quinta-feira, abril 12, 2007

Homilia no Domingo de Páscoa 2007

“Vencer as dificuldades da fé”

1. O discurso de Pedro, resumido nos Actos dos Apóstolos e que lemos como primeira leitura, é um testemunho pessoal de quem acredita na ressurreição de Jesus, onde reconhece a plenitude da missão messiânica de Cristo, pois Ele “foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos” (Act. 10,42), como tinha sido anunciado pelos profetas. Esta etapa definitiva da fé de Pedro permite-lhe afirmar com convicção: “quem acredita n’Ele recebe, por Seu nome, a remissão dos pecados” (Act. 10,43).
Digo etapa definitiva da fé de Pedro, porque acreditar na ressurreição não estava contido na fé com que os discípulos acreditaram em Jesus e na sinceridade com que O seguiram. Certamente houve muitos que seguiram Jesus na sua vida pública e depois não acreditaram na ressurreição. Os próprios Apóstolos e discípulos mais próximos sentiram essa dificuldade. São João, no seu Evangelho, ao confessar que, ele próprio, quando entrou no Sepulcro, “viu e acreditou”, dá a entender que ele e Pedro, num primeiro momento, não acreditaram. Maria Madalena, a grande amiga de Jesus, perante o sepulcro vazio, a sua primeira reacção é pensar que roubaram o corpo. Outros textos mostram-nos as dificuldades do Apóstolo Tomé e dos dois discípulos, a caminho de Emaús, em acreditarem na ressurreição.
Apesar de Jesus a ter anunciado, de terem assistido a milagres de Jesus em que Ele ressuscitava mortos, a ressurreição de Jesus foi uma surpresa inaudita de Deus, a exigir uma fé gratuita e desprendida de apoios racionais, só possível com a força de Deus. O aspecto fundamental e decisivo da fé da Igreja enfrentou, no seu início, a dificuldade de acreditar. E descortinamos nos textos sagrados as forças que levaram os discípulos a acreditar, vencendo as dificuldades da fé. Antes de mais o confrontarem-se com factos: o sepulcro vazio, as aparições do Ressuscitado, perante os quais a primeira tentação é a de encontrar, para esses factos, outras explicações: roubaram o corpo do Senhor, é um fantasma. Os encontros em que reconhecem Jesus como ressuscitado são decisivos para a fé. Saía d’Ele uma força, uma luz que os tocava no seu intimo. É essa força que brota de Cristo ressuscitado que os faz acreditar. A fé pascal da Igreja é o primeiro fruto da ressurreição, antecipação da força do Espírito que lhes será dado. Ajudou-os, também, a releitura das Escrituras numa perspectiva nova.

2. Ainda hoje a fé na ressurreição de Cristo é tão crucial como exigente. Continua a supor que se vençam as dificuldades de acreditar. Só Deus conhece verdadeiramente o número daqueles que acreditam na ressurreição de Jesus. Para além do grande número de não cristãos e de descrentes, que não acreditam na ressurreição porque não acreditam em Cristo, há certamente, entre os cristãos alguns que não acreditam na ressurreição ou cuja fé é, frequentemente, sujeita à prova da dúvida. A ressurreição de Cristo não é só mais uma verdade de fé: é a convicção central, a experiência crucial, donde brotam outras convicções de fé: a nossa própria ressurreição, a divindade de Cristo, a Eucaristia como acto presente de Cristo vivo na Sua Igreja, o dom do Espírito Santo. Não acreditar na ressurreição de Cristo é fazer ruir pela base todo o edifício da existência cristã. São Paulo já o afirmava aos cristãos de Corinto, preocupado com o facto de alguns deles, apesar da sua pregação e do seu testemunho, não acreditarem na ressurreição dos mortos: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é vazia, vazia é a vossa fé. (…) Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã, estais ainda nos vossos pecados” (1Co. 15,12-19).

3. Tentemos identificar as causas das actuais dificuldades em acreditar na ressurreição de Cristo, que encerra a promessa da nossa própria ressurreição. Antes de mais, a banalização da morte no seu aspecto de fim de vida. Os hábitos da nossa sociedade escondem, cada vez mais, a dramaticidade do mistério da morte. Mata-se facilmente, põe-se, imprudentemente, a própria vida em perigo, a morte tornou-se um fenómeno clínico, a própria dor da morte se dilui em cerimónias fúnebres mais marcadas pelos hábitos culturais do que pela vivência da densidade da vida. Muitos têm uma compreensão da vida, limitada à existência terrestre; outros guardam um vago sentido da vida para além da morte, mas sem referência à ressurreição, participação na vida de Cristo ressuscitado. Sobretudo perdeu-se a consciência de que a vida é um dom de Deus, participação da sua vida divina.
Uma outra causa das dificuldades em acreditar na ressurreição de Cristo encontramo-la numa religiosidade sem transcendência, em que Deus aparece como um último recurso e Cristo se dilui na figura simpática do amigo dos pobres, mas que não são proposta de encontro vivo e transformador. Faltam verdadeiras testemunhas da ressurreição, daqueles que vivem assim, porque Cristo ressuscitou e cujo exemplo e palavra são interpelantes e convincentes. Há depois uma cultura ambiente, mais inclinada a conceber a vida no plano do imediato, experiência a fruir agora, sem grande apetência para a dimensão de profundidade e de radicalidade. Mas não acreditar na ressurreição de Cristo mata a fé cristã, embora possa permitir a subsistência de uma religiosidade cristã.

4. É missão de toda a Igreja ajudar os cristãos, com solicitude particular pelos jovens, a vencer as dúvidas e a ultrapassar as dificuldades de acreditar. E os caminhos são fundamentalmente os mesmos que ajudaram os primeiros discípulos a passar da fé no Cristo histórico para a fé pascal. Antes de mais, os factos que anunciavam a ressurreição. Hoje, eles encontram-se, sobretudo, nos frutos da acção do Espírito Santo na Igreja: a radicalidade dos mártires e dos santos, a coragem dos que mudam completamente a vida por causa de Cristo ressuscitado, a alegria luminosa dos que se lhe abandonam no amor. Como para os primeiros discípulos tem uma importância decisiva o encontro com Jesus ressuscitado. Mas ele é possível a todos, na vida da Igreja, sobretudo na vivência pessoal da Eucaristia. Como na aparição aos discípulos de Emaús, Ele continua a fazer-se reconhecer na fracção do Pão. E continua a ser hoje verdade que a fé pascal é o primeiro fruto da ressurreição, através do dom do Espírito Santo.
É igualmente importante o testemunho convincente daqueles que acreditam, o testemunho das pessoas mas, especialmente, o testemunho da Igreja. Esta, Povo do Senhor, será sempre a principal testemunha da ressurreição de Cristo. É a fé da Igreja que fortifica a nossa fé.
É esse testemunho que a Igreja dá ao celebrar a Páscoa. É esse testemunho que queremos dar aos nossos irmãos, homens e mulheres, a viverem agora a aventura da vida. Cristo que morreu por nós, Deus ressuscitou-O dos mortos e encerra nesse mistério o segredo do homem e da história.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Homilia na Vigília Pascal 2007

