nós aprendemos a conhecê-l’O. O conhecimento que brota da fé não é conclusão de uma investigação, mas fruto de uma convivência na intimidade. É um reconhecimento, descoberta da pessoa amada, que acontece espontaneamente em todas as verdadeiras relações de amor. É nesse sentido que Jesus anuncia que todos os que se deixarem atrair por Ele e O seguirem na fé, serão ensinados por Deus (cf. Jo. 6,44). O conhecimento da fé não busca, imediatamente, a evidência, mas a posse e a profundidade.
É no seio dessa relação com o Deus vivo, e para nós cristãos, através da relação com Cristo Vivo, que os “sinais” se tornam significativos e fazem a ponte entre o mistério e a razão humana. Fora desse contexto, os “sinais”, mesmo quando identificados, são interpretados como fenómenos naturais, sem significado especial, acabando por ser abandonados.
O apoio racional da fé brota, assim, do seu dinamismo enquanto abandono confiante ao Deus vivo. Não é por falta de firmeza que a fé busca a racionalidade; é, antes, porque a relação com Deus compromete todo o nosso ser e as suas capacidades. Assim o exprime, na Lei de Moisés, o primeiro mandamento do Decálogo: amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu ser e com todas as tuas forças e só a Ele adorarás (cf. Ex. 20).

Os “sinais” da acção de Deus
2. Se a Deus nunca ninguém O viu (cf. Jo. 1,18), continuando mistério insondável mesmo para os que acreditam n’Ele, a sua acção é sensível e verificável, tornando-se “sinal” do Seu mistério e do Seu amor. Esta é uma experiência que acompanha a história milenar do povo bíblico: Deus torna-se acessível, a Sua presença é verificável pela sua acção em favor do Seu Povo. A Sagrada Escritura chama-lhe “as maravilhas de Deus” – mirabilia Dei. Só os crentes as captam como expressão do amor de Deus, embora, por vezes, os autores sagrados ponham os “pagãos” a reconhecer nessas “maravilhas de Deus”, um sinal da grandeza do Deus de Israel. Na passagem do Mar Vermelho, o próprio Deus anuncia que através da sua acção manifestará a Sua grandeza aos egípcios: “Os egípcios saberão que Eu sou Yahwé, quando me cobrir de glória à custa do Faraó, dos seus carros e dos seus cavaleiros” (Ex. 14,18). E na mesma narração os egípcios reconhecem: “fujamos dos israelitas, porque Yahwé combate por eles contra os egípcios” (Ex. 18,25).
Mas são os crentes que captam o pleno sentido desta acção de Deus. A narração termina: “O Povo temeu Yahwé, acreditou em Yahwé e em Moisés Seu servo” (Ex. 14,31). A fé do Povo no Deus que o liberta torna-se, assim, mais compreensível. À firmeza da confiança, acrescenta-se o apoio da compreensão.
O Povo de Israel está firmemente convencido de que a Palavra de Deus, o seu Verbo eterno, revelada pelos Profetas, é sempre eficaz, realiza as intervenções de Deus em favor do Seu Povo. Há uma tal identificação entre a Palavra eterna e a sua eficácia na história e na vida do Povo crente, que o mesmo vocábulo – “dabar” – significa palavra e acontecimento. Para que a fé enraíze na experiência humana, é importante identificar, na vida do Povo e na vida de cada crente, os “sinais” dessa acção de Deus. Estes “sinais” não se impõem com a força lógica da evidência, respeitam a liberdade, própria da fé, mas oferecem a esta o ponto de apoio para uma compreensão da presença de Deus na nossa vida.
Estes “sinais” podem captar-se, não apenas nos acontecimentos da história de Israel, mas também na intimidade pessoal de cada crente, porque a interioridade de cada homem é o primeiro campo da acção amorosa de Deus. O desejo de Deus e a atracção pelo Seu mistério, a força na provação e na dor, o sentido redentor do sofrimento e a esperança de vitória sobre a morte, são experiências vividas pelos crentes e que tornam sensível e captável a insondável acção de Deus. É na redenção dos pecados e na transformação do coração, que a experiência vivida se torna “sinal” do amor misericordioso de Deus. No final do Livro de Job, dramática interrogação sobre o sentido do sofrimento, Job diz a Deus: “Agora sei que Tu és o Todo Poderoso e que podes realizar tudo o que imaginas… Não Te conhecia, senão por ouvir dizer, mas agora os meus olhos viram-Te; retiro tudo o que disse e arrependo-me no pó e na cinza” (Job. 42,2-6).

