segunda-feira, março 30, 2009

Catequese do 5º Domingo da Quaresma 2009

“Uma Palavra de Amor”

Sé Patriarcal, 29 de Março de 2009

Introdução
1. Só sentimos verdadeiramente a importância da Palavra de Deus na nossa vida, quando nos acontece acolhê-la como Palavra de Amor. E o que é verdade para cada um de nós, é-o para a Igreja, para o seu ser e para a sua missão: ser continuamente surpreendida por essa Palavra amorosa que a desafia a ser comunhão, a anunciar, com amor, o amor de Deus, a responder-lhe com a vida que se torna louvor.
Só o amor transforma o coração do homem. João Paulo II, na sua primeira Encíclica, escreveu: “O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se não o experimenta e se o não torna algo de seu, se nele não participa vivamente”[1].
Fomos criados assim: seres que podem amar e precisam de ser amados e que encontram aí o segredo da sua vida. Criados à imagem de Deus, homem e mulher para serem um só, em comunhão. A ausência do amor leva à alteração grave da identidade humana. A redenção só pode consistir nisso: restituir ao homem a capacidade de amar e de ser amado, de viver com os outros em comunhão. E daí a força transformadora de uma palavra de amor, que nos faz sentir que somos amados e é um convite a responder-lhe generosamente. Uma palavra de amor é mais transformadora que a palavra dirigida à inteligência. Esta alimenta o pensamento, conduz na busca da verdade e na interpretação da realidade, mas não tem o impacto de uma palavra de amor. Isto constitui a diferença, na comparação entre a sabedoria bíblica e a sabedoria grega, entre a Palavra (dabar), que sem deixar de iluminar a inteligência, transmite a força criadora do amor de Deus, e “vous”, a palavra que conduz a inteligência na busca da sabedoria.
A “dabar”, o “Verbo”, dirige-se ao coração onde se encerra o sentido do homem como ser espiritual.
Que a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus e que Deus nos ama são lugares comuns na linguagem crente. Mas será possível quando escutamos essa Palavra, no momento presente e na circunstância concreta da nossa vida, escutá-la como Palavra amorosa, com a força surpreendente e perturbadora de uma Palavra de amor?

O Deus amor só pode pronunciar Palavras de amor
2. A revelação ensina-nos que Deus é mais do que alguém que ama: “Ele é amor” (1Jo. 4,8). A plenitude de Deus é-nos, assim, revelada como uma infinita voragem de amor. Se Deus fala, a Sua Palavra comunica essa intensidade. Desde toda a eternidade, Deus pronunciou uma única Palavra, o Seu Verbo, tão eterno como Deus, que nos será revelado como Seu Filho, no qual Deus se diz totalmente, como amor infinito, desde a eternidade e para a eternidade. Este amor infinito de Deus Pai pelo Seu Filho, ser-nos-á revelado como uma terceira pessoa divina, o Espírito Santo. Deus é, pois, um infinito de amor, a perfeição da comunhão entre Pessoas, iguais e distintas. O Seu Verbo eterno, a Sua Palavra é, antes de mais, uma Palavra de Deus Pai para o Seu Filho, que provoca como resposta uma Palavra do Filho, de ternura filial, para com Deus Pai. Esta Palavra do Pai e do Filho encontram a sua expressão no Espírito Santo.
O Verbo eterno é a única Palavra de Deus. Só nela Deus se exprime, na intimidade do seu mistério e no seu poder criador. Por essa Palavra, Ele criou todas as coisas, criou o homem para alargar a sua comunhão. Só por essa Palavra o podia redimir, salvando-o, no gesto máximo de amor desse Filho, em obediência à vontade do Pai, que renunciou à sua condição divina e se fez homem (cf. Fil. 2,6).
A primeira condição para escutar a Sagrada Escritura como uma Palavra de amor de Deus, é acreditar e perceber que Jesus Cristo é a única Palavra que Deus pronunciou, cuja mensagem de amor divino se foi explicitando progressivamente através dos Profetas nas próprias palavras humanas de Jesus e também nos acontecimentos que manifestaram a solicitude de Deus pelo Seu Povo.
Depois de Jesus Cristo, Palavra eterna de Deus, a Igreja percebeu que escutar o Antigo Testamento era escutar as palavras de amor que Deus foi dirigindo à humanidade desde o início, expressões da sua única Palavra eterna, Jesus Cristo. Como diz São João, desde o princípio é verdade que aquele que escuta essa Palavra eterna, entra na voragem do amor divino: “Naquele que guarda a Sua palavra, o amor de Deus atingiu verdadeiramente a sua perfeição” (1Jo. 2,5). É por isso que a Eucaristia é o momento em que se escuta mais profundamente esse Verbo eterno de Deus, porque aí nos sentimos verdadeiramente amados, por Deus e pelos irmãos, e respondemos ao amor, fazendo da nossa vida dom a Deus, aos irmãos, a todos os homens, a todas as causas do Reino de Deus.

A Palavra de Deus escutada como anúncio da salvação
3. A solicitude pela salvação do homem é a principal manifestação do amor de Deus pela humanidade, que atravessa toda a Sagrada Escritura. A Palavra que anuncia a salvação é, necessariamente, uma Palavra de amor. E salvar é reconduzir à intimidade da comunhão. O caminho escolhido é a aliança, contexto da solicitude e da proximidade de Deus com toda a humanidade, nos dias de Noé, com um Povo escolhido na revelação a Abraão, aliança tantas vezes quebrada e sempre renovada por Deus, até à sua ratificação definitiva, a nova e última aliança selada no sangue de Jesus Cristo, que volta a exprimir-se como aliança com toda a humanidade, de que a Igreja, Corpo de Cristo, será o sacramento. Salvar é libertar de um perigo. E o mais grave perigo que pesava sobre a humanidade, desde a infidelidade de Adão, era o de falhar o amor, falhando, assim, a própria vida. Ao Povo que quer salvar, Deus envolve-o de solicitude, liberta-o de outros perigos, o que exprime a sua vontade de salvar. As palavras com que anuncia a salvação são sempre expressão da Sua Palavra de amor.
Escutemos algumas dessas palavras de anúncio da salvação: “Os filhos de Israel gemiam na servidão e ergueram até Deus o seu grito de socorro na sua servidão. Deus ouviu os seus gemidos, e recordou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacob. Deus viu os filhos de Israel e conheceu-os” (Ex. 2,23-25). O coração de Deus foi tocado pela aflição do Seu Povo, e diz-lhe através de Moisés:
“Não tenhais medo. Permanecei firmes e vede a salvação que o Senhor fará para vós hoje (…) O Senhor combaterá por vós e vós ficareis tranquilos” (Ex. 14,13-14).
Esta promessa de salvação há-de repetir-se, através de toda a história de Israel, Palavra de amor sempre repetida, no realismo e na actualidade das circunstâncias, em todos os Profetas, até Jesus Cristo. Isaías fala em nome de Deus: “Sou eu, o que professa a justiça, e me revelo grande para salvar” (Is. 63,1). E Deus disse: “verdadeiramente este é o Meu Povo, filhos que não me renegarão. E foi para eles um salvador. Em todas as suas aflições, não foi um mensageiro, nem um enviado que os salvou, mas foi Ele em pessoa. Com a sua ternura, livrou-os do perigo” (Is. 63,8-9).
Mas é em Jesus Cristo, a encarnação da única Palavra de Deus, que esta urgência amorosa da salvação se manifesta. É assim que o Anjo anuncia o Seu nascimento: “Anuncio-vos uma grande alegria, que será a alegria de todo o Povo: hoje, na cidade de David nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc. 2,11). Jesus sabe que essa é a razão de ser da Sua vida, Ele veio procurar e salvar os que estavam perdidos (cf. Lc. 19,10). Ele é a manifestação do desejo de Deus em salvar: “Deus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho único para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não será condenado” (Jo. 3,15-18).
A Páscoa de Jesus é a Palavra de Deus decisiva para a salvação do mundo. Jesus sente a urgência, própria de um grande amor, de ver consumado o Seu dom: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco antes de sofrer”. Ele sabe que a Sua entrega é a Palavra decisiva da aliança definitiva, “cálice da nova Aliança no Meu sangue” (Lc. 22,15.20). A salvação acontece em quem escutar essa Palavra decisiva. Escutá-la supõe a fé em Jesus Cristo; é pela fé que chegamos à salvação.