“Deus é luz. A luz de Deus é o princípio da vida”

1. “Disse Deus: faça-se a luz. E a luz apareceu. Deus viu que a luz era boa” (Gén. 1,3). A criação da luz é a afirmação clara de que, ao criar, Deus faz as suas criaturas participar na sua realidade divina. A criação do Céu e da Terra é manifestação do poder divino; a criação da luz revela o desejo de Deus de se comunicar. A terra estava vaga, vazia, coberta das trevas; a criação da luz diz-nos que Deus, na sua realidade misteriosa, encerra o sentido e o destino da criação; por isso Deus começou pela criação da luz, porque Deus é luz e há-de revelar-se como tal em toda a sua acção criadora, continuada na solicitude providente em relação à criação e, de modo particular, na história da salvação. O êxito da criação está ligado à sua participação na luz de Deus. Nesta criação da luz começa a longa vigília da criação e da humanidade em busca da sua verdade definitiva. Na plenitude final, a “nova criação”, viverá da luz de Deus. “Poderá dispensar o brilho do sol e da lua, porque a glória de Deus a iluminou e o Cordeiro é o seu luzeiro. As nações caminharão à sua luz” (Apoc. 21,23-24).
Deus criou a luz para vencer as trevas e “separar a luz das trevas” (Gen. 1,4). Aquele momento final significará a vitória definitiva da luz sobre as trevas, e este triunfo é realizado por um homem em Quem só brilha a luz de Deus, Jesus Cristo. No texto do Génesis, a luz significa, sem dúvida, a realidade divina. E as trevas? Significam a ausência de Deus: ausência de vida, mesmo ausência de ser. Aquelas trevas significavam o nada, a ausência de ser, à letra, o deserto e o vazio (cf. 2M. 7,28). É a criação da luz que traz a vida. Mas quando esta não exprime Deus, passa a fazer parte das trevas. O combate entre a luz e as trevas passar-se-á, durante toda a duração do tempo e da história, no campo da vida e da busca da sua verdade definitiva. O reconhecimento de Deus como fonte da vida, continua a ser o problema decisivo da humanidade. É uma confusão da mentalidade contemporânea fazer crer que, para o homem, acreditar em Deus ou não acreditar, são atitudes equivalentes, com igual sentido para o destino do homem.

2. A luz criada torna-se num símbolo poderoso do mistério de Deus, ao ponto de se poder dizer que Deus é luz, com a mesma força com que se afirmará, no Novo Testamento, que Ele é amor. A luz e o fogo são sinais da presença de Deus. Sempre que Este se manifesta fá-lo envolto na luz e no fogo. O Livro da Sabedoria une, na mesma realidade divina, Deus, a sabedoria e a luz. A sabedoria “é um sopro do poder divino, a efusão puríssima da glória do Todo Poderoso… É um reflexo da luz eterna (…) Ela é, com efeito, mais bela que o sol, ultrapassa todas as constelações, comparada com a luz, ela leva a melhor” (Sap. 7,25-29). Deus veste-se de luz (Sl. 104,2) e aqueles que, como Moisés, contactaram com a intimidade de Deus, ficaram com o rosto luminoso (cf. Ex. 34,30).
Esta identificação entre Deus e a luz é explícita, no Novo Testamento. São João afirma-o claramente: “Deus é luz, n’Ele não há trevas” (1Jo. 1,5). Jesus diz de Si Mesmo: “Enquanto eu estiver no mundo, sou a luz do mundo” (Jo. 9,5). “Quem Me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo. 8,12).
A identificação de Cristo com a luz é uma afirmação da sua divindade e da vitória definitiva da luz sobre as trevas, da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado. “Ele era a vida de todos os seres e a vida era a luz dos homens e a luz brilhou nas trevas e as trevas não puderam vencê-la” (Jo. 1,4-5). A ressurreição de Cristo é o triunfo da luz.
Também aqui as trevas significam a ruptura com Deus, o tentar viver separado de Deus, o que significa afastar-se da vida. Restabelecer a comunhão com Deus, em Jesus Cristo ressuscitado, participar da Sua vida divina, significa deixar-se inundar pela sua luz, ser luz em Cristo. É no baptismo que somos inundados por essa luz e todo o caminho da fidelidade cristã consiste em não impedir essa luz de brilhar, para que ilumine os outros. Foi por isso que o Concílio definiu a Igreja como “luz dos povos” (LG. n.1), porque nela deve brilhar no mundo a luz de Cristo.
A vitória da luz sobre as trevas é uma longa caminhada, significada nesta vigília, onde a luz tem as honras da própria divindade de Cristo. O baptismo é um mergulhar na luz, deixar-se penetrar por ela, de modo a que possa sempre vencer as trevas que persistem em nós. Mas esta luz é Cristo; só nos iluminará enquanto permanecermos unidos a Ele, um com Ele, que nos faz mergulhar na luz de Deus.
Ao identificar Deus com a luz e com o amor, a Sagrada Escritura abre um pouco o véu da nossa vida em Deus, na luz eterna. Em vez de imaginarmos uma sobrevivência das formas que temos como seres corpóreos e materiais, é-nos sugerido que a eternidade é um mergulhar nessa fonte eterna da luz, onde só se subsiste amando. “Passará a figura deste mundo” (cf. 1Co. 7,312; G.S. n. 39).

3. Pelo baptismo, a luz de Cristo penetra no coração do homem e ilumina a existência, na sua caminhada de fidelidade e de progressiva identificação com Cristo. Mas a experiência dessa luz é discreta e humilde, é a luz que tenta dissipar as trevas da nossa fragilidade pecadora. A luz de Cristo está presente, em nós, sobretudo na “luz da fé”. O Concílio afirma: “A fé ilumina todas as coisas com uma luz nova e faz-nos conhecer a vontade divina acerca da vocação integral do homem, orientando o espírito para soluções verdadeiramente humanas” (G.S. n. 11).
A fé não é uma simples escolha ou decisão da vontade humana. É um mergulhar na luz de Cristo, participando na sua ressurreição; pela fé, a luz de Cristo brilha na nossa realidade humana que, vista a uma tal luz, redescobre a verdade profunda do seu mistério. A nossa intimidade com Cristo torna-nos mais permeáveis à sua luz, que nos proporciona uma visão mais verdadeira sobre todas as coisas. Mas tenhamos consciência de que durante toda a nossa vida, esta luz da fé é uma energia que tem de vencer obstáculos. A fidelidade cristã exprime-se no esforço de nos tornarmos sensíveis à luz de Cristo.
A primeira coisa que esta luz nos faz ver de forma mais clara é o desígnio de Deus, a vontade do Senhor a nosso respeito. É luz que ilumina a nossa realidade e faz ver claro a nossa vocação e os caminhos pessoais concretos para a nossa fidelidade. A luz de Cristo faz-nos conhecer melhor Deus e o seu desígnio.
A nossa identificação com Cristo, leva-nos a uma visão profunda sobre o mistério do homem, sobre nós e a nossa realidade. “De facto, só no mistério do Verbo encarnado se ilumina verdadeiramente o mistério do homem” (G.S. n. 22). A plenitude de vida de que o homem é capaz e pela qual anseia, a sua dignidade, a exigência do amor fraterno, o sentido da vida e da morte, são iluminados por Cristo ressuscitado.
A “luz da fé” vem ao encontro de outras luzes de que o homem é dotado, de modo particular a da inteligência. A “luz da fé” faz brilhar, com maior intensidade, a luz da inteligência, tornando-a capaz de penetrar no mais íntimo da realidade. O nosso coração e a nossa vontade são particularmente iluminados por esta luz, que faz desabrochar, assim, a consciência moral, isto é, a busca da vida como procura dos caminhos do bem, do amor, da justiça e da paz.