Cristo é o mais significativo “sinal” da acção de Deus
3. De todas as acções de Deus em favor do Seu Povo, a mais decisiva e radical foi a encarnação do Seu Filho, a Palavra eterna. Em Jesus Cristo, Deus feito homem, o insondável mistério de Deus fica ao alcance do conhecimento humano. É assim que São João termina o prólogo do seu Evangelho: “Nunca ninguém viu Deus; o Filho único, que está no seio do Pai, deu-O a conhecer” (Jo. 1,18). Cristo é o Verbo de Deus; ao fazer-Se homem, fica acessível ao homem e torna-Se no verdadeiro fundamento da racionalidade da fé. Fica claro que acreditar em Deus, acreditando em Jesus Cristo, situa a fé como acto de liberdade, acessível à razão humana. Em cada acto de fé, o cristão participa no Logos eterno de Deus, que se nos revela como o princípio da verdadeira sabedoria, da compreensão de todas as coisas, segundo a mente divina. Jesus Cristo não é uma divindade qualquer; é o único e verdadeiro Deus humanizado. Ele é o “sinal” levantado perante as nações, para que todos possam acreditar e adorar a Deus com todas as forças, o coração, a inteligência, a vontade. Cristo não substitui o Pai; Ele é o único caminho, verdadeiramente humano, para o homem acolher Deus, também com a sua inteligência. A solidez das razões do nosso acreditar identificam-se com a profundidade da nossa união a Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro fundamento da lógica da fé.
O vocábulo grego que significa sinal, “semeia”, muito usado pelo evangelista São João, foi traduzido em latim por “sacramentum” e, desde o início, a Teologia cristã chamou a Cristo o “sacramentum primordialis”, isto é, o sinal fundamental, pois n’Ele continua a manifestar-se a acção salvífica de Deus. A palavra “sacramento”, isto é, sinal, acabou por designar os sete sinais sacramentais, onde se realiza para o cristão, através da Igreja, a acção salvífica de Deus, por Jesus Cristo. São momentos de eficácia da Palavra, onde acontece o que ela anuncia, por força do Espírito Santo. Vivê-los com fé significa tocar, em cada momento, a acção de Deus. Mas eles são “sinais”, porque Cristo, Verbo eterno feito carne, o Filho do Pai, é o “sinal primordial”.
Os sete sinais sacramentais são o caso mais nítido do dinamismo dos sinais: só a fé os torna significativos; mas quando o são, eles tornam a acção de Deus acessível à nossa inteligência.

Os milagres de Jesus
4. Todos os quatro evangelistas dão testemunho da importância dos milagres no ministério profético de Jesus: curas, multiplicação dos pães, tempestades acalmadas, pescarias extraordinárias, transformação de água em vinho, ressurreição dos mortos. Com essas acções maravilhosas, Jesus abre o véu do mistério do seu poder divino e facilita a aceitação da sua Palavra. Tal como no Antigo Testamento, Palavra e acção de Deus fazem uma unidade e acontecem no interior da fé. Jesus faz os milagres “vendo a fé daquela gente” ou diz aos miraculados “a tua fé te salvou”.
Mas é São João que chama aos milagres de Jesus “sinais”, acções maravilhosas do Senhor que ajudarão os discípulos a aceitar e compreender a sua divindade e a sua ressurreição dos mortos. Termina, assim, o seu Evangelho: “Jesus realizou, na presença dos discípulos, muitos outros “sinais”, que não são relatados neste livro. Estes foram-no para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome” (Jo. 20,30-31).
São João estabelece, assim, explicitamente, a relação entre os “sinais”, isto é, os milagres de Jesus, e a firmeza da fé dos discípulos. E diz-nos que escolheu alguns entre os muitos milagres realizados por Jesus. Escolheu sete, valorizando a simbologia deste número bíblico, e todos eles estão orientados para ajudar os discípulos a acreditar na ressurreição, a glória de Deus totalmente revelada no homem Jesus.
Recordemos, rapidamente, a série de “sinais”, seleccionados por São João. O primeiro é o das Bodas de Caná (Jo. 2,1ss), onde Jesus transforma a água em vinho e Maria aparece, pela primeira vez na vida pública de Jesus, em primeiro plano. São João conclui: “este foi o primeiro dos “sinais” de Jesus. Realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram n’Ele” (Jo. 2,11).
Seguem-se duas curas, a primeira a do filho de um funcionário real (cf. Jo. 4,43ss). São João relaciona este milagre com o das Bodas de Caná: “Ele voltou, então, a Caná da Galileia, onde tinha mudado a água em vinho” (v. 46) e estabeleceu a relação entre os milagres e a fé: “Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais” (v. 48) e conclui: “acreditou ele e todos os seus” (v. 53). O terceiro “sinal” é a cura de um doente na piscina de Bézatha (5,1ss). Jesus afirma aí a prioridade do seu poder salvífico em comparação com aquela piscina considerada miraculosa e aí redefine o sentido do sábado à luz da sua ressurreição.
O quarto é a multiplicação dos pães (6,1ss) anúncio da Eucaristia, essencial para que os discípulos percebam o que é a ressurreição de Cristo, continuada nas suas vidas. A cura de um cego de nascença (9,1ss) abre para a compreensão da verdadeira luz que brota da Páscoa, e a ressurreição de Lázaro (11,1ss) prepara o leitor para o principal e decisivo “sinal”, a ressurreição de Cristo (20,1ss). Ao chegar a este sétimo milagre, o leitor pode exclamar como o encarregado de mesa das Bodas de Caná: Tu guardaste o melhor vinho para o fim (cf. Jo. 2,10).

