segunda-feira, abril 06, 2009

Catequese do Domingo de Ramos 2009

“A Palavra é pessoa: Jesus Cristo o rosto da Palavra”

Sé Patriarcal, 5 de Abril de 2009

Introdução
1. Na nossa experiência de convívio humano, não é habitual nem espontâneo, identificar a palavra e a pessoa. Estamos habituados a ouvir as palavras, que as pessoas proferem, escutamos o que têm para nos dizer, mas a pessoa não se confunde com a sua palavra. No entanto a nossa experiência humana também nos ensina que quando as palavras exprimem o mais íntimo de cada um, a sua verdade interior, elas são mais interpelativas, constroem comunhão, fazem desabrochar o amor e este é sempre entre pessoas.
Quando a pessoa se nos comunica pelas suas palavras, sentimos o desejo de lhe dar um rosto: os que se amam trazem consigo a fotografia da pessoa amada; fixam em imagem, conseguida pelas novas tecnologias, os momentos mais significativos duma relação e revê-las é ocasião de trazer à memória, não apenas o que nos disseram, mas o rosto de quem o disse, porque o rosto comunica, na sua expressão, a mensagem que se comunica. Quem escuta uma palavra que saiu do coração de quem a disse e tocou o coração de quem a escutou, grita por um rosto. Os Padres Sinodais lembraram-no à Igreja na sua Mensagem: “As palavras sem um rosto não são perfeitas, porque não permitem que o encontro seja completo, como recordava Job, chegado ao fim do seu dramático itinerário de busca: «conhecia-te por ouvir dizer; agora os meus olhos vêem-te» (Job. 42,5)”[1].

Escutar a Palavra de Deus suscita o desejo de ver o Seu rosto
2. Também a Palavra de Deus, quando é escutada como Palavra de amor, grita por um rosto. O Deus, tão vivo e amoroso na Sua Palavra, tem de ter um rosto. Querer contemplá-l’O é consequência do acolhimento dessa Palavra.
Já no Antigo Testamento os crentes exprimem esse desejo. Moisés, o amigo de Deus, a quem a Palavra de Deus mudou a vida e iluminou todos os caminhos que percorreu, num momento de grande intensidade no Sinai, em que Deus lhe fala e, através dele, a todo o povo, ousa manifestar esse desejo:
“peço-te a graça de me deixares ver o Teu rosto”. Deus responde-lhe com ternura, como que tendo pena de não poder satisfazer o seu desejo: “Tu não podes ver o meu rosto, porque nenhum homem me pode ver e continuar vivo” (Ex. 34,18.20).
Este desejo surge com veemência nos grandes orantes de Israel, os salmistas. A oração é o encontro pessoal e íntimo com Deus, onde se escuta a Sua Palavra de amor, como Palavra de vida. Esse encontro suscita o desejo veemente de contemplar o rosto de Deus. “O meu coração diz-me: procura o Seu rosto. É o Teu rosto, Yahwé, que eu procuro, não me escondas o Teu rosto” (Sl. 27,8).
Ver o rosto de Deus é, para o salmista, uma bênção e manifestação máxima da benevolência divina: “Deus se compadeça de nós e nos abençoe, faça brilhar sobre nós a luz do Seu rosto” (Sl. 67,2). Mas a resposta que Deus deu a Moisés, “tu não podes ver o Meu rosto”, é confirmada pelo Apóstolo São João: “Deus nunca ninguém O viu” (Jo. 1,18). Estas preces dos crentes que escutaram a Palavra do Senhor são, no fundo, o pedido que Deus se torne visível, de modo a poder contemplar o Seu rosto, pelo que Ele se faz homem e todos poderão contemplar o rosto do Deus que fala com tanto amor, no rosto de Jesus Cristo, a Sua única Palavra eterna feita homem. E por isso São João continua no prólogo do seu Evangelho: “Deus nunca ninguém O viu; o Filho único, que está no seio do Pai, no-l’O deu a conhecer” (Jo. 1,18). Jesus Cristo é a encarnação do Filho, do Verbo eterno do Pai. No Seu rosto humano, podemos, finalmente, contemplar o rosto de Deus que nos fala com Palavras de amor.