4. Começámos esta Vigília anunciando como “boa-nova” a luz de Cristo. Tomemos consciência de que esta luz de Cristo ressuscitado é o Espírito Santo, que se manifestou sob a forma de línguas de fogo. O Espírito Santo ilumina e incendeia, mas o fruto da sua acção são, agora, a fé e a caridade. Nesta Vigília fazemos a experiência do percurso desta luz, que coincide com o itinerário da vida cristã: escuta confiante da Palavra, vivência dos sacramentos da iniciação cristã, o baptismo, a confirmação e a Eucaristia, a confissão de fé que signifique conversão e desejo de mudança de vida.
Cristo é luz porque é Filho de Deus. A sua luz manifestou-se porque Ele ressuscitou dos mortos. Acreditar na Sua ressurreição é o primeiro fruto da “luz da fé”; deixarmo-nos penetrar por essa luz e purificar por esse fogo, é a longa caminhada da nossa fé, é a nossa vida vivida como vigília da eternidade.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Homilia na Paixão do Senhor 2007

“O sofrimento do Inocente”

1. Contemplamos, hoje, o acontecimento decisivo da história da humanidade, fundador da nossa identidade cristã: a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, máxima expressão do sofrimento inocente, fonte de sentido para todo o sofrimento humano.
Inocente é aquele que não tem culpa, que não merece o sofrimento que lhe é infligido e que, por isso, é injusto. O sentido do sofrimento do justo é o problema que maiores interrogações gera nos crentes de Israel, para quem a única razão compreensível para o sofrimento era o ele ser um castigo pela infidelidade e pelo pecado. Como exclama o nosso poeta, “que quem é pecador sofra tormentos, enfim!... Mas as crianças, Senhor?”, mas o justo, Senhor, diria um crente de Israel. Foram-se procurando explicações: que os filhos pagariam pelos pecados de seus pais; o sofrimento sem causa aparente revela que há pecados ocultos que ninguém conhece. Só Deus conhece o coração do justo, daquele que é verdadeiramente inocente e na sua provação só lhe resta abandonar-se na confiança, atitude cantada pelo salmista: “Os justos clamaram e o Senhor os ouviu,… muitas são as tribulações do justo, mas de todas o livra o Senhor (Sl. 33,18;20). O próprio autor da Carta aos Hebreus aplica a Cristo, no Seu sofrimento injusto, este abandono na confiança: “Nos dias da Sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com um forte brado e com lágrimas, Àquele que o podia livrar da morte e, por causa da Sua piedade, foi atendido” (He. 5,7).
Este abandono confiante do justo sofredor nas mãos de Deus aponta já para onde se encontra o sentido do sofrimento inocente, que só Deus pode conhecer. Mas está-se ainda longe da fecundidade salvífica do sofrimento do justo, que se nos manifestará na Cruz de Cristo, em Quem o sofrimento aparece como um acto de louvor a Deus, expressão máxima da caridade, onde se purificam os corações marcados pelo pecado. Que o justo reúne na sua fidelidade o destino de todo o povo, já aparecera como dimensão que se foi acentuando; mas que o sofrimento inocente do justo fosse o elemento decisivo dessa fecundidade colectiva, só é atribuído ao Messias esperado, descrito na figura do Servo sofredor e obediente.

2. Aqui tocamos no aspecto essencial do sofrimento inocente: só o justo, no seu coração puro é capaz de oferecer o sofrimento como acto de louvor, sofrimento do homem, que se aproxima do sofrimento de Deus. É quando o sofrimento se torna louvor que ele é fecundo e redentor. O sofrimento é uma realidade permanente na experiência humana, que não atinge a sua expressão fecunda devido à impureza do coração humano, incapaz de o aceitar e oferecer. O pecado torna estéril o sofrimento. A realidade do pecado sublinha a actualidade da Cruz de Cristo. Nós precisamos, para a nossa redenção, que Cristo continue a oferecer-Se a Deus por nós.
Só Cristo é verdadeiramente inocente e, por isso, só o Seu sofrimento é redentor. Mas purificados no Seu sangue e unidos a Ele no baptismo, podemos sofrer n’Ele e com Ele, que faz suas as nossas dores e as oferece ao Pai, em acto de louvor. Em Cristo a nossa dor ganha a densidade do sofrimento inocente, naquela pureza reconstruída pela acção do Espírito que Ele infunde em nós. É nesse sentido que São Paulo diz que nós sentimos, na nossa carne, o que falta aos sofrimentos de Cristo. A reconstrução da inocência, pelo perdão dos pecados, tem em nós, como primeiro fruto maravilhoso, o podermos viver, com sentido redentor, o nosso sofrimento, o que significa poder celebrar a Eucaristia, isto é, oferecer com Cristo o nosso sofrimento no mesmo acto de louvor em que Ele oferece o seu.

3. Transformado em acto de louvor, o sofrimento inocente reveste-se de características, que Jesus referiu ao enunciar os bem-aventurados, aqueles que vivem ao ritmo do Reino dos Céus: “Bem-aventurados os que sofrem, porque serão consolados” (Mt. 5,5). O sofrimento oferecido gera a sua própria consolação.
A primeira qualidade deste sofrimento inocente dos bem-aventurados, é a mansidão. O justo que sofre não se revolta, não acusa, nem Deus, nem os homens, não desespera. O Profeta Isaías já sublinhara essa atitude no sofrimento do Servo: “Maltratado, resignava-se e não abria a boca. Como o cordeiro levado ao matadouro e a ovelha sem voz ante aqueles que a tosquiam, nem sequer abriu a boca” (Is. 53,7). Esta mansidão sobressai no Senhor Jesus como obediência filial: “Apesar de ser Filho, aprendeu, de quanto sofrera, o que é obedecer” (Heb. 5,8). A mansidão tem n’Ele uma origem, a fidelidade à vontade do Pai, o que nos anuncia o desígnio insondável de Deus de salvar a humanidade através do sofrimento inocente. Esta obediência filial há-de transformar-se, em nós, seus discípulos, em identificação com a sua missão, aceitando sofrer com Ele e como Ele sofre: “Quando atingir a Sua plenitude, tornou-se, para todos aqueles que Lhe obedecem, causa de salvação eterna” (Heb. 5,9).