A uma Palavra de amor responde-se com amor
4. A Palavra de amor, quando é escutada, suscita a resposta adequada. Ao amor responde-se com amor. No plano pessoal a resposta de amor exprime-se na fé que é, em si mesma, a primeira experiência da caridade. Escutar Jesus Cristo é mergulhar n’Ele sem limites, aceitar a mudança que Ele introduz na nossa vida, porque a salvação começa por ser uma experiência de vida nova, conduzida pelo Espírito. A primeira resposta à escuta da Palavra é o desejo de conversão, predispondo-se o crente a colaborar com a sua vontade, com a graça de Deus de quem se espera a renovação interior. A conversão supõe o desejo e vontade pessoais, mas exprime-se na esperança da conversão.
Simultâneo a este desejo de conversão, a escuta da Palavra onde reconhecemos o amor de Deus por nós, é o louvor de Deus expresso em tudo o que fazemos, e assumido intensamente na oração como expressão de comunhão com Ele. Ela é o primeiro sinal da conversão a acontecer.

A palavra da Igreja deve ser uma palavra de amor
5. Já desde o Antigo Testamento se tornou claro que a Palavra de Deus é dirigida, antes de mais, ao Seu Povo. Para nós cristãos, ela é a Palavra dirigida à Igreja, o novo Povo de Deus, a quem Deus revela continuamente o Seu amor na Pessoa de Jesus Cristo, a única Palavra de Deus. Cristo ama a Igreja como um esposo ama a esposa. A Igreja é, na profundidade do seu mistério, fruto do amor de Deus, actual, activo, transformador e criador, expresso continuamente no dom do Espírito Santo.
Cristo deu à Sua Igreja o privilégio inaudito de falar em seu nome, quer quando proclama o Seu Evangelho, quer quando fala para orientação dos fiéis em cada tempo e em todas as circunstâncias. E isso exige que também a palavra da Igreja seja uma palavra de amor. É esta exigência que garante a autenticidade da palavra da Igreja e, em última análise, a julga. A palavra da Igreja deve levar aqueles que a escutam a sentirem-se amados por Deus.
Esta exigência exprime-se, antes de mais, na evangelização. Anunciar Jesus Cristo e o Seu Evangelho é manifestação de amor a Ele e aos homens, porque acreditamos que o anúncio do Evangelho é bom para eles, lhes abre um horizonte de vida novo. Evangelizar é uma urgência de amor.
É também por isso que o dinamismo que une os cristãos é a caridade, é o mandamento novo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. A verdade da Igreja passa por aí; é assim que ela é fiel ao Espírito Santo.
Esta caridade fraterna exprime-se na imensa variedade de situações da vida das pessoas e das comunidades: o acolhimento, o aconselhamento, a partilha de bens, a atenção ao sofrimento e à solidão. É o vasto mundo da caridade, em que a caridade da Igreja se exprime também em atitudes e que faz com que todos se sintam amados por Deus.

6. Uma concretização desta exigência da palavra da Igreja ser sempre palavra de amor é a proclamação e a defesa da verdade, porque em Deus a verdade e o amor coincidem. Se nós fossemos capazes de comunicar esta certeza de que a nossa defesa intransigente da verdade, que recebemos da Palavra de Deus é uma exigência de amor, não entraríamos na polémica do simples confronto de ideias ou das diversas compreensões possíveis da vida. A Igreja não comunica uma teoria, mas a verdade em que acredita e que recebeu de Jesus Cristo. Fiel à Palavra de Deus e à Tradição que recebeu dos Apóstolos, a Igreja não tem autoridade para adaptar a verdade ao sabor das mudanças do tempo e das circunstâncias. Pensar que é amor por pessoas concretas em circunstâncias precisas, alterar ou relativizar a Verdade, é ser infiel à sua missão. A Igreja sabe que é chamada a sofrer pela verdade.
Verdade e amor exprimiu-os Deus numa só Palavra de amor, o Verbo eterno de Deus que nós reconhecemos em Jesus Cristo. Só n’Ele podemos reconhecer o rosto da Palavra.

†JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] Redemptor Hominis, nº 10

Catequese do 4º Domingo da Quaresma 2009

“A Palavra e a Vida”

Sé Patriarcal, 22 de Março de 2009

Introdução
1. Neste conjunto de catequeses sobre a Palavra de Deus, é inevitável aprofundar a relação da Palavra de Deus com a vida.
Este é um tema importante na nossa sociedade contemporânea. Passa por aí a orientação ética do nosso viver em conjunto e os valores que inspiram a nossa sociedade. A sua grandeza ou fragilidade giram à volta de uma cultura da vida, que é o pano de fundo e a compreensão envolvente de decisões sectoriais, ao nível político e legislativo, no campo do Direito, e das opções da liberdade individual, domínio da ética e da moral.
A compreensão da vida que domina o nosso ambiente cultural está cheia de contradições: se por um lado a ciência lhe desdobra continuamente o horizonte maravilhoso, tanto na descoberta e compreensão da biodiversidade, como no conhecimento da complexa maravilha do ser humano, por outro permite agressões destruidoras nessa biodiversidade, e legaliza destruições da vida humana, tanto no seu início no seio materno, como na fase terminal da existência terrena. Proclamam-se, solenemente, os direitos do homem e a sua dignidade, mas pactua-se, tolera-se ou promove-se mesmo a violação contínua desses direitos. Não se é capaz de integrar harmonicamente na compreensão da vida, a sua grandeza e a sua precariedade e o sofrimento aparece incompatível com uma certa compreensão da felicidade. Embora sabendo que o homem é matéria e espírito, não se introduz na compreensão da vida as suas insondáveis potencialidades, contidas como semente, como potência, no mais íntimo do mistério do homem, que nos abrem para os horizontes do espírito, para a beleza, para a generosidade do amor, para a fé em Deus vivo e fonte da vida, para a plenitude da vida.
Para nós cristãos esta visão cultural é indesligável da Palavra de Deus, que nos revela e nos comunica a vida, que nos convida a enquadrar a nossa existência presente no horizonte alargado da sua plenitude e da sua verdade definitiva. Só assim poderemos influenciar uma cultura da vida comum a toda a sociedade.
O Deus vivo é a fonte da vida
2. O primeiro dado que a experiência nos comunica é que a vida tem uma fonte. Só um ser vivo comunica a vida. Esta recebe-se sempre de alguém que a comunica, que a partilha. Ninguém vive a partir de si mesmo e só para si mesmo. E a natureza também nos ensina que o processo dessa comunicação é a mais bela e intensa expressão da própria vida.
A primeira verdade que a Palavra nos transmite é que Deus é a origem da vida: Ele é vivo e é a fonte da vida. Isto diz-nos que acreditar em Deus e viver relação confiante com Ele é elemento decisivo para a sua compreensão. Se só um ser vivo transmite a vida, só Deus resolve o enigma fundamental da origem primeira da vida. Se esta procede d’Ele, Deus é a fonte da sua grandeza e da sua dignidade.
Ser vivo é, na Sagrada Escritura, o principal atributo de Deus. Josué disse aos Israelitas: “Aproximais-vos e escutai a Palavra do Senhor vosso Deus. Assim reconhecereis que um Deus vivo está no meio de vós” (Jos. 3,9-10). O homem, ser vivo, sabe que recebeu a vida de Deus e viver é sentir-se atraído por essa fonte da vida: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei contemplar a face de Deus?” (Sl. 42,3). O crente é um servo do Deus vivo (cf. Dan. 6,21), só pode jurar pelo Deus vivo (cf. Juiz. 8,19). O israelita sabe que ser vivo é o atributo de que Deus gosta mais: “Eu sou vivo e a glória de Yahwé enche toda a terra” (Nm. 14,21).Os seres vivos são, pois, em toda a terra, a proclamação da glória de Deus.
No Novo Testamento a fé na divindade de Jesus exprime-se na convicção de que Ele, o Filho de Deus, é O vivo, é a fonte da vida, com a particularidade de que n’Ele, Filho de Deus feito Homem, essa plenitude é a plenitude da vida humana, porque Ele, homem, recebe tudo o que Deus, O vivo, lhe pode e quer comunicar. Cristo torna-Se, assim, a fonte e o caminho da vida: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14,6).
Em Nosso Senhor Jesus Cristo está encerrado todo o mistério e todo o itinerário da vida. Como Verbo eterno de Deus, Ele era vivo desde toda a eternidade (cf. Jo. 1,14). Ele é o Verbo da vida (cf. 1Jo. 1,1). Ele é, verdadeiramente, a fonte da vida: “Com efeito, como o Pai dispõe da vida, assim concedeu ao Filho poder dispor da vida” (Jo. 5,26); “Ele era a vida de todos os seres e a vida era a luz dos homens” (Jo. 1,4). Por isso, Ele a pode comunicar em abundância: “Eu vim para que as minhas ovelhas tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo. 10,10). Porque esta plenitude de vida se torna, em Cristo, plenitude de vida humana, para quem se une a Cristo pela fé e pelo baptismo, Cristo é a fonte da vida, a garantia do seu aprofundamento contínuo, até atingirmos, no Céu, a plenitude que está n’Ele. São Paulo exclamará: “Para mim viver é Cristo” (Fil. 1,21). Em Cristo, a vida manifesta-se na sua qualidade de dom recebido e dom partilhado. Ele põe a claro o seu dinamismo fundamental.