Os “sinais” na vida da Igreja
5. Esta pedagogia dos “sinais”, manifestação da acção de Deus, que ajudam a acreditar, continua na Igreja. Deus continua a agir na Igreja e em cada crente, através do Espírito Santo que foi derramado nos nossos corações. A fé é, também, atenção a essa acção de Deus, em nós e nos outros, que nos leva a reconhecer, em cada momento e em cada tempo, as “mirabilia Dei”. O discernimento desses “sinais” é importante para fortalecer a nossa fé.
No tempo da Igreja também há “milagres”, quase sempre pontos de partida para grandes conversões e encontro com Cristo Vivo. Mas é, sobretudo, o que o Espírito realiza no coração dos cristãos, em ordem à fidelidade e à santidade: conversões inesperadas, a fidelidade até ao martírio, a ousadia missionária, o dom da contemplação e da união mística com Deus, o dom radical ao serviço dos irmãos. Os Santos são, em todos os tempos, um “sinal” que confirma a nossa fé e pode abrir a Deus os corações daqueles que o procuram. O próprio cristão é, no meio do mundo, um “sinal” da caridade de Deus que nos salvou, em Jesus Cristo.

O sinal do discípulo
6. Os cristãos são, por vontade do Senhor, um importante “sinal” para o mundo. Jesus disse: “É no amor que tereis uns pelos outros, que todos reconhecerão que sois meus discípulos” (Jo. 13,35). Na coerência evangélica do nosso amor aos irmãos, ajudaremos os outros a solidificar a sua fé. Vede como eles se amam, exclamavam os pagãos acerca dos primeiros cristãos. A “fantasia da caridade”, que procuramos viver nesta Quaresma, é “sinal” particularmente significativo, neste mundo que parece tão afastado de Deus.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] A. BRIEN, Le Cheminement de la foi, Seuil, Paris, pp., 112-113
[2] Ibidem, p. 112