4. O sofrimento do justo, oferecido como acto de louvor, é a mais bela expressão da caridade e tem a grandeza e a dignidade da liberdade. Jesus mostrou-o bem, na sua Paixão, perante o Sumo Sacerdote, perante o Governador Romano, perante os soldados que O procuram no Jardim das Oliveiras e depois executam a sentença. Que paz, repassada de amor, transpareceu na resposta ao “bom ladrão”, “hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc. 23,43), ou quando diz a Sua Mãe, “eis o teu filho” (Jo. 19,26). Tantas vezes, na Igreja, identificamos esta grandeza no sofrimento dos cristãos, na liberdade serena dos mártires, na aceitação silenciosa da dor, na aceitação da morte como um momento de libertação. Em todo o sofrimento oferecido, com a mansidão do Servo, Deus é louvado e aprofunda-se, misteriosamente, a redenção do mundo. Há um ano, disse-vos aqui, neste mesmo dia: “Só Deus conhece a força redentora do sofrimento oferecido, em união aos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

5. O sofrimento inocente abre o coração do justo para a universalidade do amor salvífico de Deus. Na vida normal é comum, mesmo nas pessoas piedosas, rezarmos por este, intercedermos por aquele. Quando o crente, com o coração purificado, fazendo um com Cristo, se abandona ao sofrimento aceite e oferecido, abre-se à universalidade da salvação, participa dos sentimentos de Jesus na Cruz, o Qual, de braços abertos, abraça a humanidade de todos os tempos. Esse é sempre o horizonte da Igreja, sobretudo quando celebra a Eucaristia e que hoje, nesta celebração, se exprime na oração por todos os homens, cristãos e não cristãos, crentes e descrentes, actores de um drama cuja amplitude desconhecem e que encontra na Cruz de Cristo a chave da sua compreensão. Nesta universalidade da nossa oração, não podemos deixar de dar um lugar especial a essas multidões imensas que, neste momento, sofrem a violência, a injustiça, a dor física ou a solidão espiritual: os culpados e os inocentes, sobretudo as crianças, mortas, abusadas, exploradas, agredidas na sua inocência. Ofereçamos nós, porque o podemos fazer, em Cristo, todo esse sofrimento; aprendamos com Ele a sofrer; ajudemos os outros a oferecer a sua dor. E ao adorarmos a Cruz do Senhor, abracemos nela todo o sofrimento do mundo.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Homilia da Missa da Ceia do Senhor 2007

“Celebrar adorando, adorar celebrando”

1. Esta celebração da “Ceia do Senhor” evoca, para nós, uma dupla relação: a da Ceia Pascal de Jesus com a Eucaristia da Igreja e desta com a vocação da Igreja de se identificar com Jesus Cristo, na radicalidade do seu dom, perfeição da caridade.
A “última Ceia”, não foi a celebração do sacramento da Eucaristia. Este é uma realidade post-pascal, em que a Igreja perpetua a salvação que Cristo mereceu, para nós, na Sua Páscoa, vivida e aplicada aos homens de cada tempo e de cada geração. Mas aquela ceia pascal está carregada do sentido, que inspirou a vivência do sacramento da Eucaristia desde a Igreja nascente: a significação simbólica da refeição, como memória e actualidade de comunhão; a intensidade de amor de Jesus Cristo, fruto da profundidade com que Ele vive aquele momento de consumação da sua missão, fonte da caridade que há-de unir a Igreja; a novidade de exprimir no pão repartido e na taça partilhada, o realismo do Seu Corpo oferecido e do Seu Sangue derramado. Por tudo isso, a Eucaristia será sempre celebrada como a Páscoa da Igreja, que vive do Senhor ressuscitado, ao ritmo do Espírito. Assim a carga simbólica e a força significativa da Ceia Pascal ajudarão a Igreja, em cada tempo, a redescobrir o sentido e a centralidade da Eucaristia. É o que pretendo fazer, hoje, convosco, nesta tarde de Quinta-Feira Santa: redescobrir o mistério da Eucaristia na nossa Igreja de Lisboa. Convida-nos a isso a recente Exortação Apostólica do Santo Padre sobre a Eucaristia “Sacramento da Caridade”. Quero centrar-me, de modo particular, na inseparável unidade entre celebração e adoração, para aprendermos a celebrar a Eucaristia, adorando, e a adorar Jesus Cristo na Eucaristia, celebrando este mistério insondável.

2. Antes de mais, devemos tomar consciência das alterações verificadas, desde o Concílio para cá, na compreensão e na vivência da Eucaristia. A reforma litúrgica, promovida pelo Concílio, centrou-se na valorização da celebração da Eucaristia, principal expressão da Igreja comunhão. Tomou-se consciência de que a “Eucaristia faz a Igreja”, segundo a expressão de São Cipriano. A Igreja afirma-se e define-se na maneira de celebrar a Eucaristia. Vínhamos, é certo, de um tempo, que muitos de nós ainda vivemos, em que se acentuava o culto da real presença de Jesus Cristo na reserva eucarística: a comunhão frequente, mesmo fora da celebração; a adoração, permanente ou frequente, de que os tronos barrocos das nossas Igrejas são um sinal; as Confrarias e Irmandades dedicadas ao culto do Santíssimo Sacramento; as procissões eucarísticas; o hábito da visita pessoal a Jesus eucarístico, no silêncio das nossas Igrejas, então sempre abertas. Não era objectivo da reforma litúrgica, ao valorizar a celebração, relativizar ou menosprezar estas expressões do culto eucarístico. Mas isso aconteceu. O próprio Papa, ao apresentar-nos a síntese do Sínodo sobre a Eucaristia, o reconhece, ao afirmar: “quando a reforma dava os primeiros passos, aconteceu, às vezes, não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento”[1].
A expressão mais grave deste divórcio encontramo-la naqueles que relativizaram a sua fé na Presença real. Para esses, o pão repartido na celebração é apenas o símbolo de uma comunhão situada naquele momento. Para o comer basta o desejo de comunhão com aqueles irmãos, descurando a conversão, a pureza do coração e a plena comunhão com a fé da Igreja, condições necessárias, exigidas pela santidade de Deus, para acolher em nós o próprio Cristo Vivo. Não acreditar que nas espécies eucarísticas está realmente presente o Senhor, é esvaziar a Eucaristia da sua verdade e da sua força. Ela deixa de ser um acontecimento inaudito de Deus, pelo poder do Espírito, para se reduzir a uma acção humana, porventura bela e carregada de emoção.

3. Não pode haver dicotomia entre celebração e adoração. Na sua verdade profunda, a própria celebração, sobretudo a comunhão, é acto de adoração. A Exortação Apostólica cita, a este respeito, uma frase de Santo Agostinho: “Ninguém come esta carne, sem antes a adorar. Pecaríamos se não a adorássemos”
[2]. Toda a celebração deve ser um acto de adoração. O Santo Padre acrescenta: “Na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-se connosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior acto de adoração da Igreja. Receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d’Aquele que comungamos”[3].
Porque “o acto de adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica aquilo que se faz na própria celebração litúrgica”, a adoração tem carácter celebrativo, é um acto de culto. A adoração eucarística, tornada atitude habitual, conduz o cristão a dar dimensão celebrativa a toda a sua vida, e a descobrir o seu sentido nesta relação adorante com Cristo Vivo. A Eucaristia vai-se tornando a expressão natural da nossa vida em Cristo, autêntico culto espiritual, agradável a Deus, na linha do que escrevia São Paulo aos Romanos: “Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Tal é o culto espiritual que Lhe deveis prestar” (Rom. 12,1), texto que o Santo Padre comenta assim: “nesta exortação aparece a imagem do novo culto como oferta total da própria pessoa em comunhão com toda a Igreja. A insistência do Apóstolo na oferta dos nossos corpos sublinha o realismo humano de um culto que não é desencarnado”. Nesta oferta de toda a nossa vida, atinge-se a dimensão sacrificial da Eucaristia, mesmo quando a adoramos. “Exprime-se aqui toda a densidade existencial, implicada na transformação da nossa realidade humana alcançada por Cristo”
[4].