Viver é ser fiel
3. Tendo consciência de que recebeu de Deus a vida, o homem só a pode viver num contacto contínuo com a sua fonte, percorrendo os caminhos que Deus lhe comunica pela Sua Palavra, e propõe continuamente ao Seu Povo: “Eu coloco diante de vós os caminhos da vida e os caminhos da morte” (Jer. 20,8); “Tu me ensinarás os caminhos da vida, diante da tua face, plenitude de alegria; à tua direita delícias eternas” (Ps. 16,11). No caso de Cristo, já vimos que se afirma como caminho e vida. Isto mostra-nos que ser fiel é viver. “O justo viverá pela sua fidelidade” (Há. 2,4), diz o Profeta Habacuq. A mesma convicção proclamará São Paulo: “O justo viverá pela sua fé” (Rom. 1,17).
Viver a vida como fidelidade é o fundamento das exigências morais na nossa caminhada. Antes de mais reconhecermos que não somos senhores da vida, mas seus servidores. Reconhecer a sua fonte é procurar que a vida em nós tenha a mesma pureza e autenticidade que tem em Deus, embora não a partilhemos ainda em plenitude. Depois devemos seguir, com docilidade e obediência, os caminhos que Deus nos indica pela Sua Palavra; devemos partilhar a vida, porque na sua fonte divina ela é dom e partilha. Para nós cristãos, viver na fidelidade é sermos fiéis a Jesus Cristo.

O pecado e a morte
4. A morte aparece como a destruição da vida. Para quem gosta de viver ela aparece como uma desgraça. Os justos do Antigo Testamento, para quem a morada dos mortos não era vida verdadeira, sofrem com o fim da existência terrena e pedem a Deus que os faça viver, porque na morada dos mortos Ele não será louvado e, por isso, a vida não será participação na vida divina. A pouco e pouco vai fazendo caminho a convicção de que a morte pode ser vida, se for oferecida. Encontramos essa convicção no Livro dos Macabeus (cf. 2Mc. 7,23.36), mas sobretudo em Isaías, no poema do Servo sofredor, anúncio do Messias. Em Cristo essa convicção torna-se verdade definitiva, porque a morte de Cristo, vida oferecida por amor, não só é vida, mas revela-se como a sua fonte definitiva.
Mas na Sagrada Escritura a primeira negação da vida é o pecado. Este aparece como a pretensão de a autonomizar da sua fonte, vivê-la como se o homem dela fosse senhor, não apenas da sua, mas da dos outros e de todas as outras expressões da vida. Foi esse o pecado de Adão: querer viver a sua vida como se fosse senhor absoluto dela, desconhecendo Deus como sua fonte e os caminhos de vida que o Senhor lhe tinha revelado (cf. Gen. 3). É por isso que na Sagrada Escritura o pecado é chamado morte, conceito que não significa tanto o fim da vida, mas a sua adulteração, uma traição à vida.
É sobretudo o Apóstolo Paulo que estabelece a relação entre o pecado e a morte; o pecado é uma forma de morte, mais grave que a morte física, porque em Cristo esta afirma-se como expressão de vida. Pelo pecado de Adão, a morte estendeu-se a toda a humanidade; pela morte de Cristo, expressão máxima da vida como dom, a verdadeira vida é restituída a todos. É o mistério da redenção que consiste na restituição ao homem da possibilidade de viver verdadeiramente. Porque apesar do pecado e da morte que este significa, Deus não desiste da vida, quer que o pecador volte a viver. Deus chama agora os homens à vida, não a partir do nada, mas a partir da sua experiência de morte e de pecado que os tinha afastado da verdadeira vida. Encontramos essa mensagem já nos Profetas: o anúncio da redenção é a firme decisão de Deus de recuperar para a vida o pecador: “Por minha vida, oráculo do Senhor, não tenho prazer na morte do pecador, mas no seu regresso, que o faça mudar de caminho para ter a vida. Voltai do vosso mau caminho. Porque haveríeis de morrer, casa de Israel?” (Ez. 33,11).
Este regresso aos caminhos da vida tornou-se possível pela morte de Cristo. Ao viver a morte como plenitude da vida, totalmente oferecida, Cristo venceu a morte que o pecado tinha provocado. Segundo Paulo, Cristo venceu todos os inimigos, e o último inimigo a ser vencido foi a morte (cf. 1Cor. 15,26). A redenção consiste no retomar os caminhos da vida e isso só é possível em Cristo, que ao fazer-nos participar na Sua ressurreição, nos promete a plenitude da vida, corpo e espírito, tão esfacelada pelo pecado e pela morte. O drama da vida está intimamente ligado ao drama da Páscoa, que estamos a celebrar.
5. Podemos perguntar-nos em que medida esta morte provocada pelo pecado, que se apresenta como afastamento dos caminhos da vida, se confunde com a nossa morte, a morte física, que marca o fim da nossa existência terrena, como a conhecemos. Dada a universalidade do pecado, este atingiu a morte física de todos os homens, e torna difícil imaginar como seria a morte física sem o pecado. Mas o que é certo na fé cristã é que Cristo venceu a morte, morrendo por amor e restituiu à humanidade pecadora a possibilidade de retomar os verdadeiros caminhos da vida. Todo o cristão pode vencer, vivendo em Cristo, o pecado e a morte. Isso não significa que deixe de morrer, mas a sua morte pode tornar-se expressão e passagem decisiva para outros horizontes de vida. E esta é a nova situação do homem perante a vida e perante a morte. Quem não venceu o pecado, não vence a morte. E continua a haver muitos que morrem sob o signo do pecado. Para eles a morte é fim, é drama ou fatalidade. Viver a morte sob o signo da vida, torna possível viver a morte como oferta de amor, fazer dela um momento de entrega da vida a Deus; a morte é, então, momento alto da confiança e do abandono, expressões nobres da obediência da fé. É expressão decisiva da nossa união a Cristo e de morrer na morte de Cristo, esperando que ela seja, como a d’Ele, passagem para a plenitude da vida. São Paulo resume toda essa densidade na expressão “morrer para o Senhor”. Viver a nossa morte unidos à morte de Cristo, permite-nos dar-lhe sentido, o mesmo da Sua morte: redenção do homem, a nossa redenção, esperança da ressurreição. Morrer assim é experimentar a síntese entre o baptismo, a Eucaristia e a morte. A nossa redenção consiste nisso: abrir-se definitivamente à vida em Deus.