terça-feira, março 13, 2007

Catequese 3º Domingo da Quaresma 2007

“Cultivar a razão crente”
1. O cristão, peregrino da verdade, deve aprofundar, continuamente, as razões do seu acreditar e isso exige que, na formação da sua fé, valorize o papel da razão. Esta pode sustentar mesmo a dimensão sobrenatural da fé como acolhimento da revelação de Deus.
Já vimos que a razão e a fé são as duas asas que permitem ao homem voar ao encontro da verdade. São ambas dom de Deus, que nos criou e nos salvou. A razão é dinamismo de verdade impresso por Deus no homem, quando o criou à Sua imagem; a fé é o dom que permite ao homem histórico, enfraquecido pelo pecado, aderir à verdade que Deus lhe revela, para o salvar. São dois dons de Deus que se completam, tornando o homem capaz de aderir à verdade. A razão natural, por si só, não seria capaz de chegar à verdade revelada. Mas pode acolhê-la e assumi-la como verdade humana, e integrá-la no seu habitual exercício de busca da verdade. Não a recusa, antes se surpreende e alegra, encontrando no mistério o objecto da sua busca. Transforma-se, então, na razão crente, que garante à fé, enquanto abertura ao mistério, a solidez da racionalidade.
É muito grave o divórcio entre a razão e a fé na nossa caminhada para a verdade. A razão auto-limita-se, excluindo como seu objecto próprio o pensar a verdade que nos foi revelada e aceitando apenas a verdade que pode alcançar com o seu dinamismo natural; e a verdade da fé, não percebendo que precisa da razão para se humanizar e para ser acolhida e aprofundada, pode cair em expressões “pietistas”, prontamente rejeitadas pela racionalidade da cultura. Se a Filosofia procurou levar o dinamismo natural da razão, na busca da verdade, tão longe quanto possível, compete à Teologia elaborar a síntese entre a razão e a fé na compreensão da verdade, no esclarecer da “razão crente”. A fé não é racional no sentido de encontrar a sua origem nas capacidades da razão. Mas torna-se racional porque, para se acreditar, temos de acolher com a inteligência e o coração a verdade que Deus nos revela. Ao acolher a verdade revelada, a razão humana alarga o seu horizonte na busca da verdade e aperfeiçoa a própria racionalidade humana.
A razão natural é capaz de Deus
2. A inteligência racional é um dinamismo de busca da verdade, concretizada na procura da compreensão do Universo e do sentido do homem e da vida. Ao longo de milénios fê-lo acuradamente, chegando à formulação das questões primordiais: “Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá depois desta vida?” (…) São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem”[1].
Na busca de respostas a estas questões fundamentais, a razão humana chegou à existência e a uma certa compreensão de Deus, verdade primeira e segredo da resposta para todas aquelas interrogações. A contemplação da beleza e da harmonia da criação, e o aprofundar do próprio mistério do homem, foram os pontos de partida dessa busca da verdade. Esta abertura ao ser absoluto, a partir da razão natural, preparou a inteligência humana para acolher a revelação de Deus como surpresa gratificante, porque Deus vem ao encontro da busca humana da verdade.
Esta possibilidade de a razão humana chegar a Deus, porque Este se manifesta na criação, levou alguns a afirmarem que ela é a única fonte de conhecimento. Foi o caso da crítica racionalista, na segunda metade do séc. XIX e inícios do séc. XX, que “insistia na negação de qualquer conhecimento que não fosse fruto das capacidades naturais da razão”[2]. Esta posição que pretendia engrandecer a razão e excluía a fé como fonte de conhecimento, acabaria por diminuir a própria razão, pois não lhe reconhecia a capacidade de acolher e fazer suas as verdades da fé. A razão e a fé são duas fontes de conhecimento, que não se confundem, nem anulam mutuamente, antes se podem encontrar na inteligibilidade da fé. O Papa João Paulo II afirmou a este respeito: “Existem duas ordens de conhecimento, diversas não apenas pelo seu princípio, mas também pelo objecto. Pelo seu princípio, porque, se num conhecemos pela razão natural, no outro fazemo-lo por meio da fé divina; pelo objecto, porque além das verdades que a razão natural pode compreender, é-nos proposto ver os mistérios escondidos em Deus, que só podem ser conhecidos se nos forem revelados do Alto. A fé, que se fundamenta no testemunho de Deus e conta com a ajuda sobrenatural da graça, pertence efectivamente a uma ordem de conhecimento diversa da do conhecimento filosófico”[3].
A razão perante o mistério
3. O conhecimento de Deus faz parte dos anseios da razão humana na sua busca da verdade. Só que está limitado na sua capacidade de penetrar no mais íntimo do mistério de Deus. Ao revelar-se, Deus vem ao encontro da razão humana, enquanto dinamismo de conhecimento, proporcionando-lhe um novo horizonte da verdade de que as vicissitudes históricas a tinham tornado incapaz. Por isso a reacção espontânea da razão perante a revelação deveria ser de surpresa agradecida. A fé é a adesão do homem à verdade revelada. Como diz o Concílio Vaticano II, “a Deus que revela, é devida a obediência da fé”[4]. Porque a razão humana pode acolher a verdade revelada, a fé enquanto adesão a essa Palavra, é, no seu dinamismo fundamental, um acto da razão onde esta encontra o seu verdadeiro horizonte como capacidade de verdade.
É que a própria Revelação é rica em inteligibilidade. A Palavra de Deus traz consigo a credibilidade dos conteúdos que revela. Porque é uma adesão do homem todo à verdade, a fé é um acto de razão; porque só é possível com a luz e a força de atracção que brotam da Palavra, a fé é um dom gratuito de Deus. Ouçamos a belíssima síntese do Papa João Paulo II: “Pela fé, o homem presta assentimento a esse testemunho divino. Isto significa que reconhece plena e integralmente a verdade de tudo o que foi revelado, porque é o próprio Deus que o garante. Esta verdade, oferecida ao homem sem que ele a possa exigir, insere-se no horizonte da comunicação interpessoal e impele a razão a abrir-se a esta e a acolher o seu sentido profundo. É por isso que o acto pelo qual nos entregamos a Deus, sempre foi considerado pela Igreja como um momento de opção fundamental, que envolve a pessoa inteira. Inteligência e vontade põem em acção o melhor da sua natureza espiritual, para consentir que o sujeito realize um acto no pleno exercício da sua liberdade pessoal”
[5].