O grande mistério da nossa fé
3. “O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória” (Jo. 1,14). Este é o grande mistério, o coração da fé cristã
[2]. Já no texto do Êxodo que citámos, ver o rosto de Deus era sinónimo de ver a Sua glória. Agora podemos contemplá-la na humanidade de Jesus Cristo. e contemplar o rosto de Deus em Jesus Cristo continua a ser acolher a Palavra de Deus, porque Ele, o Filho, é a Palavra eterna. Não se trata, apenas, de ver o rosto de Deus num rosto humano. É todo o diálogo, o encontro entre o homem e Deus que se humanizou. A Palavra fez-se carne, isto é, humanizou-se. Tudo o que é humano em Jesus, o Seu rosto, as Suas Palavras, os Seus gestos, a Sua alegria e a Sua dor, a Sua consciência e a Sua vontade, são decisivos para esta nova escuta da Palavra, para estabelecer definitivamente a comunhão dos homens com Deus, isto é, são decisivos para a salvação.
Durante séculos, Deus falou por intermédio dos profetas, porque eles ofereciam a linguagem humana à Palavra transcendente. Agora, que o Verbo se fez homem, fala directamente aos homens, sem a mediação dos profetas, porque a humanidade de Jesus pronuncia a Palavra eterna (cf. He. 1,1ss). Deus tornou-se mais próximo do homem.
A encarnação do Verbo deu um novo rosto e um novo dinamismo à nossa fé. Trata-se agora de acreditar em Jesus, de reconhecer n’Ele a eterna Palavra de amor que Deus tem para nos dizer, de descobrir no realismo da Sua humanidade a palavra e o rosto de Deus. Mas porque Ele é homem, real e verdadeiro, trata-se de reconhecer n’Ele o verdadeiro rosto do homem como Deus o criou, à Sua imagem e o destina à glória da visão face a face.
João Paulo II, referindo-se às dificuldades que os discípulos tiveram de reconhecer o Senhor ressuscitado, escreve: “na realidade, por mais que se olhasse e tocasse o Seu corpo só a fé podia penetrar plenamente no mistério daquele rosto (…). A Jesus só se chega verdadeiramente pelo caminho da fé”
[3].
A humanização de Deus em Jesus Cristo não dispensa a fé para chegar a contemplar o rosto de Deus. Ele é a Palavra encarnada e à Palavra de Deus só se pode responder com a fé, que ganhou, ela própria, a densidade da encarnação.
No diálogo com os Apóstolos, em Cesareia de Filipe, Jesus ao elogiar a fé de Pedro que reconheceu na Sua humanidade o Messias, o Filho de Deus vivo, Jesus reconhece que isso lhe foi possível pela graça da fé: “Não foram nem a carne nem o sangue (isto é, as tuas forças humanas) quem to revelou, mas o Meu Pai que está nos Céus” (Mt. 16,17). E o Papa João Paulo II comenta: “À plena contemplação do rosto do Senhor, não chegamos pelas nossas simples forças, mas deixando a graça conduzir-nos pela sua mão. Só a experiência do silêncio e da oração oferece o ambiente adequado para maturar e desenvolver um conhecimento mais verdadeiro, aderente e coerente daquele mistério”
[4].

Os caminhos que nos levam a contemplar o rosto de Deus em Jesus Cristo
4. O caminho é Jesus Cristo. O processo da fé consiste em reconhecer o Filho do Pai, o Verbo eterno, na humanidade de Jesus. Não se trata de abstrair do humano, mas de reconhecer nesse homem, que é Jesus de Nazaré, o Filho eterno do Pai.
Esta humanidade de Jesus, o Cristo histórico e real, em que a fé nos leva a reconhecer o rosto de Deus, encontramo-la, antes de mais, através da Sagrada Escritura, de modo especial os Evangelhos. Bento XVI no seu livro “Jesus de Nazaré” afirma, comentando as modernas correntes exegéticas, que os Evangelhos nos comunicam o Jesus histórico. João Paulo II, por sua vez, já afirmara: “A contemplação do rosto de Cristo não pode inspirar-se senão naquilo que se diz d'Ele na Sagrada Escritura, que está, do princípio ao fim, penetrada pelo seu mistério; este aparece obscuramente esboçado no Antigo Testamento e revelado plenamente no Novo, de tal maneira que São Jerónimo afirma sem hesitar: a ignorância das Escrituras é ignorância do próprio Cristo”. E conclui: “Os Evangelhos não pretendem ser uma biografia completa de Jesus, segundo os cânones da ciência histórica moderna. No entanto, neles aparece, com fundamento histórico seguro, o rosto do Nazareno”
[5].
É na intimidade com Jesus Cristo que se aprende a escutar a palavra da Escritura, de toda a Escritura, como Palavra de Deus. Porque Cristo é a humanização da Palavra eterna de Deus, Ele está presente em toda a Escritura, toda ela conduz à descoberta do rosto de Deus no rosto humano de Seu Filho. Isto mesmo está claro na narração de São Lucas sobre a caminhada dos discípulos para Emaús depois da crucifixão de Cristo. O ressuscitado acompanha-os, mas eles não O reconhecem. E para os levar a reconhecê-l’O, Ele explica-lhes o que, em todas as Escrituras, se referia a Ele (cf. Lc. 24,27).
O ritmo da fé cristã não consiste apenas em ler a Escritura para chegar a Cristo. Trata-se de escutar, sempre de novo, a Palavra revelada, no contexto de uma relação de fé com Jesus Cristo. A Escritura conduz-nos a Cristo, mas Ele conduz-nos ao verdadeiro sentido da Escritura como Palavra de Deus. É por isso que na Igreja o lugar privilegiado da escuta da Palavra sempre foi a oração, sobretudo a Eucaristia. Mais do que em qualquer outro momento, na Eucaristia as palavras da Escritura conduzem-nos a mergulhar no insondável mistério do Deus Palavra, onde a Palavra é uma Pessoa, Aquele que me ama e eu quero amar.

O que nos revela o rosto de Cristo
5. O rosto de Cristo é um mistério, como o é o próprio Cristo. Não se trata aqui da sua aparência física, cujos contornos se perderam na bruma do tempo. Trata-se de captar, na fé, sobretudo através da Palavra de Deus, o que a humanidade de Jesus nos revela de Deus, sobretudo o que Deus é para nós, pois esse é o sentido profundo da encarnação: em Cristo Deus revela-se a Si mesmo, enquanto manifesta o Seu desígnio de amor acerca do homem que criou.
Ao revelar-se a Si mesmo, no rosto de Cristo, descobrimos o Filho, e no Filho eterno do Pai, penetramos no mistério de Deus comunhão de Pessoas, o mistério da Santíssima Trindade. Só na humanidade de Jesus percebemos que Ele é, desde toda a eternidade, o Filho predilecto do Pai. No rosto filial de Jesus reflecte-se, para nós, o mistério insondável de Deus. Os Evangelhos mostram-nos que em todas as expressões da vida humana de Jesus, mesmo na Paixão, resplandece, para nós, esta consciência de ser Filho do Deus Altíssimo, transmitindo-nos a prioridade absoluta de Deus em todas as expressões da nossa vida humana. Já no Templo, aos 12 anos, essa consciência clara se manifesta: “Porque Me procuráveis? Não sabíeis que devia esta em Casa de Meu Pai?” (Lc. 2,49). E esta consciência manifesta-se em todas as etapas do normal crescimento humano de Jesus. Demos a Palavra a João Paulo II: “Embora seja lícito pensar que, no respeito da condição humana que O fazia crescer «em sabedoria, em estatura e em graça» (Lc 2,52), também a consciência humana do seu mistério tenha crescido até à expressão plena da sua humanidade glorificada, não há dúvida de que Jesus, já nos dias da sua existência histórica, tinha consciência da sua identidade de Filho de Deus. João sublinha-o tanto que chega a afirmar que, em última análise, foi esse o motivo por que O rejeitaram e condenaram: na realidade procuravam matá-l’O «não só por violar o sábado, mas também porque dizia que Deus era seu Pai, fazendo-Se igual a Deus» (Jo 5,18). No cenário do Getsémani e do Gólgota, a consciência humana de Jesus será submetida a dura prova, mas nem sequer o drama da sua paixão e morte conseguirá turbar a sua serena certeza de ser o Filho do Pai celeste”
[6].
Porque no rosto de Cristo brilha para nós essa qualidade e intimidade de Filho, ele anuncia-nos, também, a nossa qualidade filial de filhos de Deus, “filhos no Filho”. É contemplando esse rosto filial que nos descobrimos na dignidade de filhos de Deus.

6. Não temos agora tempo de desenvolver outras dimensões do rosto de Cristo, o Seu rosto de bondade e de ternura, o Seu rosto sofredor, a plenitude da vida no Seu rosto glorioso. As celebrações que se aproximam serão a ocasião de contemplar essas múltiplas expressões do rosto de Jesus Cristo e de perceber mais profundamente que, em tudo, Ele é uma Palavra de amor que Deus pronuncia para nós, em cada momento da nossa vida.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

[1] Mensagem Post-Sinodal
[2] Ibidem
[3] João Paulo II, Novo Millenio Ineunte (NMI), nº 19
[4] Ibidem, nº 20
[5] João Paulo II, NMI, nn. 17 e 18
[6] Ibidem, nº 24