Em Deus está a vida eterna
6. Se Deus é a fonte da vida, nós aspiramos à plenitude e à eternidade. Participamos na vida divina, que se tornou próxima da nossa realidade em Jesus Cristo e vivemos ao ritmo da vida em Deus. A vida humana deixa de ser um fenómeno, analisado pela ciência, circunscrito no tempo, reduzido às nossas capacidades de viver. A nossa vida é a mesma de Deus, dom contínuo do Espírito de Cristo ressuscitado. É em Deus que a nossa vida adquire a dimensão da eternidade. Só vivendo com Deus e como Deus, abriremos o nosso horizonte de vida à plenitude da eternidade. Só Deus é a nossa terra prometida. O nosso percurso é participação naquele que Jesus Cristo percorreu. Na Sua morte e ressurreição, a vida humana atingiu a plenitude em Deus. “Deus será tudo em todos” (1Co. 15,28).
Só a Palavra de Deus nos liberta duma perspectiva de eternidade como prolongamento da existência que conhecemos neste mundo, quando muito sem dor nem sofrimento. A vida eterna que desejamos sempre existiu em Deus e existiu plenamente num homem, Jesus Cristo, no qual começamos a viver a vida de Deus, experimentando que Ele é a vida, a fonte da vida, a promessa da vida. E nessa descoberta, somos conduzidos pela Palavra de Deus.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

segunda-feira, março 16, 2009

Catequese do 3º Domingo da Quaresma 2009

“A encarnação da Palavra humaniza o homem”

Sé Patriarcal, 15 de Março de 2009

Introdução
1. Nesta Catequese, continuamos a tentar ouvir o Senhor através do principal acontecimento da nossa história, fruto da potência da Palavra de Deus, Jesus Cristo, Verbo de Deus feito Homem. O que nos diz a humanidade de Jesus, que interpelações encerra para a nossa humanidade, para tudo o que é humano em nós? Jesus Cristo tem de ser, para nós, mais do que o primeiro santo da nossa devoção; Ele encerra o nosso segredo, Ele é a nossa solução. Retomaremos a este respeito os riquíssimos ensinamentos, quer do Concílio Vaticano II, quer do Papa João Paulo II na sua primeira Encíclica “Redemptor Hominis”. É aí que o Santo Padre afirma: “Cristo, o Filho de Deus vivo, fala aos homens também como homem: é a Sua própria vida que fala, a Sua humanidade, a Sua fidelidade à verdade e o Seu amor que a todos abraça. Fala ainda a Sua morte na Cruz, isto é, a imperscrutável profundidade do Seu sofrimento e do Seu abandono”[1]. Cristo fala-nos na Sua humanidade, ela é Palavra de Deus para nós. Procuremos escutá-la.

Ao fazer-se Homem, Cristo uniu-se a cada homem
2. O Verbo eterno de Deus feito homem, revestiu-se de uma humanidade concreta, a nossa humanidade, que guarda todas as potencialidades de grandeza e de dignidade, mas que está enfraquecida, ferida pelo pecado, tornada incapaz de fazer frutificar plenamente todas as capacidades com que foi criada. E segundo o Apóstolo Paulo, o homem marcado pelo pecado arrastou a própria criação para essa caducidade: ela foi sujeita à vaidade, porque o homem, no seu pecado a arrastou para isso, e espera ser liberta da escravatura da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus (cf. Rom. 8,20-22). O homem, a quem Deus entregou o mandato de gerir a criação, arrastou-a para a sua própria caducidade. E disso temos sinais contínuos e permanentes no mundo em que vivemos.
Foi esta humanidade que Cristo assumiu, humanidade a precisar de redenção e de libertação. Ele não é pecador, mas assumiu uma humanidade pecadora. E fê-lo porque quis que a Sua humanidade unida à humanidade de cada homem, se tornasse força de superação, isto é, de redenção. Cristo não é apenas mais um homem, une-se a cada homem e a todos os homens, para ser, na nossa dimensão humana, esse desafio de superação e de redenção. Na Sua encarnação, o Verbo de Deus uniu-se a cada homem, para revelar e recuperar a grandeza e a dignidade do homem. Recordemos este texto do Concílio: “Imagem de Deus invisível, Ele é o homem perfeito que restaurou na descendência de Adão a semelhança divina, alterada desde o primeiro pecado. Porque n’Ele a natureza humana foi assumida, não absorvida, por esse facto essa natureza foi elevada também em nós a uma dignidade sem igual. Porque, pela Sua encarnação o Filho de Deus se uniu, de certo modo, a cada homem, trabalhou com mãos de homem, pensou com uma inteligência de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem”
[2].
Esta união da humanidade de Jesus à humanidade de cada homem, faz com que, em Cristo, Filho de Deus feito homem, se encerre o segredo do homem, o seu mistério, a sua garantia última de realização plena. Diz o Concílio: “na realidade o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado”
[3].
Esta união da humanidade de cada homem à humanidade de Cristo radicaliza-se no cristão, que toma consciência dela, que a assume no baptismo e sabe que tudo o que em si é humano só encontrará a sua verdade plena, por estar enxertada na humanidade de Cristo que é força de redenção e de uma plenitude ainda maior do que aquela que estava anunciada na criação. A redenção não é só correcção do pecado, restituindo o homem à sua capacidade inicial. Esta é potenciada no inaudito da generosidade divina, que Deus não regateia ao Seu próprio Filho. A radicalização da união da nossa humanidade à humanidade de Cristo, realizada no baptismo, adquire conscientemente o ritmo da redenção. Essa é a primeira coisa que aprendemos ao contemplar a humanidade de Jesus: unida à d’Ele a nossa humanidade caminha para a plenitude ao ritmo da redenção. Recordemos como o Apóstolo Paulo fala do baptismo: “Acaso ignorais que, baptizados em Cristo Jesus, foi na Sua morte que fomos baptizados? Assim fomos sepultados com Ele, pelo baptismo, na morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos para a glória do Pai, vivamos também nós uma vida nova” (Rom. 6,3-4).
Que realismo e que profundidade! No baptismo a nossa humanidade foi enxertada na de Cristo, na dimensão que O define como redentor: a oferta sacrificial e a vitória sobre a morte, anunciada na maneira como Ele viveu a Sua morte.

A humanidade de Cristo e a dimensão sacrificial da redenção
3. A humanidade de Cristo introduz na nossa humanidade o dinamismo da redenção. Esta é mais do que um gesto misericordioso de Deus, de que nós beneficiamos. É um dinamismo transformador e recriador, introduzido na nossa humanidade, unida à humanidade de Cristo. Tudo o que é humano em nós pode ser recriado, a partir de Cristo. Como diz João Paulo II, “no mistério da redenção o homem é novamente «reproduzido» e, de certo modo, é novamente criado. Sim, ele é novamente criado”
[4].
A força recriadora da humanidade de Cristo, introduzida em nós quando Ele se une à nossa humanidade, é, antes de mais, a sua dimensão de vítima, a sua imolação voluntária, exprimindo na carne o amor primordial com que Deus criou o homem. Toda a vida humana de Jesus, desde o nascimento até à morte, é marcada por esta dimensão de imolação voluntária. A condenação à morte não é um percalço inesperado; é o ponto de chegada, a “sua hora”, de plena realização duma dimensão permanente. São Paulo, na Carta aos Filipenses, tem essa visão englobante de toda a existência terrena de Jesus: “Ele, de condição divina, não defendeu ciosamente essa situação que O igualava a Deus, mas aniquilou-Se a Si Mesmo tomando a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens” (Fil. 2,6-7). O Apóstolo começa, pois, por atribuir este apagamento da divindade, esta imolação, à própria encarnação do Verbo, que se refere a toda a vida de Jesus até à Cruz. Esta, continua o Apóstolo, é a expressão máxima de uma atitude permanente. “Tendo-Se comportado como um homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte na Cruz” (Fil. 2,8). Não foi só no sofrimento e na morte que Jesus Se ofereceu como vítima de redenção, mas em todas as expressões da Sua vida.
A redenção acontece em nós, na nossa humanidade, adquirindo este ritmo de Jesus Cristo, fazendo de tudo uma oferta, uma imolação, para a nossa redenção e para a redenção do mundo. Sendo o mais radical e decisivo, é o dinamismo mais exigente e mais difícil que a humanidade de Cristo introduz na nossa realidade humana. Exige que tudo o que é humano em nós seja vivido com essa exigência de superação redentora. A nossa humanidade, o amor, a alegria ou a dor, só encontrará a sua plenitude na humanidade de Jesus Cristo, como diz João Paulo II: “O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente (…), deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve apropriar-se e assimilar toda a realidade da encarnação e da redenção para se encontrar a si mesmo. Se no homem se der este processo profundo, então ele produz frutos, não só de adoração de Deus, mas também de profunda maravilha perante si próprio”
[5].
A união à humanidade de Cristo introduz em toda a nossa vida humana uma dimensão pascal. A principal afirmação do desejo de Jesus Cristo de unir a Sua humanidade à nossa é quando disse aos discípulos: “tomai e comei, isto é o Meu Corpo entregue por vós”. Podemos celebrar com Ele a Eucaristia, porque aceitámos viver a nossa vida com a exigência e o sentido da Sua humanidade.