4. Adorar o Senhor na Eucaristia pode ser experiência decisiva na transformação da nossa fé e, como consequência, da nossa vida. Os textos sagrados e a tradição viva da Igreja viva mostram-nos, muitas vezes, esta transformação de uma fé tradicional no Deus de nossos pais, numa fé que brota de um encontro pessoal com o Deus Vivo. O Deus de nossos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, ou o Cristo da maior parte dos cristãos, pode ser o suficiente para fundamentar uma fé religiosa, mas incapaz de provocar as grandes mudanças de vida, que levam a encetar caminhos novos de ousadia e de missão. Foi assim com Moisés no Sinai, com Isaías no Templo de Jerusalém, com os Apóstolos de Jesus, com Saulo na estrada de Damasco. Foi um encontro vivo com o Deus Vivo, que os fez encontrar com Deus como alguém inevitável, com um projecto e uma proposta de amor. A resposta é sempre a mesma: Eis-me aqui, envia-me; Senhor, que queres que eu faça?, e deixaram tudo e seguiram Jesus.
Estamos habituados a considerar estes encontros marcantes com o Deus Vivo reservados a figuras extraordinárias, a quem Deus escolheu para missões especiais. A surpresa da Páscoa cristã é que, depois do dom do Espírito Santo, este encontro vivo com o Deus Vivo está ao alcance de todos e o Senhor deseja fazê-lo com cada crente. E o grande Sacramento desse encontro é a Eucaristia, que lhe retira o aparatoso da teofania, sem o privar da intimidade exigente e transformadora. Só o Senhor sabe quantas vidas mudaram diante da Eucaristia: aí se decidiram caminhos de entrega generosa, à missão ou ao amor dos irmãos; aí se descobriu o amor com a marca do divino; aí aconteceram manifestações extraordinárias do amor infinito de Cristo, que deseja muito ser amado; aí, no silêncio da oração, se decidiram etapas positivas da humanidade. E tudo isto por uma razão simples de perceber: é porque a Eucaristia é o Sacramento do amor, a fonte da caridade.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] BENTO XVI, Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, nº 60
[2] Ibidem
[3] Ibidem
[4] Ibidem, nº 70

Homilia da Missa Crismal 2007

“O Sacerdote, sacramento de Cristo Bom Pastor”

Queridos Sacerdotes,

1. Ao dirigir-me a vós, membros do presbitério de Lisboa, nesta Eucaristia, expressão da abundância sacramental e salvífica da Igreja, recordo a maneira como vos consagrei a Nossa Senhora, naquela noite inesquecível do cortejo da Luz, no encerramento da sessão de Lisboa do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. Foi assim que vos entreguei a Nossa Senhora: “Consagramo-Vos os nossos seminaristas e sacerdotes. Vós que correspondestes ao chamamento misterioso de Deus, ensinai-os a entregar-se confiadamente e sem limites à vocação a que Deus os chamou. Que sejam servidores como Vós fostes serva, que sejam felizes no seu dom, protegei-os nas suas lutas, iluminai-os nas suas dúvidas, defendei-os das tentações e do espírito do mundo. Eles “estão no mundo, mas não são do mundo!”. Ensinai-os a serem pastores, “sacramentos” de Cristo Bom Pastor, e a fazerem de cada Eucaristia um momento de júbilo e de louvor”[1].
Ensinai-os a serem pastores, sacramentos de Cristo Bom Pastor. Essa é a dimensão mais bela do nosso ministério: sermos pastores do Povo de Deus. Mas este tem um único Pastor, Cristo que Se chamou, a Si Mesmo, o Bom Pastor: “Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me. (…) Eu dou a vida pelas ovelhas” (Jo. 10,11). Nós só podemos ser pastores, como sacramentos de Cristo Bom Pastor. Ao consagrar-nos, Ele quer continuar a ser Pastor através de nós, com a nossa bondade e capacidade de dom, com a nossa palavra e os nossos gestos. Em tudo o que somos e fazemos deve exprimir-se a bondade de Cristo, a sua solicitude pelo rebanho, que é a Igreja.
Ouçamos, a este propósito, as palavras do Papa João Paulo II: “Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de Jesus Cristo, Cabeça e Pastor, proclamam a Sua palavra com autoridade, repetem os seus gestos de perdão e oferta de salvação, nomeadamente com o Baptismo, a Penitência e a Eucaristia, exercitam a sua amável solicitude, até ao dom total de si mesmos, pelo rebanho que reúnem na unidade e conduzem ao Pai por meio de Cristo no Espírito. Numa palavra, os presbíteros existem e agem para o anúncio do Evangelho ao mundo e para a edificação da Igreja em nome e na pessoa de Cristo, Cabeça e Pastor”
[2].
Esta situação de sermos sacramentos do Bom Pastor, transforma e define a qualidade de todas as nossas atitudes. “Os presbíteros são chamados a prolongar a presença de Cristo, único e Sumo Pastor, actualizando o seu estilo de vida e tornando-se como que a sua transparência no meio do rebanho a eles confiado”
[3]. Esta é, já, a visão do presbítero, nas cartas do Apóstolo São Pedro: “Recomendo aos presbíteros que estão entre vós, eu presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que se deve manifestar: apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, olhando por ele, não constrangidos, mas de boa vontade, segundo Deus, não por ganância, mas por dedicação; não como dominadores sobre aqueles que vos foram confiados, antes tornando-se modelo do rebanho” (1Pet. 5,1-4).