4. Para que a fé seja um acto de razão, exige-se a purificação da própria razão, que se realiza no processo de humildade que deve marcar toda a actividade racional na busca da verdade. Uma razão orgulhosa e auto-suficiente nunca será capaz de assumir a fé como expressão da sua busca da verdade. O Papa Bento XVI, que voltou a situar este tema no centro do seu Magistério, afirma na sua primeira Encíclica: “A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo – um encontro que nos abre novos horizontes muito para além do espaço próprio da razão. Simultaneamente, porém, ela serve de força purificadora para a própria razão. Partindo da perspectiva de Deus, liberta-a das suas cegueiras e, consequentemente, ajuda-a a ser mais ela mesma. A fé possibilita à razão a melhor realização da sua missão e a visão mais clara do que lhe é próprio”
[6].
Não considerar a fé como uma adesão da razão humana à verdade, é relegá-la para o campo do extra-racional, que se identifica, com pouca exactidão, com o mistério. A fé reduz-se, então, à religiosidade emotiva, e deixa de se situar na caminhada do homem como peregrino da verdade.
Se a razão humana acolher a fé como uma expressão da sua busca da verdade, ela assume o mistério como objectivo da sua busca, aceita-o como realidade que a atrai, tendo, perante ele, a humildade que deve presidir a toda a sua procura da verdade. Diz João Paulo II: “No acreditar é que a pessoa realiza o acto mais significativo da sua existência; de facto, nele a liberdade alcança a certeza da verdade e decide viver nela”
[7].
A verdade da revelação não se impõe à razão através da lógica de conclusões inevitáveis. É um desafio à liberdade, sublinhando a relação que há entre liberdade e busca da verdade. Mas a revelação do mistério apresenta-se à razão com fortes sinais de credibilidade, a começar pela sua interioridade ao homem e a sua sintonia com a natural ânsia da verdade. Leiamos, mais uma vez, a Fides et Ratio: “Em auxílio da razão, que procura a compreensão do mistério, vêm também os sinais presentes na Revelação. Estes servem para conduzir mais longe na busca da verdade e permitir que a mente possa autonomamente investigar inclusive dentro do mistério. De qualquer modo, se, por um lado, esses sinais dão mais força à razão, porque lhe permitem pesquisar dentro do mistério com os seus próprios meios, de que ela justamente se sente ciosa, por outro lado, impelem-na a transcender a sua realidade de sinais, para apreender o significado ulterior de que eles são portadores. Portanto, já há neles uma verdade escondida, para a qual encaminham a mente e da qual esta não pode prescindir sem destruir o próprio sinal que lhe foi proposto”
[8].

5. Na formação cristã, para solidificar nos crentes as razões da sua fé, tem de se aprofundar esta relação da razão com a fé. Esse é o papel da Teologia e da Filosofia, que podem ser exercidas em diversos graus de profundidade. Num tempo em que, na educação, se transmitem cada vez mais conhecimentos científicos, a formação cristã não pode descurar a sua base de racionalidade. É preciso estar atento, aprendendo a reconhecê-los, aos sinais de credibilidade, que fazem a ponte entre a revelação e a razão, facilitando a esta o interessar-se pelo mistério. Mas disso falaremos no próximo Domingo.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] JOÃO PAULO II, Fides et Ratio (F.R.), nº 1
[2] Ibidem, nº 2
[3] Ibidem, nº 9
[4] Dei Verbum, nº 5
[5] JOÂO PAULO II, F.R., nº 13
[6] BENTO XVI, Deus Caritas est, nº 26
[7] JOÃO PAULO II, F.R., nº 13
[8] Ibidem