A humanidade gloriosa de Cristo e o desafio da vida eterna
4. Escutar a Palavra do Senhor, contemplando a humanidade de Cristo, é também aceitar o desafio da vida definitiva, anunciada na humanidade gloriosa do Senhor. A humanidade de Cristo a que nos unimos inclui todo o seu itinerário, desde a concepção no seio de Maria até à ressurreição. O Seu corpo ressuscitado, o Seu corpo de glória, faz tanto parte da Sua humanidade como a Sua morte e o Seu amor com coração humano. Ao unir-Se ao nosso corpo, introduz nele a esperança da ressurreição e o dinamismo da vida em plenitude. E esta não é uma nova dimensão a acrescentar à maneira como vivemos a vida neste mundo. A tensão da plenitude da vida está tanto neste mundo como na eternidade. Em cada dinamismo humano, de amor e comunhão, de sofrimento e de dor, vivido unido ao Corpo de Cristo, está presente essa dimensão de plenitude e de eternidade.
Viver o momento presente com a tensão da eternidade exprime toda a densidade e exigência da vida cristã: é isso que celebramos em cada Eucaristia. É mais fácil para nós separar, com uma fronteira clara, a vida neste mundo e a vida eterna. Neste mundo, vivemos os nossos dinamismos humanos o melhor que pudermos, também com a ajuda do Senhor. A vida eterna não sabemos como é, esperamos que seja melhor. Mas não foi a isso que fomos chamados, no nosso baptismo. Unida a nossa humanidade ao corpo morto e ressuscitado de Cristo, somos chamados a viver toda a nossa vida humana ao ritmo da verdade e da fidelidade de Jesus Cristo. Em cada vivência humana experimenta-se e está já presente a plenitude da vida. Para nós, a vida eterna não é só a vida depois da morte; é a vida também na morte. A união da nossa humanidade à de Cristo, leva-nos a vencer a morte como ruptura, afirma a continuidade da vida, em todas as suas expressões, para todo o sempre. É por isso que o nosso amor ganha a pureza da caridade, a nossa inteligência, que busca a verdade, encontra no Verbo de Deus a serenidade da contemplação, o nosso sofrimento é oferecido pela redenção, contemplando a generosidade da Cruz de Cristo.
Esta dimensão pascal da vida humana tende a exprimir-se em toda a nossa existência. É mais fácil compreender, embora seja exigente, que o sofrimento e a morte podem ser oferecidos, com Cristo, para a redenção da humanidade. Mas são também as realidades positivas da vida humana que podem ser vividas, no Corpo de Cristo, com esta tensão de eternidade. A radicalidade da Cruz de Cristo e o surpreendente horizonte de eternidade que nos abre na Sua ressurreição, podem introduzir o dinamismo da imolação, da busca da plenitude na renúncia em dimensões da vida humana a que não teria sentido renunciar na lógica do mundo. Os mártires entregaram a vida, as virgens entregaram a Cristo toda a sua capacidade humana de amor, tantos renunciaram à realização humana e aos triunfos do tempo presente para partirem pelo mundo, peregrinos do Reino de Deus.
Estar unido ao Corpo de Cristo, morto e ressuscitado, introduz no nosso ritmo humano um grande desassossego. Nunca mais poderemos conceber a realização humana apenas como o mundo a concebe. Cristo tornou-nos, já na nossa vida presente, peregrinos do absoluto e da eternidade. “A Igreja, que não cessa de contemplar todo o mistério de Cristo, sabe com a certeza da fé que a redenção que se realizou na Cruz, restituiu definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo”
[6]. Cristo é, verdadeiramente, o caminho da plenitude do homem. Termino com um texto da Redemptor Hominis: “A única orientação do espírito, a única direcção da inteligência, da vontade e do coração para nós é esta: na direcção de Cristo, redentor do homem, na direcção de Cristo, redentor do mundo. Para Ele queremos olhar, porque só n’Ele, Filho de Deus, está a salvação”[7].

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] Redemptor Hominis, (RH), nº7
[2] Gaudium et Spes, nº 22; cf. RH, nº 13
[3] Ibidem
[4] RH, nº 10
[5] Ibidem
[6] Ibidem
[7] RH, nº 7

terça-feira, março 10, 2009

Catequese do 2º Domingo da Quaresma 2009

“É possível escutar a Palavra contemplando as suas obras”

Sé Patriarcal, 8 de Março de 2009
Introdução
1. Jesus ensina os seus discípulos a reconhecer aqueles que entraram na dinâmica do Reino dos Céus, os verdadeiros ouvintes da Palavra, pelos seus frutos, isto é, pela mudança que a Palavra realizou nas suas vidas. “Pelos frutos se conhece a árvore” (Mt. 12,33). Não é um convite a julgar as pessoas, mas a identificar os frutos da Palavra de Deus e assim chegar, pelo louvor, ao Deus da Palavra. Esse foi, em toda a história do Povo de Deus, um caminho seguro para reconhecer o Senhor nas maravilhas que realizava em favor do Seu Povo. A história da humanidade passa, assim, a estar semeada pela Palavra de Deus, não apenas porque ela foi pronunciada e poucos a escutaram, mas sobretudo pelas maravilhas que ela realizou e que falam, mesmo àqueles que nunca escutaram a Palavra pronunciada pelos Profetas. E porque as obras de Deus são fruto da Sua Palavra, chegar a louvar o Senhor através dessas obras é outro caminho para escutar a Palavra. As obras são outra linguagem em que se comunica aos homens a Palavra eterna de Deus.
Nesta Catequese, vamos percorrer as várias maravilhas de Deus, que, segundo a Sagrada Escritura, são fruto da Palavra, e aprender a reconhecer nelas o Senhor e a Sua Palavra.