2. Na nossa linguagem corrente, fala-se mais de pastoral, do que de pastores. A designação de pastoral significa que toda a acção da Igreja, na realização da sua missão, deveria exprimir a solicitude de Cristo pelo rebanho. Significa, também, que não apenas cada um de nós, mas a Igreja toda é sacramento de Cristo, Bom Pastor. Mas para que isso aconteça, é importante o testemunho dedicado dos sacerdotes, como pastores do Povo de Deus.
Ser pastor não indica, apenas, mais um sector de actividade do sacerdote, na complexidade da sua missão no mundo contemporâneo. É qualidade que se exprime e concretiza em toda a sua acção, garantia da unidade vital entre o que somos e o que fazemos, no exercício do nosso ministério. A atitude do pastor revela os critérios e os ritmos das diversas tarefas e atitudes, define a missão e a maneira como nos vêem. Numa sociedade, a que se pode aplicar a frase de Jesus, dispersa, desorientada e infeliz, “como um rebanho sem pastor”, é importante que o sacerdote seja identificado como pastor.
Ser pastor, exprime-se, antes de mais, na caridade pastoral, participação no amor com que Cristo ama a Igreja. O sacerdote pastor ama sempre e faz tudo com amor: quando acolhe, quando escuta e consola, quando orienta, quando se alegra com os que estão felizes e partilha a dor dos que sofrem; quando é exigente e quando é compreensivo e tolerante; quando ensina, todos e cada um a discernirem, no concreto das suas vidas, os caminhos do Reino de Deus. O sacerdote é pastor na sua missão pública, em que preside à comunidade dos crentes, e na sua vida privada, na intimidade dos seus silêncios, da sua oração, dos seus sentimentos e afectos. Um coração de pastor é um coração indiviso, transformado pela caridade de Jesus Cristo. A maneira como ama é libertadora, suscita no coração das pessoas a beleza e a esperança e alimenta o desejo de vencer as próprias dificuldades. Aqueles que o pastor ama, devem sentir-se amados por Deus. É neste quadro que se situa o dom inestimável do celibato consagrado e a sua consonância com a caridade pastoral: coração transformado pelo amor de Cristo, bom pastor também dos sacerdotes, pode amar todos, sempre e em todas as circunstâncias, sem deixar perturbar a pureza desse amor com a veemência dos afectos naturais. Num tempo em que o celibato é, cada vez mais, contestado e incompreendido, a única resposta do sacerdote é vivê-lo, na generosa vigilância do seu coração.

3. A caridade pastoral deve marcar o ritmo da autoridade do sacerdote. Como aquele que preside à comunidade, o sacerdote está revestido de uma legítima autoridade, que decorre da natureza da sua missão e é explicitada pelo direito. Autoridade firme na defesa da autenticidade da fé e da Igreja, na fidelidade aos caminhos de construção da Igreja, como Corpo de Cristo e Povo de Deus, definidos, quer pela Igreja Universal, quer pela Igreja particular, na fidelidade à tradição apostólica. Isto mostra que a autoridade pastoral do sacerdote não é individual, mas colegial, é expressão da condução da Igreja pelos caminhos e critérios da comunhão eclesial. Ela é, no sacerdote pastor, expressão da sua fidelidade à Igreja, é uma obediência, em que a fidelidade à Igreja é credencial da sua autenticidade. Desligada da comunhão eclesial, a autoridade resvala para o poder pessoal, que por vezes divide em vez de unir e fazer convergir.
A autoridade pastoral valoriza os carismas de cada um, as potencialidades de cada um na edificação da Igreja, comunidade de todos e obra de todos, “casa de comunhão”, como lhe chamou João Paulo II. É frequente ouvir que a nossa Igreja é, ainda, demasiadamente clerical, onde os cristãos só têm o lugar e o protagonismo que o sacerdote decide. Penso que esta análise não é completamente justa. Mas ela interpela a nossa consciência. Hoje, Quinta-Feira Santa, analisemo-nos em confronto com a Páscoa de Jesus, para vermos se não haverá aí a denúncia das vezes em que a autoridade pastoral se torna em poder pessoal.

4. E, finalmente, tomemos consciência de que a vivência do nosso sacerdócio como sacramentos de Cristo, Bom Pastor, pode suscitar, na Igreja, novas vocações sacerdotais. Só Cristo atrai, só a bondade do serviço ao Povo de Deus inquieta o coração dos jovens. Ouçamos João Paulo II: “O conhecimento da natureza e da missão do sacerdócio ministerial é o pressuposto irrecusável, e ao mesmo tempo o guia mais seguro, bem como o estímulo mais premente para desenvolver na Igreja a acção pastoral de promoção e discernimento das vocações sacerdotais”
[4].
Suscitar de vocações sacerdotais é algo que nos deve mobilizar a todos. Mas antes de acções específicas a desencadear, há este testemunho da nossa vida de autênticos pastores, sacramentos de Cristo Bom Pastor.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] J. POLICARPO, Obras Escolhidas, vol. 9, pg. 46
[2] JOÃO PAULO II, Pastores Dabo Vobis, n. 15
[3] Ibidem, n. 15
[4] Ibidem, n. 11

segunda-feira, abril 02, 2007

Catequese do Domingo de Ramos 2007

“Cristo é a plenitude do homem”
1. Reflectimos, ao longo da Quaresma, nas razões do nosso acreditar, ou seja, sobre a base racional da nossa fé. Atitude verdadeiramente humana, a fé é um dom de Deus. Nela encontram-se o que de mais profundo tem a natureza do homem e a acção de Deus em nós. Ele que nos criou, acompanha-nos na busca da plenitude da vida, em cujo dinamismo se situa a fé. Este encontro do humano com o divino, exprime realisticamente o mistério do homem e realizou-se plenamente em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, encarnação da Palavra de Deus. Pela fé o homem participa de Jesus Cristo, encontro maravilhoso da divindade com a humanidade, em Quem encontra a sua própria plenitude. Jesus Cristo é o verdadeiro fundamento e a base sólida da nossa fé, em todas as suas dimensões, enquanto expressão da acção de Deus em nós e das nossas mais belas capacidades de buscarmos a verdade.
Esta caminhada quaresmal só podia conduzir-nos ao encontro com Jesus Cristo, que a Liturgia contempla nesta Semana Maior, na Sua Páscoa, plenitude humana definitivamente conseguida, pela vitória de Deus sobre o pecado e a morte, no triunfo maravilhoso da vida. Como João Paulo II no início do seu Pontificado, apetece-nos exclamar, no termo da nossa caminhada quaresmal e no início da semana pascal: “A única orientação do espírito, a única direcção da inteligência, da vontade e do coração para nós é esta: na direcção de Cristo, Redentor do homem, na direcção de Cristo, Redentor do mundo. Para Ele queremos olhar, porque só n’Ele, Filho de Deus, está a salvação, exclamando como Pedro: Para quem iremos nós Senhor?! Tu tens Palavras de vida eterna”
[1].

