segunda-feira, novembro 30, 2009

Ordenações de diáconos

Da homilia do Cardeal-Patriarca nas ordenações de diáconos

O Advento é, espiritual e culturalmente, tempo de esperança, de anúncio da esperança. Mais uma vez a Igreja, através da Liturgia e da Palavra de Deus que ilumina toda a realidade humana, vai anunciar a esperança. E a nossa sociedade bem precisa desse anúncio, para reencontrar o sentido da vida e da sua identidade cultural. (…)

É preciso purificar a esperança. E a interrogação que nos lança este tempo litúrgico dirige-se particularmente aos cristãos: desejamos verdadeiramente esse encontro com Cristo? Estamos conscientes de que esse encontro é possível já, na riqueza sacramental da Igreja, no realismo da caridade e da comunhão fraterna? Se não desejarmos esse encontro já, dificilmente desejaremos com verdade a sua última manifestação.

Os cristãos que desejam e procuram esse encontro tornam-se artífices da construção de um mundo novo. Se não formos capazes de transpor para o nosso viver em sociedade esta novidade cristã, não percebemos a densidade da esperança. Era já essa a pregação do Apóstolo Paulo: “O Senhor confirme os vossos corações numa santidade irrepreensível”; “deveis progredir sempre mais”, nesta novidade da vida cristã (cf. 1Tess. 3,12-4,2). (…)

O desafio do Advento é o de sermos capazes de reduzir tudo o que esperamos e desejamos, ao encontro com quem esperamos e desejamos. Encontremo-l’O, encontremo-nos mais profundamente uns aos outros, e estaremos a purificar a esperança.

Queridos Ordinandos! Estais aqui porque o Senhor veio ao vosso encontro, chamando-vos, e vós aceitastes o desafio desse encontro, dizendo sim ao chamamento. Esse desejo de encontro convosco é, da parte do Senhor, válido para a eternidade. Esse é o verdadeiro fundamento da nossa esperança de encontrarmos o Senhor, na certeza de que Ele vem continuamente ao nosso encontro e o deseja ardentemente. A nossa fidelidade consiste em querermos também responder a essa vontade de Deus, em Jesus Cristo.

O ministério a que sois chamados será a mais concreta e objectiva resposta da vossa fidelidade. Hoje, sois consagrados para o ministério dos diáconos, em que o anúncio sincero da Palavra de Deus e a prática da caridade se revelam como propostas contínuas do encontro de Deus com o Seu Povo, mostrando-nos que no amor fraterno se encontra o próprio Senhor. Mas recebeis o ministério diaconal na perspectiva de, a curto prazo, serdes ordenados sacerdotes. Então, como sacramentos de Cristo, estareis no âmago do grande e mais radical encontro de Cristo com o Seu Povo e com cada crente, a Eucaristia. Ela é o lugar certo desse encontro com garantias de eternidade e, por isso, a exigência contínua da purificação da esperança. É aí que tornamos possível viver a nossa vida obedecendo à Palavra de Jesus que hoje escutámos no Evangelho: “Vigiai e orai em todo o tempo, para terdes a força que vos livra de tudo o que vai acontecer e poderdes estar firmes na presença do Filho do Homem” (Lc. 21,36).

Mosteiro dos Jerónimos, 29 de Novembro de 2009 - 1º Domingo do Advento