terça-feira, março 06, 2007

Catequese 2º Domingo da Quaresma 2007


“O homem, peregrino da verdade”
1. Para aprofundar e solidificar as razões da fé, o homem tem de ser um peregrino incansável da verdade, procurá-la todos os dias da sua vida, até àquele dia em que a luz de Deus será a sua verdade definitiva. Buscar a verdade é procurar a vida. Ser peregrino da verdade significa não parar em nenhuma etapa, como se ela fosse definitiva. Caminhar na vida é ir sempre mais longe na busca do seu sentido, deixar-se conduzir pela luz que, irradiação do esplendor da verdade, vai iluminando as nossas trevas, abrindo-nos à luz incriada, porque criadora, que continua a pronunciar sobre a vida dos homens a Palavra original: “Faça-se a luz” (Gen. 1,3). João Paulo II escreveu: “o esplendor da verdade brilha em todas as obras do criador, particularmente no homem criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen. 1,26). A verdade ilumina a inteligência e modela a liberdade do homem, que, deste modo, é levado a conhecer e a amar o Senhor. Por isso, rezamos com o salmista: «fazei brilhar, sobre nós, Senhor, a luz da Vossa face» (Sl. 4,7)”[1].
Procurar a verdade é buscar a luz sobre a realidade do homem, para encontrar segurança e firmeza na vida. Na existência humana, a segurança é importante para a tranquilidade e a harmonia. É por isso que a formação cristã é exigência contínua, porque a fé adensa e radicaliza a urgência de caminhar para a verdade.
O que é a verdade
2. Ela é, fundamentalmente, o sentido profundo da realidade do homem e de todos os seres com quem ele convive, Deus e a criação. Na tradição helenista, verdadeiro é o que não está escondido, que se torna claro. O homem busca essa compreensão da realidade, quer a partir de si mesmo, com as suas capacidades de penetrar na realidade, quer a partir das realidades concretas que se deixam desvendar, se desvelam e se revelam.
Já na tradição bíblica, cujo ponto de partida é a revelação de Deus e o abandono confiante à sua Palavra, a verdade está relacionada com a fé. A raiz das palavras acreditar e verdade é a mesma, e significa encontrar a firmeza e a segurança de que o homem precisa para ser feliz. Desvendar o sentido profundo da realidade e encontrar na fé, abandono confiante a alguém, a segurança que procuramos, ajudam-nos a situar os dinamismos de busca da verdade. A inteligência, enquanto capacidade de escuta e de procura, o coração que nos permite confiar, e a fidelidade vista como coerência da fé e adesão à verdade tocada e encontrada, são dinamismos que se cruzam e completam nesta busca do sentido da vida por parte do homem. Nessa busca, o homem procura respostas para as questões primordiais: origem e destino, a vida e a morte, a liberdade e a felicidade. Deixar de procurar essas respostas é desistir da vida.
O dinamismo da busca da verdade foi impresso no coração do homem por Deus que o criou. O desejo de encontrar a verdade é elemento constitutivo da realidade humana, que nem o pecado destruiu, apenas obnubilou, e que Jesus Cristo veio confirmar e esclarecer. Ouçamos, mais uma vez, o Santo Padre João Paulo II: “nenhuma sombra de erro e de pecado pode eliminar totalmente do homem a luz de Deus criador. Nas profundezas do seu coração, permanece sempre a nostalgia da verdade absoluta e a sede de chegar à plenitude do seu conhecimento. Prova-o, de modo eloquente, a incansável pesquisa do homem em todas as áreas e sectores. Demonstra-o ainda mais a sua busca do sentido da vida. O progresso da ciência e da técnica, esplêndido testemunho da capacidade da inteligência e da tenacidade dos homens, não dispensa a humanidade de encarar as questões religiosas últimas, mas antes, estimula-a a enfrentar as lutas mais dolorosas e decisivas, que são as do coração e da consciência moral”
[2].
Para nós cristãos, Jesus Cristo é elemento decisivo nesta percepção do que é a verdade que procuramos. Como afirmou o Concílio Vaticano II, só n’Ele se esclarece definitivamente o mistério do homem
[3]. São João apresenta-O, no prólogo do seu Evangelho, como “a luz verdadeira que a todo o homem ilumina” (Jo. 1,9) e o próprio Senhor se apresentou a Si Mesmo como sendo a verdade e o caminho para a verdade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14,6). Jesus situa a verdade no caminho para a vida e apresenta-Se assim, porque nos revela a luz de Deus, a Palavra do Pai.
Para os que acreditam em Cristo, Ele tornou-se no ponto de partida necessário para todo o aprofundamento da fé e do enraizamento desta na racionalidade humana. Ele entra na nossa vida como Verbo eterno, Palavra de Deus humanizada. A luz de Deus, que brilha no Seu rosto, ilumina o mistério do homem. “Por isso, a resposta decisiva a cada interrogação do homem, e particularmente às suas questões religiosas e morais, é dada por Jesus Cristo, mais, é o próprio Jesus Cristo”
[4].
Se Ele é a resposta, porque é o caminho, a todas as interrogações da inteligência e do coração do homem, é o fundamento da racionalidade da fé, porque entra na nossa busca da verdade como “Logos”, inteligência divina, a potenciar a inteligência humana por Ele criada. Ele só pode ser o fundamento das razões do nosso acreditar, porque não anula, antes potencia, todos os dinamismos humanos de busca da verdade. Isto oferece à própria Igreja a pedagogia e o caminho a percorrer para ajudar os cristãos a fundamentarem a sua fé. Ela está atenta à realidade humana, não se assusta com os problemas e interrogações, partilha as angústias e as alegrias, ousa discernir no âmago dessa realidade sinais, para tudo iluminar com a luz de Cristo. “A Igreja, Povo de Deus no meio das nações, ao mesmo tempo que permanece atenta aos novos desafios da história e aos esforços que os homens realizam na procura do sentido da vida, oferece a todos a resposta que provém da verdade de Jesus Cristo e do Seu Evangelho”
[5].

Os meios de que o homem dispõe para procurar a verdade
3. A possibilidade de buscar e caminhar para a verdade, isto é, para a compreensão do seu próprio mistério, é inata no coração do homem. O homem foi criado com a inquietação da busca da verdade e, como dirá maravilhosamente Santo Agostinho, Jesus Cristo faz-nos perceber que só em Deus essa inquietação se saciará. Como escreve João Paulo II, “são questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem. Da resposta a tais perguntas depende a orientação que se imprime à existência”
[6].
O primeiro e mais nobre dinamismo humano para a busca da verdade, é a inteligência racional, que o distingue de todos os outros seres criados e o torna semelhante a Deus. Consciência de si mesmo, torna o homem capaz de se questionar sobre si mesmo e sobre toda a realidade que o rodeia, e de procurar a resposta para as questões que se põem.
Ao longo de milénios, através da filosofia, da arte, da cultura, o homem procurou respostas para as questões fundamentais, em busca da compreensão de si mesmo, gerando diversas sabedorias que mostram “que o desejo da verdade pertence à própria natureza do homem”
[7].
A inteligência racional é um dinamismo que pode conduzir o homem até à dimensão transcendente da verdade e ao próprio Deus. Provam-no todas as grandes sabedorias culturais que, na busca da verdade, desabrocharam sempre na dimensão religiosa da vida. O fenómeno religioso é tão antigo como a humanidade, que na sua busca de sentido chegou ao conhecimento natural de Deus. Com o surgir das religiões reveladas que se fundamentam numa revelação de Deus, acerca de Si mesmo e do próprio homem, surge a necessidade de situar a capacidade da razão humana de chegar à verdade perante a verdade revelada. Noutro domingo falaremos explicitamente deste problema, mas desde já tenhamos perante nós as diversas linhas de solução. Há os que excluem qualquer verdade revelada, só admitindo a verdade a que a razão humana pode chegar, admitindo um Deus da razão e uma religião racional. Outros foram mais longe e negaram qualquer dimensão transcendente da verdade, situando esta no restrito horizonte da razão humana, que se afirma ateizante por natureza. Para estes, a razão humana afirma a autonomia do homem na busca da verdade sobre si mesmo, e só pode levar à prova da não existência de Deus. Outros situaram a verdade revelada num âmbito não racional, privando a fé da solidez da razão, que levou a todos os pietismos emocionais e à separação da existência moral da racionalidade humana.
Isto significa que na sua auto-compreensão, como dinamismo de verdade, a razão humana limitou a sua capacidade e o seu horizonte, quase sempre devido a posições apriorísticas prévias ao próprio exercício da razão. No nosso tempo, com a crise da Filosofia, e o triunfo das ciências exactas, esta situação agravou-se, caindo-se no horizonte limitado da razão pragmática, incapaz dos grandes voos na busca da verdade e da compreensão da realidade. Para nós cristãos é impossível encontrar fundamentos sólidos para a nossa fé, sem a inteligência racional. É certo que a verdade revelada a surpreende, dando-lhe acesso a uma profundidade da verdade a que ela não era capaz de chegar; mas não a violenta, pois esse novo estádio da verdade só será verdadeiramente humano se for acolhido pela razão e esta puder identificar aí o objecto da sua busca. É que Cristo, revelação definitiva da verdade, manifesta-se como “Logos”, inteligência perfeita, que revela, ao mesmo tempo, as reais potencialidades da razão humana. Esta, se não pode, com a sua capacidade, chegar aos conteúdos da fé, alegra-se com a surpresa da revelação.

4. Um outro dinamismo humano na busca da verdade é a atracção pela beleza e a capacidade de contemplar o que é belo. Na cultura grega os poetas eram chamados teólogos, porque através da beleza tinham acesso e exprimiam a inteligibilidade do divino. Deus é belo, pois imprimiu a marca da beleza em toda a criação e a contemplação da beleza foi sempre um caminho para chegar à compreensão do homem, tão importante como a penetração nos segredos da realidade, através da luz da inteligência. E não são dois caminhos separados, mas convergentes, pois só a inteligência é capaz de transformar em verdade assumida a beleza contemplada.
Todo o homem é atraído pela beleza e esta é tão universal como a verdade, não sendo reservada ao privilégio de alguns. O primeiro rosto da criação é a beleza, que é harmonia, perfeição, reflectindo a beleza do seu criador. Não é por acaso que quando a cultura ambiente diminui nas pessoas o anseio da verdade, as torna também mais insensíveis à beleza. A contemplação da beleza não gera, apenas, uma experiência estética, conduz o homem à consciência das verdades fundamentais sobre o sentido da vida. Ouçamos o Santo Padre João Paulo II: “Os conhecimentos fundamentais nascem da maravilha que nele suscita a contemplação da criação: o ser humano enche-se de encanto ao descobrir-se incluído no mundo e relacionado com outros seres semelhantes, com quem partilha o destino. Parte daqui o caminho que o levará, depois, à descoberta de horizontes de conhecimentos sempre novos. Sem tal assombro, o homem tornar-se-ia repetitivo e, pouco a pouco, incapaz de uma existência verdadeiramente pessoal”
[8].