A Palavra eterna
2. Pedro encontrou a verdadeira razão para acreditar e ficar com Jesus: Ele é a Palavra eterna (cf. Jo. 6,68ss). Jesus Cristo é a humanização do “Logos” eterno, o Verbo divino. Ele é o pensamento divino, tornado Palavra na comunicação reveladora com os homens. E esse Verbo eterno pode entrar em diálogo com os homens porque estes participam dessa inteligência divina, foram criados à imagem de Deus. Antes de se revelar, Deus criou os homens com essa participação do Logos, que os tornava capazes de acolher a revelação. Por isso, ao contemplarmos Jesus Cristo, a primeira atitude espontânea é abrir, para O escutar, a nossa inteligência, vontade e coração, tudo aquilo que constitui a espiritualidade do homem e o torna capaz de escutar Deus.
A nossa adesão a Jesus Cristo envolve, desde o primeiro momento, a nossa inteligência. A racionalidade da nossa fé enraíza no Verbo eterno de Deus, porque Ele, antes de se fazer Homem, era, desde toda a eternidade, a inteligência divina (cf. Jo. 1,1-3) e criou-nos inteligentes como Ele, que “é a imagem de Deus invisível, por quem todas as coisas foram feitas” (Col. 1,15-16). O homem foi criado como a inteligência do Universo e por isso o Verbo eterno pôde fazer-Se homem. A fé em Cristo é o encontro de duas inteligências, a humana e a divina; para o homem, criado à imagem de Deus, tudo em Cristo é inteligível. O próprio “mistério”, escondido desde todos os séculos em Deus (cf. 1Co. 2,8ss), abre-se à compreensão do homem, quando a sua inteligência se encontra com Cristo, Verbo de Deus.
Porque Cristo é a encarnação do Logos eterno de Deus, Ele é a verdade e o caminho para o Pai. A verdade será sempre, no coração do homem, a irradiação da luz da inteligência divina e ao tocá-la, o homem percebe que essa verdade nos conduz ao Pai, o Deus eterno.
Porque Cristo é o Verbo eterno, para acreditar n’Ele basta escutá-l’O. A Palavra escuta-se e assim gera o encontro entre duas inteligências e dois corações. “Este é o Meu Filho bem amado… escutai-O” (Mt. 17,5). Escutar Jesus é o principal caminho para o enraizamento da fé. Escutá-l’O nas suas Palavras, nos seus gestos, nos seus milagres, nos seus silêncios; escutá-l’O na sua maneira de viver e de morrer, escutá-l’O na Igreja e na maneira de estar e de a amar, ser capaz de O escutar na palavra dos seus discípulos. Escutá-l’O é aprender e isso é tarefa e dignidade da nossa inteligência.

Escutando Jesus Cristo, conhecemos o Pai
3. Em Jesus Cristo a nossa inteligência abre-se ao conhecimento do insondável mistério de Deus. Talvez ainda não tenhamos percebido a radicalidade da afirmação: Cristo é o único caminho: “Eu e o Pai somos um só”; “quem Me vê, vê o Pai”, o que equivale a dizer, quem Me conhece, conhece o Pai.
O conhecimento de Deus a que temos acesso, por Jesus Cristo, ensina-nos o que Deus Pai é para nós, um Pai misericordioso, que nos ama e deseja ser amado por nós, que não quer a morte do pecador, mas deseja, para ele, a vida. A nossa inteligência abre-se a esse mistério, antes de mais contemplando o que Jesus Cristo foi para Deus, Seu Pai, como Homem que é Filho: “Só Ele satisfez ao eterno amor do Pai, aquela paternidade que desde o princípio se expressou na criação do mundo… Só Ele correspondeu àquela paternidade de Deus e aquele amor, de certo modo rejeitado pelo homem”. Na obediência e no amor filial de Jesus Cristo, entendemos o mistério da nossa redenção, fruto do amor misericordioso de Deus. “A redenção do mundo, aquele tremendo mistério do amor em que a criação foi renovada, é, na sua raiz mais profunda, a plenitude da justiça num coração humano, no coração do Filho Primogénito”
[2].
Tudo o que Deus deseja para o homem realizou-o plenamente no coração do Filho e, assim, n’Ele, podemos conhecer o insondável amor de Deus por nós. Ao contrário de todas as filosofias e sabedorias humanas que chegaram ao conhecimento de Deus, Jesus Cristo é um caminho existencial, experiencial, para chegar a conhecer Deus. Captamos o que Deus é, no que Ele faz por nós. E fez tudo isso em plenitude na pessoa do Verbo encarnado. Verdadeiramente chegar a Deus é uma “imitação” de Jesus Cristo, conhecer o que Deus é para nós, é reconhecer e contemplar o que Ele é em Jesus Cristo. Jesus disse um dia aos discípulos: “Vós chamais-Me Mestre e dizeis bem, porque o sou” (Jo. 13,13). Ele é sempre e em tudo, o nosso Mestre, o que nos ensina o conhecimento de Deus.

Unindo-nos a Jesus Cristo, conhecemos o homem
4. Este é um dos aspectos mais exigentes da fé cristã: ter em Jesus Cristo a compreensão do homem. É exigente, porque toca de perto o concreto da nossa existência. Toda a aventura do conhecimento humano tem sido marcada por essa busca da compreensão do homem, do sentido da sua vida, do seu destino, da natureza da sua realização, em felicidade. Todas as antropologias filosóficas e culturais procuraram compreender o homem a partir de si mesmo. Ora Jesus Cristo aparece-nos como “o Homem”; n’Ele eu posso continuar a procurar a compreensão do homem, a partir do Homem. Ele é mais do que um modelo, ponto de referência comparativo. A fé proporciona-nos uma união vital com Cristo, como dizia Paulo: “Para mim viver é Cristo”. É da densidade dessa união que brota a compreensão de nós mesmos. João Paulo II exprimiu, assim, esta densidade existencial: “Cristo, Redentor do mundo, é Aquele que penetrou, de uma maneira singular e que não se pode repetir, no mistério do homem e entrou no seu coração”. E citando o Concílio Vaticano II: “Na realidade, só no mistério do Verbo encarnado se esclarece, verdadeiramente, o mistério do homem”
[3].
Desta compreensão do homem, em Cristo, brota o sentido definitivo da sua vida com os outros, da sua morte, do sofrimento e da dor, sobretudo do amor. Em Cristo percebemos que o homem não pode viver sem amor. Citando, de novo, a Redemptor Hominis: “O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente, deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Deve mergulhar n’Ele com tudo o que é (…) Quando se realiza, no homem, este processo profundo, produz frutos de adoração a Deus e de profunda maravilha perante si próprio”
[4].
Esta visão cristocêntrica do homem é a base da antropologia cristã, isto é, da doutrina da Igreja acerca do homem, fundamento da sua dignidade, da exigência ética da sua existência, do horizonte da sua plena realização. “A Igreja, que não cessa de contemplar o mistério de Cristo, sabe, com a certeza da fé, que a Redenção que se verificou na Cruz, restitui definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que havia perdido, em grande parte, por causa do pecado”
[5].
Este é o contributo da Igreja para a cultura, através da evangelização: proclamar a grandeza e a dignidade do homem, recuperadas na redenção. “A tarefa fundamental da Igreja de todos os tempos e, de modo particular, do nosso tempo, é a de dirigir o olhar do homem e de endereçar a consciência e a experiência de toda a humanidade, para o mistério de Cristo”
[6].