A criação
2. Segundo a Escritura, toda a criação é fruto da Palavra de Deus. Deus disse e fez-se. Foi respondendo a essa Palavra eterna que passaram a existir o céu e a terra, a luz, o sol e a lua, a infinita variedade de seres vivos, o homem, plenitude da criação. Os espíritos simples e abertos podem, ao contemplar a beleza e a harmonia da criação, chegar ao seu Criador e reconhecer em cada criatura a marca da Palavra que a criou. Este perscrutar da criação para adorar o Criador, atravessa toda a história da salvação. Esse perscrutar da criação dá origem aos mais belos textos da Escritura, como são os Salmos que descobrem aí o poder criador da Palavra “que vence o nada e cria o ser”.
O salmista canta: “Pela Palavra do Senhor foram criados os céus, pelo sopro da Sua boca todo o seu exército (…) porque Ele falou e tudo foi feito, Ele mandou e tudo existe” (Ps. 33,6-9). Tenho perante mim a Mensagem dos Padres Sinodais que refere: “Temos, assim, uma primeira revelação «cósmica», que faz com que a criação se assemelhe a uma imensa página aberta diante de toda a humanidade, que nela pode ler uma mensagem do Criador: «Os céus narram a glória de Deus; a obra das Suas mãos o firmamento a anuncia. O dia ao dia comunica a mensagem e a noite à noite transmite a notícia. Sem linguagem, sem palavras, sem que se ouça a sua voz, toda a terra difunde o seu anúncio e até aos confins do mundo a sua mensagem» (Sl. 19,2-5)”
[1].
Jesus, ao ensinar os discípulos, ensina-os a ler, nesta página aberta que é a criação, a bondade providente de Deus. Convida-nos a contemplar as aves do Céu e os lírios do campo, cuja abundância e beleza são fruto da providência de Deus (cf. Mt. 6,25ss).
São Paulo não desculpa os pagãos de não conhecerem o Deus verdadeiro, pois Ele revela-se-lhes na criação: “O que se pode conhecer de Deus é-lhes manifesto, porque Deus lho manifestou. O que é invisível desde a criação do mundo, manifesta-se à inteligência através das suas obras, o seu poder eterno e a sua divindade” (Rom. 1,19-20). Portanto, a criação é para os pagãos caminho de revelação. E, na mesma Carta junta, num hino à sabedoria de Deus, a Criação e a Redenção: “O abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis os Seus decretos e incompreensíveis os seus caminhos! Quem, com efeito, alguma vez conheceu o pensamento do Senhor? Quem alguma vez foi o seu conselheiro? (…) Porque tudo é d’Ele, por Ele e para Ele. A Ele seja dada glória eternamente” (Rom. 11,33-36).
3. Esta página, que tem as dimensões do Universo, da revelação cósmica, fala-nos, antes de mais, da grandeza infinita de Deus. O homem levou milénios a ter consciência da grandeza do seu próprio planeta. A ciência moderna começou a levantar o véu sobre a grandiosidade do Universo em cuja infinitude gira, como ponto perdido, o planeta que habitamos. Esta grandeza da criação é cantada no Livro de Job (cf. Job. 38-41) e leva Job, diante dessa grandeza, a reconhecer a sua pequenez de criatura. A grandiosidade da criação abre-nos para o mistério do Deus infinito, criador e Senhor de toda a criação.
A grandeza da criação está ligada à sua beleza. Diz o Livro da Sabedoria “que a grandeza e a beleza das criaturas fazem contemplar o Seu autor” (Sap. 13,5). A beleza é, certamente, a dimensão mais eloquente da criação e abre-nos para a beleza de Deus, leva-nos mesmo a perceber que Deus é beleza. Diz o mesmo Livro da Sabedoria que o Autor da beleza é que criou as coisas belas (cf. Sap. 13,3).
Conto-vos um facto da minha experiência pessoal que nunca mais esqueci. Um dia em que regressava a Lisboa, o avião preparava-se para aterrar sobrevoando o rio e a cidade. Estava um pôr-do-sol radioso de luz e de cor. O piloto do avião convidou-me para contemplar esse espectáculo no “cockpit” do avião. Homem sensível, mistura de cientista e de artista, de pé, fez um autêntico hino à maravilha da luz que, segundo ele, encerrava o segredo de todos os seres. E rematou dizendo: perante esta beleza é difícil dizer que Deus não existe. A luz que encerra o segredo de todos os seres. Pensei que a luz é, na natureza e na arte, uma expressão principal da beleza; o meu pensamento voou até à liturgia pascal, àquele anúncio da luz, que inunda a nova criação da luz definitiva, Cristo nosso Redentor.
Deus é beleza! É na beleza das criaturas que tocamos que elas são obra do criador, a beleza eterna e a luz sem ocaso. Quem for sensível à beleza, descobrirá a beleza de Deus criador, na luz, na grandeza de paisagens com horizonte infinito, na majestade das montanhas e na infinitude do oceano, num sorriso de criança, na ternura de um gesto, na simplicidade de estender a mão ao seu irmão.
A grandeza e a beleza exprimem-se na harmonia da criação. A harmonia do Universo e essa maravilha que é o homem, e que os cientistas vão conhecendo, extasiados, cada vez mais, face à harmonia de um corpo dinamizado pelo espírito, verdadeira imagem da harmonia de Deus, que pudemos ver e tocar em Jesus Cristo, homem divino (cf. 1Jo. 1,1-3).

A História da Salvação
4. Na Bíblia a narração da criação aparece-nos como a primeira página de uma longa história, “o primeiro acto do drama que, através de manifestações várias da bondade de Deus e da infidelidade dos homens constitui a História da Salvação”
[2]. A criação, mensagem universal de revelação para todos os homens, alarga o horizonte da revelação e da história da salvação que abraça toda a história humana. Esta universalidade, já presente na teologia de Israel, torna-se clara na “nova criação” fruto da redenção de Jesus Cristo, Ele que é a plenitude da criação.
A história é o cenário da criatividade da Palavra e por isso esta encerra o segredo do sentido da história e da sua interpretação. A mesma Palavra que criou o mundo origina acontecimentos em favor do Povo de Deus. Ela é uma Palavra continuamente em acção, ela é acontecimento. É através dos acontecimentos que Israel toma consciência do amor salvífico de Deus: a passagem do Mar vermelho, o maná e as codornizes como alimento no deserto, a queda das muralhas de Jericó, as diversas vitórias sobre o inimigo. O presente e o futuro de Israel dependem desta Palavra criadora, os Profetas convidam o povo a ver Deus presente e em acção ao contemplarem as obras que realiza através da Sua Palavra.
E quando a história acontece só a partir da palavra humana de homens que se recusam a escutar a Palavra de Deus, o povo entra no caminho da desgraça e da derrota. A palavra dos profetas, se proclama a fidelidade de Deus, sempre presente na promessa de novas intervenções no futuro para quem acredita no poder criador da Palavra, também denuncia a infidelidade. A Palavra torna-se juízo e condenação; a Palavra de Deus é a consciência de Israel, é a luz que indica o caminho da fé, da justiça e da paz, a força que suscita a esperança. A profissão de fé do judeu crente e piedoso é a memória dos feitos que Deus, através da Sua Palavra realizou em favor do Seu Povo. Não é um enunciar de verdades, mas o recordar das acções salvíficas de Deus (cf. Deut. 4,9ss; 32ss; 26,5ss). É esta memória dos feitos salvíficos da Palavra que deve levar os crentes de Israel à circuncisão do coração e a adorar a Deus Seu salvador (cf. Deut. 10,12ss).
Mas a expressão máxima da criatividade salvífica da Palavra acontecerá na plenitude dos tempos, quando a própria Palavra eterna se torna carne e acontecimento decisivo da História da humanidade. O que se passa em Maria, naquele dia em que o Anjo a visitou é a mais sublime acção da Palavra de Deus em favor do Seu Povo, cujo horizonte é agora toda a humanidade. A encarnação do Verbo no seio de Maria é o acontecimento revelador de Deus e do Seu amor. É um acontecimento da história, carregado de sentido e gritante de revelação. Nunca mais se poderá escutar Deus e conhecê-l’O sem ser a partir daquele Menino que foi gerado no seio de Maria pela Palavra eterna de Deus. Maria é Mãe com toda a potencialidade feminina de maternidade, mas ela concebeu por força da Palavra. O Anjo, que é o mensageiro de Deus, disse-lhe: “tu conceberás e darás à luz um Filho” (Lc. 1,31). E Maria aceita, por obediência total à Palavra de Deus: “Eu sou a Serva do Senhor; aconteça em mim o que a Tua Palavra anuncia” (Lc. 1,38). É impossível penetrar neste mistério da concepção virginal de Jesus, se não a situarmos na história de um Povo habituado a acreditar na Palavra de Deus e a vê-la fazer maravilhas. Nesta maternidade, fruto da Palavra, realiza-se o encontro entre a acção da Palavra na criação e na história da salvação. O que se passa em Maria tem a força do acto criador: Deus disse e aconteceu. Deus inaugura a nova criação. Mas a Palavra age em Maria ao ritmo da história da salvação. A Palavra será criadora se for acolhida na obediência da fé. Aquele acontecimento será, para todo o sempre, fonte de sentido para a Igreja, onde a Palavra exercerá o seu poder criador sempre que for acolhida na obediência da fé.
É por isso que, para a Igreja, é possível chegar ao conhecimento de Deus e do Seu amor salvífico, contemplando as obras de salvação que vai realizando em nós, na Igreja, na humanidade. Esta acção da Palavra, no anúncio da Igreja, na acção sacramental, é obra de Jesus Cristo, a Palavra encarnada, e realiza-se pela força do Seu Espírito que Ele comunica à Igreja.

Contemplar as obras da Palavra, numa economia da graça
5. Já referimos como a Igreja primitiva teve a alegria de ver a Igreja crescer, fruto da eficácia da Palavra: a fecundidade da pregação apostólica, o nascer de comunidades, a paixão evangelizadora dessas comunidades, a força da comunhão (koinonia), a esperança escatológica dos “novos céus e nova terra”, chave da compreensão definitiva da história. Reconhecer essa acção da Palavra e do Espírito é abrir-se ao conhecimento de Deus em Jesus Cristo, e à compreensão definitiva do desígnio de salvação, mistério escondido desde séculos em Deus, e agora revelado aos crentes, protagonistas dessa nova gesta maravilhosa da Palavra (cf. Rom. 12,25-26; Col. 1,26-27; Efs. 3,3-12).
Este mergulhar em Deus, contemplando a acção da Sua Palavra e do Seu Espírito na Igreja e em cada um de nós, é um caminho perene de louvor e de adoração. Supõe a purificação de um coração crente, para não atribuir ao engenho humano aquilo que é iniciativa maravilhosa da graça. Convida-nos continuamente a uma meditação sobre a Igreja, mas também sobre a vida de cada um de nós. Pode ser mais importante que uma compreensão doutrinal o reconhecermos a acção de Deus em momentos concretos da nossa vida, momentos em que Deus ouviu a nossa oração e realizou o que lhe pedimos, circunstâncias em que Deus mudou o ritmo da nossa vida, nos chamou, nos fortaleceu e conduziu, nos enviou como cooperadores na obra da salvação.
Por outro lado esta perspectiva faz-nos tomar consciência do drama do nosso pecado, ao não acolhermos a Palavra na obediência da fé, não permitindo que ela realize em nós a obra da salvação. Também na Igreja e em nós, a Palavra é juízo, põe a claro a diferença entre fidelidade e infidelidade, é a fonte válida da dimensão ética da vida.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] Mensagem, nº 1
[2] X. Léon-Dufour, in Vocabulaire de Théologie Biblique, p. 172

Catequese do 1º Domingo da Quaresma 2009

“O poder criador da Palavra: as obras da Palavra”

Sé Patriarcal, 1 de Março de 2009

Introdução
1. Na Quaresma do ano passado, estávamos no período de preparação do Sínodo dos Bispos sobre a “Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”. As Catequeses Quaresmais sobre o mistério da Palavra revelada inseriram-se nessa preparação. O Sínodo realizou-se, e o seu eco chegou até nós através de uma belíssima Mensagem dirigida pelos Padres Sinodais a todo o Povo de Deus. As próprias propostas feitas pelo Sínodo ao Santo Padre, em ordem à redacção da Exortação Apostólica, foram tornadas públicas, além de outros elementos, como as homilias do Santo Padre e outras intervenções particularmente significativas, disponíveis nos meios de informação da Santa Sé. Temos, assim, elementos suficientes para continuar a aprofundar o tema, dada a importância decisiva da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. E essa é a primeira interpelação que o Sínodo nos lança: considerar a Palavra de Deus como elemento importante na nossa conversão, na nossa fé, na nossa fidelidade expressa na vida, na missão da Igreja na sociedade contemporânea, com particular relevância para o sentido novo de todas as coisas, e especial incidência na exigência ética da vida de cada um de nós e na vida da sociedade como um todo, numa circunstância particularmente problemática da nossa vida colectiva.
Na tradição bíblica, tanto do Antigo como do Novo Testamento, a Palavra de Deus aparece ligada a três dimensões da vida cristã e, no fundo, da vida de todos os homens: antes de mais ela é uma Palavra de revelação. Nela, Deus fala-nos e revela-Se; como Palavra, ela dirige-se à nossa inteligência e permite-nos conhecer Quem Deus é e os desígnios de vida que tem para nós. Depois, a Palavra manifestou-se como força criadora, eficaz, com poder de realizar aquilo que anuncia: “Vós sabereis que Eu, Yahwé, disse e fiz” (Ez. 17,14); e finalmente a Palavra de Deus é promessa, anuncia o que Deus fará pelo Seu Povo, até à plenitude escatológica. E porque a Palavra de Deus é eficaz, realiza aquilo que anuncia, a palavra da promessa torna-se o fundamento objectivo da esperança.
Este ano, no intervalo entre o Sínodo e a publicação, pelo Santo Padre, da Exortação Apostólica que esperamos, tendo em conta os desafios de autenticidade cristã que se apresentam à Igreja nesta sociedade complexa, em que vivemos, escolhi como fio condutor das Catequeses desta Quaresma o segundo aspecto, isto é, o poder criador da Palavra, que tem de ser compreendida no contexto mais vasto da eficácia sacramental da Igreja. Teremos de nos perguntar porque é que a Palavra de Deus, que tão abundantemente escutamos, não é eficaz, produzindo em nós, na Igreja a que pertencemos, a mensagem que anuncia. Porque é que a Palavra não nos mobiliza para um ideal de humanidade, carregado de grandeza ética, que além de ser fermento para toda a sociedade, seria o nosso caminho de santidade.

A Palavra criadora e salvadora
2. O judeo-cristianismo, na sua compreensão do homem e da história, é atravessado por uma convicção firme e basilar: Deus, pela Sua Palavra, age, intervém, cria e salva. A Sua Palavra está na génese de toda a realidade, da criação e da história. No pensamento bíblico, a criação não é uma emanação do divino, perspectiva presente em todos os panteísmos. Mas é obra de Deus, através da Sua Palavra criadora. A criação é fruto de um pensamento, de um desígnio divino, que Deus realiza através da Palavra: Deus diz e as coisas acontecem; basta Deus dizer, para elas acontecerem.
Ao contrário das cosmogonias antigas, a Bíblia explica a criação do mundo e do homem como fruto eficaz da Palavra pronunciada por Deus. “Deus disse e fez-se” (Ps. 33,6-9). A Palavra criadora é a fonte da inteligibilidade da criação, porque tudo é fruto da Palavra e esta é inteligível, é reveladora dum sentido, manifesta o desígnio que presidiu à criação.
O próprio homem, enriquecido com o dinamismo da evolução progressiva, é fruto de uma Palavra de Deus: “Façamos o homem à nossa Imagem!...” (Gen. 1,26). Criado à imagem de Deus, o homem é um ser livre, com possibilidade de intervir na sua vida e no seu destino. A partir do acto criador, a existência do homem sobre a terra transforma-se em história. Deus continua a ter um desígnio para essa história, a Sua Palavra intervém na história, é, desde o início, uma palavra de salvação, mas a eficácia criadora dessa Palavra pode encontrar a barreira na liberdade humana. Como diz a Mensagem dos Padres Sinodais, “A Palavra divina também está na raiz da história humana. O homem e a mulher, que são “imagem e semelhança de Deus” (Gén. 1,27) e que, por isso, levam em si a marca divina, podem entrar em diálogo com o seu Criador ou podem afastar-se dele e rejeitá-lo através do pecado. Então, a Palavra de Deus salva e julga, penetra na trama da história, com o seu tecido de vicissitudes e eventos: “Observei a aflição do meu Povo no Egipto e ouvi o seu grito… conheço os seus sofrimentos. Desci para o libertar do Egipto e o fazer sair desta terra para uma terra bela e espaçosa…” (Ex. 3,7-8). Há, pois, uma presença divina nas vicissitudes humanas que, mediante a acção do Senhor na história, são inseridas num desígnio mais alto, para que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tim. 2,4)”[1].
Uma das características desta Palavra, que está na origem da criação e intervém na história, é a sua eficácia. Ela realiza o que anuncia. O único obstáculo que pode encontrar, é a liberdade do homem que recusa a Palavra e escolhe outros caminhos. E então a própria Palavra põe a nu o pecado como recusa da liberdade humana. Na trama da história, a eficácia da palavra divina supõe a fé como disponibilidade humilde para aceitar a acção salvífica de Deus. O Profeta Isaías exprime esta profunda convicção com rara beleza profética: “Como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para lá sem terem regado a terra, a terem fecundado e feito germinar para que dê a semente ao semeador e o pão para alimento, assim a palavra que sai da minha boca não voltará sem resultado, sem ter feito o que Eu queria, e realizado a sua missão” (Is. 55,10-11).
Esta Palavra de Deus que desceu à terra é o Verbo que encarnou, ficou em acção na história e quando voltar, no fim dos tempos, para inaugurar os “novos céus e a nova terra”, os seus frutos de salvação terão sido imensos no resgatar da humanidade. No caso de Cristo, a harmonia entre o poder da Sua Palavra e a fé são claras. Ao centurião Ele diz: “Faça-se segundo a tua fé. E naquele momento o seu servo ficou curado” (Mt. 8,13). A Palavra de Cristo realiza sempre o que anuncia, mas a sua eficácia supõe a fé de quem recebe o fruto dessa acção. Aos miraculados o Senhor diz: foi a tua fé que te salvou.
3. Na origem do ser das coisas, a Palavra de Deus é o fundamento sólido da própria realidade. O Santo Padre Bento XVI, numa homilia durante o Sínodo, comentando o Salmo 118, diz: “A Palavra de Deus é o fundamento de tudo, é a verdadeira realidade. E para sermos realistas, temos mesmo que contar com esta realidade; temos que mudar a nossa ideia de que a matéria, as coisas sólidas que se podem tocar seriam a realidade mais sólida, mais segura. No final do Sermão da Montanha, o Senhor fala-nos das duas possibilidades de construção da casa da própria vida: na areia e na rocha. Constrói na areia somente quem edifica nas coisas visíveis e tangíveis, no sucesso, na carreira e no dinheiro. Aparentemente, estas são as verdadeiras realidades. Mas um dia tudo isto passará. E assim todas estas coisas, que parecem a verdadeira realidade com a qual contar, são realidades de segunda ordem. Quem constrói a própria vida sobre estas realidades, sobre a matéria, sobre o sucesso e sobre tudo aquilo que se vê, edifica na areia. Somente a Palavra de Deus é fundamento de toda a realidade, é estável como o céu e mais que o céu, é a realidade. Portanto, temos que mudar o nosso conceito de realismo. Realista é quem reconhece na Palavra de Deus, nesta realidade aparentemente tão frágil, o fundamento de tudo. Realista é aquele que constrói a sua vida precisamente neste fundamento, que permanece. E assim estes primeiros versículos do Salmo convidam-nos a descobrir o que é a realidade e a encontrar desde modo o fundamento da nossa vida e como construir a vida”
[2].

A Palavra em acção na Igreja
4. A Igreja é o lugar onde a Palavra de Deus continua a agir na história. Ela própria é um fruto da Palavra, sobretudo da palavra apostólica. Neste Ano Paulino, somos chamados a redescobrir como a palavra do Apóstolo gerou Igrejas, introduzindo, assim, uma novidade na sociedade daquele tempo. A palavra apostólica prolonga no tempo a força criadora da Palavra de Jesus que proclamou solenemente a perenidade da Sua Palavra: “O Céu e a Terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar” (Mt. 24,35). A palavra apostólica afirma-se na Igreja primitiva com esta força, como potência de salvação. O crescimento da Igreja é identificado com a expressão da Palavra: “E a Palavra do Senhor crescia; o número de discípulos aumentava em Jerusalém e uma multidão de sacerdotes obedecia à fé” (Act. 6,7; cf. 12,24).
A Igreja primitiva faz a experiência de identificar a Palavra em acção no crescimento da Igreja. O que a fé do Antigo Testamento acreditava acerca do poder da Palavra na criação e na história da salvação é agora verdade acerca da Palavra de Jesus, Ele que é a Palavra encarnada, continuada na palavra dos Apóstolos. Na obra da salvação e no crescimento da Igreja, a palavra apostólica tem a mesma força criadora que teve a Palavra eterna de Deus na criação e na história da salvação. Aliás, Jesus tinha prometido aos Apóstolos essa eficácia salvífica da sua palavra: “Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na Terra, no Céu será tido como ligado, e tudo o que desligardes na Terra, no Céu será tido como desligado” (Mt. 18,18). A mesma garantia será dada a Pedro (cf. Mt. 16,19ss). Um dos poderes da palavra dos Apóstolos que Deus tomará a sério é o poder de perdoar os pecados, algo que só Deus pode fazer: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo. 20,23).
O segredo do crescimento da Igreja passa por esta certeza do poder eficaz da Palavra na Igreja. Isso é absolutamente claro e seguro na acção sacramental da Igreja, pela qual torna actuante a força transformadora da Páscoa de Jesus. A celebração dos sacramentos é um caso claro da eficácia da palavra da Igreja. Quando a Igreja diz: “Isto é o Meu Corpo”, “recebe o Espírito Santo”, “os teus pecados são-te perdoados”, a eficácia desta palavra é garantida pelo Espírito Santo e nem sequer depende da santidade do ministro que a pronuncia. Mesmo pronunciada por um pecador, em nome da Igreja, ela realiza aquilo que diz.
Mas a eficácia da Palavra, pronunciada e anunciada pela Igreja, realiza-se também no coração dos cristãos, quando, na obediência da sua fé, eles deixam que a palavra realize neles o que anuncia. A justiça e a santidade são fruto da Palavra. A Igreja, desde o princípio, acredita que a Palavra é viva e eficaz: “Viva é a Palavra de Deus, eficaz e mais incisiva que uma espada de dois gumes” (Heb. 4,12). Referindo-se à presença dos cristãos na sociedade, São Paulo diz aos Filipenses: “No mundo, vós brilhais como focos de luz, apresentando-lhe a Palavra de vida” (Fil. 2,15-16).
Permitir que a Palavra seja viva, eficaz e criadora na nossa vida, eis o segredo do crescimento e da fidelidade da Igreja. Isso define a fé com que se escuta e acolhe a Palavra. Não pode ser uma fé que seja só aceitação teórica, tem de ser abertura humilde e confiante à força da Palavra que nos transformará o coração e mudará as nossas vidas.

A Fé e as Obras
5. Uma fé que aceita a Palavra, mas que não dá origem à concretização, nas nossas atitudes, dos frutos de vida e de redenção que a Palavra anuncia, não é a fé que nos salva. O Apóstolo São Tiago é claro a esse respeito, concretizando na caridade o fruto da palavra eficaz: “Para que serve, meus irmãos, se alguém diz «tenho fé», se não tem obras? A fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã estão nus, se não têm com que se alimentar e um de entre vós lhe diz: ide em paz, aquecei-vos, saciai-vos, sem lhes dar o que necessitam para o seu corpo, de que lhes serve? Acontece o mesmo com a fé; se não tem as obras, está completamente morta! (Tiag. 2,14-17). Esta situação, denunciada pelo Apóstolo, pode acontecer hoje: belíssimos discursos sobre a pobreza, que não levam a nenhuma acção em favor dos pobres.
O que é esta fé sem as obras? Pode ser uma adesão intelectual à Palavra, mas falta-lhe a coragem de exprimir em acções o que a Palavra sugere. É o caso em que a nossa vontade e a nossa liberdade se tornaram obstáculo à eficácia da Palavra. Esta sugere atitudes, exige mudança e generosidade. Acolher a Palavra é aceitar a sua exigência e empenhar a nossa vontade na realização das acções que ela sugere. No seu ensinamento, Jesus alerta para o perigo de acolher a Palavra sem a transformar em atitudes. É o sentido da Parábola do Semeador. Só num pequeno grupo a semente dá fruto abundante. Nos outros casos, a Palavra foi acolhida mas ficou estéril (cf. Mt. 13,3ss). “Não é dizendo “Senhor, Senhor”, que se entra no Reino dos Céus, mas fazendo a vontade de Meu Pai que está nos Céus”. Jesus distingue a sorte daqueles que ouvem a Sua Palavra e a põem em prática da daqueles que a ouvem e não a põem em prática (Mt. 7,21ss). Os que passam à prática são aqueles que “guardam” a Sua Palavra. Para São João, só quem cumpre os mandamentos, sobretudo o mandamento do amor, guarda a Palavra (cf. 1Jo. 2,3-5). Só esses, os que puseram a Palavra em prática no amor dos irmãos, amam a Deus (cf. Jo. 14,23).
Não há fé viva sem fidelidade, e esta não consiste em pensar sempre da mesma maneira, aceitando o ensinamento da Palavra de Deus; a fidelidade situa-se no campo da caridade, da luta pela justiça, pela vida, pela verdade. Na fidelidade, a fé torna-se acção, é força de transformação do mundo. É por isso que nas obras da fé, naquela fé que deixa a Palavra realizar o seu fruto, nós podemos escutar o Senhor, sentir o Seu Espírito em acção no mundo. É a força eloquente do testemunho. Contemplando os frutos da Palavra, nós podemos chegar até ela, encontrando o Senhor da Palavra, ou melhor, o Senhor que é Palavra.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] Mensagem dos Padres Sinodais
[2] Meditação do Papa Bento XVI durante a celebração da Hora “Tertia” no início da Primeira Congregação Geral do Sínodo dos Bispos