5. E, finalmente, entre os dinamismos de que o homem dispõe para procurar a verdade, refiro a experiência do amor. O amor verdadeiro é sempre participação na vida de Deus, sendo, por isso, fonte de conhecimento e de verdade. Todo o amor é fonte de conhecimento da pessoa amada e de auto-conhecimento na experiência do dom e do encontro. Isto confirma-se, pela negativa, na verificação do facto de as pessoas, quando se tornam egoístas e centradas sobre si mesmas, ficam menos sensíveis à beleza e à verdade.
A revelação de Deus é um acto de amor, e a fé é um encontro marcado pela fidelidade, exprime-se no desejo desse encontro cada vez mais profundo (a esperança), e na caridade. Um dos aspectos mais belos da vida cristã é verificar como a intimidade com Deus, sobretudo na oração e na fidelidade aos seus mandamentos, é fonte de uma compreensão profunda de Deus e do homem. “Serão todos ensinados por Deus”, anunciou Jesus (cf. Jo. 6,44). Não foram os caminhos humanos da ciência e da cultura que levaram grandes místicos, como Teresa de Lisieux ou Catarina de Sena, àquela compreensão profundíssima da verdade e que conduziria à sua proclamação como Doutoras da Igreja.
O conhecimento da verdade que brota do amor é mais da ordem da sabedoria do que da ciência e está acessível a todos os que amam. Pode ser um dos efeitos negativos da ciência positiva, baseada na razão lógica, o diminuir o sentido da sabedoria, para onde deveria convergir toda a conquista humana da verdade.

A verdade e a liberdade
6. A cultura contemporânea exalta mais a liberdade do que a verdade. Toda a busca da verdade é realizada por seres livres, sendo, em si mesma, uma expressão do dinamismo da liberdade. Mas isto põe, necessariamente, o problema do relacionamento mútuo entre a verdade e a liberdade, pois só a harmonia de ambas leva ao aprofundamento da consciência pessoal, sobretudo da consciência moral, máxima expressão da liberdade. Qual das duas tem a primazia: é a liberdade individual que define o que é a verdade, ou a verdade orienta e condiciona o exercício da liberdade?
As palavras de Jesus parecem não deixar dúvidas a esse respeito: “Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” (Jo. 8,32). Há uma objectividade da verdade, anterior à sua descoberta pelo homem, expressa no seu próprio coração, na criação que o rodeia, na tradição que herdou, na comunidade a que pertence, em Deus que se lhe revela, em Jesus Cristo encarnação visível da verdade eterna. O dinamismo fundamental da busca da verdade é a atracção por esta “verdade incriada”, que estando já em nós, é maior do que nós, e que iluminará a nossa liberdade como capacidade de orientação da vida.
Ao contrário, se se absolutiza a liberdade individual, cai-se numa visão subjectiva da verdade, em que cada um inventa a sua própria verdade, o que levará, inevitavelmente, à relativização da própria verdade. A ética individualista, em que cada um decide o que é bem ou mal, é a principal consequência desta atitude. Ouçamos, a este propósito, o Santo Padre João Paulo II: “Atribuíram-se à consciência individual as prerrogativas de instância suprema do juízo moral, que decide categórica e infalivelmente o bem e o mal. À afirmação do dever de seguir a própria consciência foi indevidamente acrescentada aqueloutra de que o juízo moral é verdadeiro pelo próprio facto de provir da consciência. Deste modo, porém, a imprescindível exigência de verdade desapareceu em prol de um critério de sinceridade, de autenticidade, de «acordo consigo próprio», a ponto de se ter chegado a uma concepção radicalmente subjectivista do juízo moral”
[9].

7. Para aprofundar as razões do nosso acreditar, é preciso nunca desistir desta caminhada para a verdade. Nós somos atraídos pela verdade absoluta, que nos foi revelada em Jesus Cristo, e de que já participamos na vida da fé. Mas empenhemos nessa busca toda a nossa capacidade de verdade: a nossa inteligência, a atracção pela beleza e pelo amor e aceitemos humildemente que só a verdade iluminará a nossa liberdade. Esta é a exigência da formação cristã.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] JOÃO PAULO II, Veritatis Splendor (VS), Introdução
[2] Ibidem, nº 1
[3] Cf. Gaudium et Spes, nº 22 e Redemptor Hominis, nº 8
[4] V.S., nº 2
[5] Ibidem
[6] JOÃO PAULO II, Fides et Ratio (FR), nº 1
[7] Ibidem, nº 3
[8] Ibidem, nº 4
[9] JOÃO PAULO II, V.S., nº 32