6. Nesta Semana Pascal somos chamados a fazê-lo, através da Liturgia, na profundidade da nossa fé. Assim, cada Páscoa celebrada será redescoberta do sentido da vida do homem e da sua história.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] JOÃO PAULO II, Redemptor Hominis, nº 7
[2] Ibidem, nº 9
[3] Ibidem, nº 8; cf. G.S. nº 22
[4] Ibidem, nº 10
[5] Ibidem
[6] Ibidem

Homilia do Domingo de Ramos 2007

“O verdadeiro rosto do Messias”

1. A Liturgia deste Domingo de Ramos, início da Semana Maior, chamada Santa porque nela se celebra a Páscoa, convida-nos a mergulhar na verdadeira dimensão do Messias, o ungido do Senhor, esperado como libertador do Povo de Deus e salvador de toda a humanidade. Compreender a verdadeira dimensão da missão messiânica é mergulhar na realidade actual de Jesus Cristo, da Igreja que vive da Sua Páscoa e é o seu corpo, da humanidade contemporânea, tão necessitada de redenção.
A esperança messiânica constitui dimensão central na espiritualidade de Israel. As referências nos textos sagrados ao Messias esperado, traçam aspectos complementares da missão desse ungido do Senhor: a glória e a grandeza da realeza, ele será o verdadeiro Rei de Israel que libertará o Povo de todos os seus opressores; o Servo obediente e sofredor, com ouvidos de discípulo, que carrega sobre os ombros os pecados do Povo; o Filho do homem celeste, que há-de aparecer sobre as nuvens do Céu, revestido da glória da divindade, inaugurando o triunfo definitivo de Deus. Cada uma destas dimensões da missão messiânica dera origem a tradições teológicas e espirituais específicas, sendo a do Messias sofredor a menos desenvolvida, porque mais exigente e incompreensível. Para estes grupos, cada uma destas dimensões definia o Messias, incapazes que eram de fazer a síntese das três num único Messias salvador.
Os próprios acontecimentos daquela semana pascal, exprimem esta incapacidade de síntese. A multidão que aclama Jesus, como Messias Rei, nas ruas de Jerusalém, não suportará, como manifestação messiânica, a condenação à morte e o suplício da Cruz. Os próprios discípulos dispersam-se atordoados e escandalizados. E nem uns, nem outros, estão preparados para a surpresa da ressurreição, o verdadeiro triunfo do Messias, que realiza a grandeza do Messias Rei e a glória da Divindade. Essa visão profunda e total da missão messiânica só Cristo a tem, acompanhado de perto por sua Mãe Maria Santíssima. A oração angustiada, no Jardim das Oliveiras, mostra-nos que Jesus estava só com Deus, Seu Pai, ao abraçar a missão de Messias em toda a sua grandeza.
Este é, também, o destino da Igreja. Quanto mais mergulha na profundidade da missão de Jesus Cristo, actualizando-a, isto é, dando-lhe a densidade de cada momento concreto da história da humanidade, mais fica só, com Jesus Cristo. Não pode esperar que o mundo a compreenda e a aplauda. Isso pode acontecer, em circunstâncias concretas, como Jesus foi aclamado nas ruas de Jerusalém. Mas aceitar a radicalidade da Cruz e a ressurreição de Cristo como único triunfo com sentido, não é fácil, mesmo para os cristãos. Também hoje, viver com radicalidade a Páscoa de Jesus, não vergar às exigências do mundo e oferecer, com Cristo, a dor que salva, é sempre uma experiência de solidão. Nunca como na Páscoa, a Igreja está só com Jesus Cristo.

2. Na Igreja a Páscoa é a verdadeira síntese de todas as dimensões da missão messiânica e salvífica de Jesus. A Carta de Paulo aos Filipenses é disso testemunho: de condição divina, aniquilou-se a Si mesmo, tomando a condição de Servo. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu o Nome que está acima de todos os nomes (cf. Fil. 2,6-11). A condição de Servo foi anunciada, com pormenor impressionante, pela profecia de Isaías (cf. Is. 50,4-7), e descrita, com sabor de relato histórico, pelo evangelista São Lucas (cf. Lc. 22,14-23,56).
Nesta síntese da nova Páscoa, praticamente desaparece o triunfo messiânico, como o que aconteceu nas ruas de Jerusalém. O verdadeiro triunfo messiânico exprime-se na obediência do Servo, que oferece a sua vida pelo resgate da multidão, e na ressurreição, que São Paulo mostra bem ser o ponto culminante da Paixão. A ressurreição de Jesus é a afirmação do verdadeiro fruto do sofrimento oferecido, e ao ser-lhe dado o nome de “Kúrios”, Senhor, Ele é, para todo o sempre, o verdadeiro Filho do Homem celeste, que um dia há-de manifestar a Sua glória a toda a humanidade, com a autoridade que lhe confere o facto de ser humano.
Esta é a Páscoa da Igreja. O triunfo na praça pública, mesmo quando é espontâneo e sincero, é efémero, não traz a marca do definitivo, não exprime a verdade profunda de uma humanidade redimida. A Igreja é humana, vive no tempo, sabem-lhe bem os triunfos próprios deste mundo. Mas abraçar a Cruz exprime melhor a sua vitória. Os triunfos e as derrotas da Igreja não se medem com os critérios das vitórias e dos fracassos deste mundo. Os seus triunfos só podem ser a irradiação da glorificação de Cristo, exprimem-se na construção do Reino de Deus, silencioso e discreto, até à manifestação definitiva.

3. Assim, a Liturgia deste Domingo constitui, verdadeiramente, a introdução à celebração da Páscoa cristã, onde a Cruz e a Ressurreição mantêm a sua actualidade perene, expressões do triunfo do Messias Servo, a Quem a Igreja chama Senhor. Seria erro grave considerar a Cruz como realidade ultrapassada pela ressurreição. O Senhor da Igreja, o nosso Salvador, é, ainda hoje, até ao fim dos tempos, Cristo morto e ressuscitado. A humanidade continua em processo de redenção, o que exige a actualidade do sacrifício do Messias-Servo.
A Cruz é realidade actual para Cristo redentor e para a humanidade redimida. Sobretudo na Eucaristia, Cristo continua a oferecer a Deus a sua vida pela salvação dos homens. A sua ressurreição revela a verdadeira dimensão do seu sacrifício, só possível com a força de Deus. A ressurreição é o sinal de que Deus aceitou o sacrifício do seu Filho e de que a humanidade está, verdadeiramente, redimida.
Mas a Cruz exprime, também, o realismo do dom da Igreja. Identificada com Cristo, pelo baptismo, a Igreja oferece com Cristo e os cristãos podem viver o sofrimento e as provações da fé, unidos a Cristo, dando actualidade à sua Cruz. São Paulo exprimiu-o, com realismo impressionante, dizendo que os cristãos, no seu sofrimento, contemplam a Cruz de Cristo (cf. Col. 1,24). Ser discípulo é tomar a própria cruz e seguir o Senhor (cf. Mt. 16,24).
Há uma dimensão universal nesta actualidade da Cruz de Cristo, vivida pela Igreja. A Igreja pode oferecer mesmo o sofrimento daqueles que não conhecem Cristo. A Eucaristia é a mais profunda resposta da Igreja ao sofrimento do mundo, donde brota a exigência da caridade.

4. A Liturgia deste dia, que começa com a evocação do triunfo messiânico de Jesus nas ruas de Jerusalém, conduz a Igreja para a profundidade humilde da Páscoa, denúncia de todos os triunfalismos humanos, afirmação da silenciosa esperança do grão de trigo que, morrendo, será fecundo. A Páscoa celebra-se na lógica do Reino dos Céus, que por enquanto é fermento na massa, essa jóia escondida e ignorada, que a Igreja encontra em cada Eucaristia que celebra.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca